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Fatura de meio milhão envolve empresa de Antero Henrique na ida de Amorim para o Sporting

Documento a que o Expresso teve acesso aponta para comissão de meio milhão de euros da empresa DHZ, numa fatura de julho de 2020 que tinha como destinatária a empresa do agente de Ruben Amorim

Miguel Prado

ANTÓNIO COTRIM

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Uma fatura no valor de 500 mil euros mais IVA, com um total de 615 mil euros, foi lançada pela empresa DHZ Consulting, controlada por Antero Henrique, ex-diretor e ex-administrador do Futebol Clube do Porto, tendo como destinatária a empresa Nomiblue Sports, de Raul Pais da Costa, antigo responsável jurídico dos dragões. Em causa: a transferência de Ruben Amorim do Braga para o Sporting.

A fatura, a que o Expresso teve acesso, data de 23 de julho de 2020 e tem o seguinte descritivo: “Prestação de serviços de consultoria e assessoria, tendo em vista a transferência do treinador de futebol Ruben Amorim, do Sporting Clube de Braga para o Sporting Clube de Portugal”.

Contactado pelo Expresso, Raul Pais da Costa não quis fazer comentários. Tentámos também ouvir esta quinta-feira Antero Henrique sobre o tema, questionando-o sobre se confirmava a existência da fatura e sobre quando terá sido recebida pela DHZ a comissão aí referida de meio milhão de euros, mas o empresário não respondeu de imediato aos contactos feitos.

Esta quinta-feira, na rede social Twitter, Rui Pinto denunciou uma alegada comissão recebida por Antero Henrique. “Sem querer pôr em causa o mérito e o bom futebol praticado pelo Sporting, e sem querer ser mal interpretado, há um senhor influente e conhecedor dos meandros obscuros do futebol português que está particularmente interessado e empenhado no sucesso desportivo do Sporting e no insucesso do FC Porto, para na era pós-Pinto da Costa assaltar o poder, revestido com o manto de salvador da pátria azul e branca. É um dos beneficiários de comissões da ida de Ruben Amorim para Alvalade, estou a falar obviamente de Antero Henrique”, escreveu no Twitter o autor do blog Football Leaks, que está a ser julgado por 90 crimes.

Não é claro o que sucedeu com a fatura de 615 mil euros (500 mil euros mais IVA) a que o Expresso teve acesso, que até pode ter sido emitida e entretanto anulada. Uma das fontes ouvidas pelo Expresso e conhecedora deste dossiê, mas que só falou sob anonimato, admite que a fatura possa ter sido “um erro”, assegurando que da Nomiblue não saiu qualquer pagamento para a DHZ.

As últimas contas publicadas pela Nomiblue são relativas a 2019. Nesse ano a empresa de Raul Pais da Costa teve uma faturação de 4 milhões de euros, a maior desde que a sociedade foi criada, em 2017. E lucrou 1 milhão de euros.

Também a DHZ tem como últimas contas disponíveis o exercício de 2019, no qual registou zero euros de vendas e um resultado líquido negativo de 84 mil euros. Já em 2018 a DHZ nada tinha faturado, mas em 2017 (o ano em que foi criada) registou vendas de 3,2 milhões de euros.

Segundo a informação publicada no portal da Justiça, a DHZ tem Antero Henrique como sócio maioritário, com 96%. O objeto da DHZ é “consultoria, contratação, intermediação, aquisição de direitos de inscrição e de imagem de profissionais de futebol”, bem como “representação e gestão de carreiras de profissionais desportivos”, entre outras atividades.

Antero Henrique trabalhou durante mais de duas décadas no Futebol Clube do Porto (FCP), onde chegou a administrador, cargo que deixou em setembro de 2016. Em 2017 tornou-se diretor desportivo do Paris Saint-Germain, de onde sairia em meados de 2019.

O antigo homem forte do FCP é cunhado de Ruben Amorim e foi quem apresentou o técnico a Raul Pais da Costa, que depois de deixar o departamento jurídico dos dragões se tornou intermediário no futebol, dirigindo a Nomiblue Sports. E assim se tornou o representante de Ruben Amorim.

Em setembro do ano passado o presidente do Braga, António Salvador, revelou, numa entrevista à Next TV, que o agente de Ruben Amorim terá conseguido uma comissão de 1 milhão de euros com a sua transferência para o Sporting porque o técnico tinha acordado com o Braga o direito a 10% se os minhotos recebessem pela sua saída o valor estipulado na cláusula de rescisão (10 milhões de euros).

“Lembro-me que quando estávamos a assinar o contrato com ele, não pagámos contrapartidas, nem a ele nem ao agente. Foi-lhe reservada uma fatia de 10% para o caso de ser transferido pela cláusula de rescisão, que foi fixada em dez milhões de euros. Nenhum de nós acreditava que isso seria possível, mas, depois, apareceu o Sporting e foi o que sucedeu”, declarou Salvador, citado pelo "Jornal de Notícias".

O último relatório e contas anual do Sporting, publicado em setembro, reconhece que na época 2019/2020, a SAD leonina registou em março de 2020 um encargo de 10 milhões de euros com a contratação de Ruben Amorim, acrescido de outros encargos de 500 mil euros. Um valor que coincide com a rubrica de valores a pagar a fornecedores, em que a Nomiblue Sports aparece como credora de 500 mil euros.