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Onde vão todos, faltou um. Mas Coates valeu por vários

O Sporting ganhou em Braga por 1-0 num jogo em que aos 18 minutos já estava a jogar com menos um e onde teve de ser pragmático: fechar-se lá atrás e esperar uma nesga, um erro, uma abertura minúscula do vórtex. E ela apareceu, já nos últimos 10 minutos, com Matheus Nunes a dar aos leões muito provavelmente a vitória mais inesperada da época. Mas antes disso, houve um Sebastian Coates que limpou tudo, que não falhou um corte, um lance aéreo, uma bola dividida. Faltava um, mas ele fez com que não parecesse

Lídia Paralta Gomes

HUGO DELGADO/LUSA

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Há muito que não se falava da omnipresente estrelinha que ia acompanhando o Sporting em vários jogos esta época e também não é agora que vamos voltar a falar nela. O Sporting ganha em Braga porque, na adversidade, teve um plano. Mais ou menos bonito, foi um plano. E como num qualquer filme de ação de herói musculado e gota de suor na testa, é possível que esse plano só tivesse uma saída, uma hipótese, aquela nesga para salvar a cidade, quem sabe a humanidade.

Quando Matheus Nunes recebeu uma bola de Pedro Porro pela direita, num lance em tudo semelhante àquele com que o Sporting derrotou o Sp. Braga na Taça da Liga, e sem olhar para a baliza colocou toda a sua fé naquele remate, essa única oportunidade foi aproveitada. Se estivéssemos no cinema, os créditos teriam começado ali mesmo.

Porque só assim o Sporting poderia sair a sorrir de um jogo em que aos 18 minutos já estava com menos um, depois de Gonçalo Inácio reagir com duas faltas a dois erros frente a um Sp. Braga que, em igualdade numérica, já era a equipa com mais bola e presença no meio campo adversário. Se já estava difícil com 11, com 10 provavelmente só um plano de guerrilha resultaria.

Lá no cimo da Pedreira, num camarote isolado dos seus jogadores, Rúben Amorim terá tido toda a perspectiva para pensar. Para a 2.ª parte entrou com uma equipa fechada, com uma linha de cinco na defesa apoiada por outra de quatro, bem juntas, lançando Tiago Tomás e Matheus Nunes lá para dentro para em velocidade tentar surpreender numa transição - o plano era claro, nem sequer procurava esconder nada.

É certo que defender com muitos não significa necessariamente defender bem, para isso, em jogos como estes, é preciso um qualquer estado zen, uma segurança sobrenatural, uma força vinda sabe se lá de onde e tudo isso foi personificado em Sebastian Coates. Não houve lance aéreo que o capitão do Sporting não tivesse ganhado, não houve um corte falhado, um passo em falso, uma entrada intempestiva: se é certo que o Sporting ficou cedo com menos um, Coates valeu por muitos.

Quality Sport Images/Getty

E, por isso, para haver aquele lance aos 81 minutos, em que Matheus Nunes aproveitou uma única desatenção bracarense e interpretou na perfeição uma das únicas maneiras que o Sporting poderia jogar para chegar ao golo, houve antes e depois um líder na defesa, um homem que se agigantou quando as circunstâncias lhe pediram que arregaçasse as mangas, que tentou até sair a jogar, num lance de quase revolta contra um Sporting que praticamente durante todo o jogo só teve uma dimensão, a defensiva.

Mesmo com alguns lances de perigo, que Adán foi resolvendo com frieza (a intervenção aos 62’, já meio em queda, a um cabeceamento de Galeno é ouro), o Sp. Braga pode queixar-se de Coates e da sua própria falta de eficácia e pragmatismo: criou pouco perigo iminente para o tanto tempo que andou a rondar a área do Sporting. E quando Gaitán saiu, houve menos cérebro para pensar o jogo.

O Sporting agradeceu e na única vez que rematou enquadrado na baliza na 2.ª parte fez resultar o plano de Rúben Amorim. O Sporting já teve a sua quota parte de vitórias inesperadas esta temporada, mas talvez nenhuma como esta, em que passou quase 70 minutos debaixo de água, mais preocupado em fechar a sua baliza do que exatamente em marcar.

Mas também é disto que se fazem os líderes e os heróis: de sofrimento, de estoicismo, de planos impossíveis que resultam. E numa semana em que tanto se falou do futebol-empresa, das ligas fechadas, do estatuto à frente do mérito desportivo, é bom saber que o futebol ainda nos dá bons enredos.