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Sporting. A maçã de Adán é um caroço na garganta de Beto

O Sporting bateu o Farense, no Algarve, num clássico vivo, entretido, rápido, sem anti-jogo e com ideias foram sendo baralhadas e distribuídas durante os 90 minutos. Num duelo de guarda-redes, foi o espanhol a levar a melhor - porque ganhou

Pedro Candeias

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O génio de Helmut von Moltke traduzia-se na descentralização e na organização irrepreensível: o líder do exército da Prússia acreditava que o número de soldados em campanhas era demasiado grande para ser controlado apenas por um só cérebro, e portanto promovia oficiais capazes de tomar boas decisões por eles próprios; por outro lado, von Moltke defendia que ninguém devia ir para a guerra com uma só estratégia na cabeça, porque as batalhas não eram corpos estanques e havia demasiadas variáveis em causa.

Dizia ele que “nenhum plano sobrevive ao primeiro contacto com o inimigo”, frase mais tarde adulterada por Mike Tyson com a célebre “todos os planos são bons até ao primeiro soco”.

O que quer isto dizer? Todas as ideias são boas até deixarem de o ser - e quando isso acontece, o melhor é adaptarmo-nos e sobreviver. Por exemplo, o Sporting que entrou este campo em Faro era um Sporting sensivelmente diferente, porque os jogadores escolhidos por Rúben Amorim anunciavam um bocadinho mais de posse e menos roturas para a baliza. Com Daniel Bragança, Palhinha, Pedro Gonçalves, João Mário e Paulinho no onze, e Tiago Tomás e/ou Nuno Santos no banco, Amorim queria possivelmente controlar e jogar entrelinhas, perante um adversário aflito que tendencialmente se defenderia lá atrás, como todas as equipas na luta pelo ponto costumam fazer.

[São suposições minhas, baseadas em visionamento de jogos da Liga portuguesa, e julgo que Amorim terá suposto mesmo; não matem o mensageiro por isso.]

Ora, o Farense - Sporting da primeira-parte não foi um jogo entre jogadores em modo sobrevivência e outros na luta pelo título - normalmente, esses são até bastante aborrecidos -, mas um encontro vivo, rápido e repartido.

Que é sinónimo de dividido, coisa que o foi a espaços, ainda que o Sporting tenha somado mais ocasiões e marcado um golo na sequência de um canto, após uma defesa extraordinária de Beto num tiro de cabeça de Coates. A bola foi posteriormente batida por Nuno Mendes, houve um corte, uma recuperação, um cruzamento, um cabeceamento de Paulinho, um corte deficiente de César e um remate poderoso de Pedro Gonçalves, que assim recuperou a liderança entre os goleadores da Liga.

Mas isso não significa que o Farense tenha sido dominado neste período; pelo contrário, os merengues do sul português conseguiram impedir a ideia original de Amorim - a construção leonina, com mérito de Amine e Jonathan Lucca -, procuraram passes verticais para Pedro Henrique e, sobretudo por Ryan Gauld, ensaiaram tiros à baliza de Adán, que sairia do São Luís com um desempenho notável, a cortar lances legais (e não legais).

A vantagem do Sporting aceitava-se, porque era mínima e nada mais do que isso, abrindo perspetivas para uma segunda-parte bem disputada entre dois adversários que não podiam ser mais diferentes apesar do nome que os une.

E assim foi, e foram Adán e Beto, guarda-redes experientes e batidos, que seguraram as suas equipas à corrente. O espanhol travou um cabeceamento de Mancha, um tiro de Pedro Henriques, fez uma mancha a Henrique (num lance que seria anulado por fora de jogo) e negou o golo a Mansilha: Mancha, mancha, Mansilha, parece um joguinho de palavras, mas foi um jogão de Adán.

Já o português evitou em corrida um golo fácil de Paulinho, mesmo na linha de baliza; seria entre ambos a escolha de melhor futebolista em campo. Como dos vencidos não se rezam muitas crónicas, ganhou Adán - embora à tangente.

Porque o Sporting jamais conseguiu dominar integralmente as operações e, por outro lado, não se revelou tão terrivelmente eficaz como em encontros anteriores a concretizar oportunidades e a manter os adversários ao largo. Nem mesmo quando entraram os velocistas Tiago Tomás e Nuno Santos, recuperando coisas antigas, os leões foram mais assertivos.

Bom, há demérito leonino, sim, mas igualmente mérito dos algarvios de Jorge Costa, cuja disponibilidade para pressionar e carregar sobre o líder do campeonato desde o primeiro minuto - e sem recorrer às armadilhas habituais do futebol português - valorizou este clássico entretido.