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Um sistema solar chamado Sebastián Coates Nión

O Sporting foi dominado na 1.ª parte pelo Gil Vicente, começou a perder, mas as idas ao banco de Rúben Amorim viraram o jogo a seguir ao intervalo. E quando o golo não apareceu, surgiu um sistema solar chamado Coates, a mudar o destino do encontro nos últimos 10 minutos. A estrelinha dele, essa, existe sim, e foi por ela que ele foi herói na intermitente chuvada bíblica de Barcelos

Lídia Paralta Gomes

Octavio Passos/Getty

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Não sei bem o que lhe poderemos chamar. Estrelinha talvez seja não reconhecer que, numa altura em que o Sporting fazia uma das piores exibições da época, Rúben Amorim mexeu e tornou a equipa melhor. Talvez seja não querer ver que o treinador dos leões, mesmo sem mudar um milímetro ao sistema, fugiu ao óbvio, lançando Gonçalo Inácio ao intervalo, um central, porque era preciso atacar mais, paradoxalmente. Ou Daniel Bragança quando era preciso ter mais bola, inventar espaços numa altura em que eles pareciam todos fechados.

Mas talvez haja algo de sobrenatural, sim, não é todos os dias que um defesa central aparece à entrada da área e apresenta à bola um chicote de primeira, empatando um jogo que parecia encalhado na intermitente chuva bíblica que tanto apareceu como desapareceu em Barcelos. Ou que o golo da reviravolta chegue pela cabeça do mesmo homem, aqui já será algo mais comum, mas aquela cabeça tinha vontade e talvez tenhamos todos percebido que vontade extra era aquela na cabeça de Coates quando na flash ele quase se desmanchou a chorar, porque esta semana um grande amigo, o jogador Morro García, encurtou a sua vida na terra, porque a estrelinha, essa, não aparece a todos e às vezes vai-se embora nos momentos em que mais precisamos dela.

Mais uma estrelinha tem agora Coates no céu, mas ele esta noite foi todo um sistema solar no Sporting, com aqueles dois golos e uma reviravolta que faz aumentar o fosso para o 2.ª lugar: são agora oito pontos para o FC Porto, é muito ponto, mas também é possível que este jogo frente ao Gil Vicente tenha reforçado a cautela, porque neste campeonato “esquisito”, como lhe chamou Rúben Amorim, a verdade é que todas as equipas parecem capazes, com melhores ou piores armas, de tirar pontos aos favoritos.

Veja-se o Gil Vicente, por exemplo, que no meio da chuva da 1.ª parte secou o Sporting naquilo que o Sporting faz melhor. Com uma linha de cinco defesas, retirou espaços ao líder, aqueles espaços que o Sporting tanto gosta de aproveitar na profundidade. Pressionou o meio-campo dos leões, obrigou a erros, matou o jogo interior do Sporting e nem a linha defensiva de Amorim, sempre tão certinha, parecia com a calma do costume. A lição estava bem trabalhada.

Octavio Passos/Getty

E por isso o Gil foi melhor equipa na 1.ª parte e nem era exatamente surpreendente a vantagem ao intervalo. Aos 26’, Palhinha errou, Fujimoto avançou e Adán ainda defendeu o primeiro remate, assistindo completamente desarmado ao falhanço de Baraye na recarga. Era o primeiro aviso para o que viria a seguir, dez minutos depois precisamente, novamente a defesa passiva sem conseguir matar uma jogada do Gil e novamente o japonês Fujimoto como ator principal, a fugir nas costas de Antunes para dar o melhor caminho a um cruzamento tão perfeito quanto venenoso de Claude Gonçalves.

Rúben Amorim sabia que aquele Sporting da 1.ª parte não ganharia em Barcelos e as substituições deram mais Sporting ao jogo. Gonçalo Inácio deu o balanço para o ataque e a segurança na defesa que Neto não parecia conseguir dar. Tiago Tomás ofereceu altruisticamente a intensidade do costume. E Daniel Bragança deu o toque de bola, o talento para sair dono dela em lances que o Sporting havia invariavelmente perdido na 1.ª parte. Ainda assim, faltava criar mais e a 10 minutos do fim do jogo a única oportunidade clara havia sido de Tiago Tomás, já há quase 20 minutos, a dar mal na bola após um canto que o tinha deixado em cima de Denis.

Apareceu então Coates, carregando um sistema solar atrás de si, às vezes a dor faz destas coisas, deixa as pessoas com uma outra força qualquer e neste caso foi a força suficiente para virar um jogo: um golo aos 83’, outro aos 90’+1, o último com uma ajudinha de Denis.

Já são vários os jogos do Sporting virados nos últimos minutos, os campeões também se fazem destes acreditares e o acreditar do Sporting vai durando e durando. Poderá durar mais uma volta de jogos?