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Sporting. Lembram-se do #ondevaiumvãotodos? Pois, a história tem tendência a repetir-se

O segundo empate consecutivo do Sporting emagreceu-lhe a vantagem que tinha sobre os seus rivais. Nervosa e por vezes instável, a equipa de Amorim viu-se equiparada na intensidade pelo Famalicão que, uma volta atrás, também travara os leões

Pedro Candeias

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Lembram-se do “Onde vai um vão todos”? Eu recordo.

Foi há precisamente uma volta que Rúben Amorim transformou uma frase catchy num mantra, no jogo em que o Sporting saiu de Famalicão com um empate a dois golos, um penálti falhado, a expulsão de Pote por protestos, e a do próprio treinador por estas palavras: “Vão para o c..., roubalheira do c..., isto é uma vergonha, estão a roubar-nos dois pontos”. O ipsis verbis é dispensável.

Pois bem, Sporting e Famalicão tinham reencontro marcado para esta noite, muitas noites depois de várias coisas terem mudado para cada um deles: o Sporting fez-se candidato-favorito ao título, o Famalicão demitiu um treinador e depois outro, até recrutar Ivo Vieira.

E este último trouxe algo ao clube, algo que Rúben Amorim conhece bem, e que nós conhecemos por atitude, embora a palavra usada pelo técnico leonino seja outra. A saber, “ranhosos”, e ranhosos são os jogadores que não desistem do lance, de pôr o pé, de correr e de acreditar. Isso traduz-se nos duelos individuais e na solidariedade; lá está, “onde vai um vão todos”.

O Sporting foi com todos, menos com Gonçalo Inácio (lesionado), substituído por Neto. O habitual desenho defensivo (três centrais e dois laterais subidos), dois médios (um trinco e um organizador) e três avançados (um ponta de lança e dois soltos). Desta vez, com uma nuance: foi Pedro Gonçalves a jogar no centro-direita e João Mário a descair para a meia-esquerda do ataque.

Mas, globalmente, o timbre era o do costume, ou seja, muita gente a fazer movimentos de rotura em direção à baliza, a empurrar o adversário e a massacrar os seus defesas, com um martelo pneumático no asfalto que inevitavelmente quebra. E quebrou, quando Iván Jaime recebeu um passe feito com demasiada força, perdeu a bola para Pote que disparou para uma combinação com Paulinho para o 16.º golo da época.

A estratégia funcionava: perante uma equipa que jogava apoiado e com a defesa subida, pressionar e correr é um atalho que resolve rapidamente os problemas.

O problema, para os leões, é que segundos depois o excelente Rúben Vinagre ultrapassou Pedro Porro na linha, em força e em velocidade, cruzou para Iván Jaime, este perdeu a posse e a bola foi encontrar Anderson e, enfim, a baliza de Adán.

Esse momento alterou o status quo, pois o Famalicão encheu o peito de confiança, tornou-se cada vez mais agressivo e assertivo nos duelos individuais e aproveitou algum nervosismo e instabilidade emocional dos leões, cujo rendimento tem decaído nos últimos jogos.

Pela primeira vez, Palhinha, Porro e Feddal estavam a ser consistentemente superados por rivais, no físico e na intensidade. Pondo os nomes no texto, Gil Dias, Iván Jaime, Pêpê, Ugarte e o talentoso Assunção - este sempre de olho em Paulinho e nos seus defesas centrais, a coordenar movimentos - impediram que o Sporting jogasse o que queria jogar.

Para a segunda-parte, Rúben Amorim reformulou o meio-campo e da defesa, trocando Palhinha por Daniel Bragança, e Feddal por Matheus Reis; Nuno Mendes passou para central esquerdino. Homem por homem, o mesmo modelo: a ideia, como o próprio diz muitas vezes, é tentar coisas novas com jogadores diferentes.

E não há dúvida que Bragança é diferenciado, capaz de fintar quem apanha pela frente apenas com o movimento do corpo, e sair em progressão por ali fora - os antigos diriam que é um regalo vê-lo jogar à bola. E, por outro lado, Amorim talvez pensasse, também, que o músculo dos famalicenses viesse a prender com tanta correria. E gente fresca obriga a trabalho extra.

Só que, até ao minuto 60, isso não sucedeu, e o resultado continuava amarrado ao empate apesar de um falhanço de Tiago Tomás que não aproveitou uma perda de bola infantil de Assunção ao tentar fazer um túnel em zona proibida. Portanto, Amorim pôs o volumoso Jovane e tirou o apagadíssimo João Mário, novamente para tentar coisas novas com jogadores diferentes. Algo que fizesse faísca e inflamasse a equipa, mas nada feito.

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Acocorado, como Bielsa, Amorim dava voltas à cabeça à procura de uma solução qualquer que quebrasse o espírito do Famalicão, enquanto Ivo Vieira procedia à primeira alteração: retirou o ponta de lança Anderson e pôs o veloz Heriberto Tavares a jogar com Gil Dias e Iván Jaime; os três iriam trocar constantemente de posição entre eles, procurando baralhar as contas de Coates, Quaresma (Neto saiu, agarrado à coxa) e Nuno Mendes.

E assim ia o jogo aos 78 minutos e picos, sem Tiago Tomás (troca com Nuno Santos, avançado por avançado, pois claro) e sem grandes sobressaltos para os guarda-redes, apesar do assédio leonino. Mas como o Sporting era o Sporting e já vencera várias batalhas nos minutos em que se costuma desistir das mesmas, era avisado não alinhavar prognósticos à medida que o relógio se aproximava dos 90’ com o cerco dos de Alvalade em franca construção.

E se isso convidava o treinador adversário a trancar as portas, Ivo Vieira deu uma no cravo e outra na ferradura, mudando Jaime por Kraev e Gil Dias por Fernando, extremos por extremos, e a seguir Pêpê por Diogo Queirós, médio por central, e Ugarte por Joaquín, médio por médio.

Por esta altura, entrava-se nos descontos e no domínio da estrelinha, que não despontou quando Jovane chutou, sem oposição, por cima, para desespero de Amorim, que assim assistia ao segundo empate consecutivo. Quando Rui Costa apitou pela última vez, o banco dos leões saltou com uma mola, com o treinador a liderar o pelotão nos protestos por suposto penálti sobre Jovane. Obviamente, acabou expulso.

A história tem uma perversa tendência para ser repetir.