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Coates, o capitão coragem que mudou com o contexto

A melhor época do defesa uruguaio no Sporting é a primeira em que, desde o início, o tem numa linha de três centrais, sendo ele o do meio. O sistema e o contexto favorecem-no e Sebastián Coates lidera em tudo quanto é estatísticas de bloquear bolas ou adversários

Diogo Pombo

Tiago Pereira Santos

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Ensinava Geografia, a história é de há muitos anos e era cíclica, vinha e ia e voltava a cada fim de período escolar, o calvo e bem-disposto professor dizia-nos que “as últimas impressões são as que ficam”. Era um alerta educativo, para ouvir na aula e levar para a vida, ele acrescentava sempre uma frase, essa ficou turva na memória, mas entre a nebulosidade era qualquer coisa como “portem-se bem, trabalhem e mostrem isso pelo menos agora, para eu me lembrar”.

O futebol cá do burgo animalizou cada um dos ditos grandes, há um dragão, uma águia e um leão e o apelido desse professor, por acaso, rima com o disneyficado rei da selva e, se adjetivado, significa algo que “nasce e se desenvolve sem ser semeado ou cultivado e sem cuidados especiais” e os olhos pacíficos e por vezes até melancólicos guardavam muito disto em Sebastián Coates.

No início da época passada, antes da pandemia e no interlúdio entre carequices (Marcel Keizer e Jorge Silas) do qual se ocupou outro careca (Leonel Pontes), o central teve dois jogos seguidos a ser o último a tocar em bolas entradas na baliza do Sporting. Foram autogolos quase auto-sepultadores, destapadores da toca de onde sai a tendência para etiquetar jogadores olhando só para o fim, olvidando os meios. E a Coates colaram-se vários rótulos.

Era lento a mover-se e a virar-se sobre o próprio corpo, se encarava algum artimanhas de drible rápido. Tinha pouca velocidade de ponta e era lento a arrancar. Haver muitas dezenas de metros nas suas costas e até à própria área dificultavam-lhe a vida, expunha o seu pesaroso corpo às evidências que, salvo muito poucas exceções até então - nos tempos de Jorge Jesus -, acabavam por aparecer com ele no meio da linha defensiva de quatro jogadores habitual no seu tempo de Sporting.

As bolas desviadas em série para a própria baliza e a estatística de ficar o tipo com mais autogolos (quatro) na história do Sporting foram prensadas a supercola, vincadas como últimas impressões. E na Pedreira, no domingo, Coates ainda tinha muitas e talvez mesmo todas essas fragilidades, mas o contexto a rodeá-lo já mudara e com ele o uruguaio continuou a alterar as impressões que ficam, como o tem feito há mais de um ano.

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Rúben Amorim chegou-lhe à convivência em março do ano passado, as mudanças notaram-se a partir daí, embora não tanto quanto depois de feita uma pré-época com o treinador, as suas intenções, o sistema e a forma de jogar. Com ele veio uma última linha de três centrais para Sebastián Coates ser o do meio, o esteio, onde a sua lentidão e os seus movimentos pesados são protegidos pela teoria de que mais facilmente haverá alguém perto, na contenção, a reduzir os espaços que o uruguaio tenha de cobrir.

Coates ficou como o central do centro, o que muitas vezes dobra os outros dois e sobra na marcação. O sistema favorece-o, o uruguaio confortou-se e esta época tem-no demonstrado: entre os defesas, é quem tem mais alívios feitos (85), tackles bem sucedidos (30) e até remates bloqueados (17) no campeonato. No número de interceções (43), fica atrás de Nuno Mendes (54) e Luís Neto (44), mostram os dados do “WhoScored” que não servem para provar um contexto, mas existem como seu reflexo.

O Sporting de Rúben Amorim é, entre os grandes, a equipa que menos metros afasta a sua linha defensiva da própria área, sobretudo quando o resultado lhe favorece. Não que adote blocos baixos, mas, por norma, costuma aguardar mais no momento da saída de bola do adversário e vai ajustando conforme se vão comportando as suas fases de pressão. Também é a equipa que mais flagrantemente usa a linha da grande área como referência para jogar com o fora-de-jogo.

Coates não fica com tantos metros quadrados de relva nas costas, reduziu-se a área que lhe compete cobrir e o uruguaio minguou, drasticamente, o número de falhas de concentração e erros de abordagem a adversários ou à bola. E quando o Sporting a tem, as condições mudaram.

Pedro Fiúza/NurPhoto via Getty Images

O risco no pé direito do uruguaio decresceu e de lá saem menos passes rasteiros à procura de médios, de receções entre linhas ou para deixar os alas encararem o jogo com a bola (esses, por exemplo, é comum virem dos centrais de fora). O comportamento habitual de Coates quando tem tempo na bola é procurar variações do centro do jogo - ou seja, batê-la longa e pelo ar, na direção de quem esteja a esticar a sua posição junto às linhas e assim tentar obrigar os adversários a correrem.

O capitão do Sporting é o jogador de campo que mais passes longos (120) acertou esta época, sendo também quem leva o maior número de passes curtos (1213), dado em que é usual ver defesas centrais de equipas que, na maioria dos jogos, ganharão em posse de bola e na assunção da iniciativa com ela. E depois, claro, há os sete golos que fazem desta temporada a mais concretizadora da carreira de Coates.

Isso, em parte, também vem de um lugar de plasticina que se moldou a ele, porque é frequente ver o o Sporting, até bem cedo nas segundas partes, adiantar a posição do uruguaio, colocá-lo como referência na área e apontar aos seus 1,96 metros a produção de cruzamentos quando a equipa está a perseguir uma desvantagem no resultado. A espécie de plano B aponta a Sebastián Coates.

Assim o uruguaio mudou as impressões, as últimas agora têm-no como um central goleador e salvador de intenções - quatro dos seus sete golos surgiram nos últimos 15 minutos dos jogos, período no qual o Sporting marcou 12 na I Liga -, sem que se devam esgotar nessa noção. Porque o capitão mudou com a mudança de contexto na equipa, mudando para mostrar mais vezes o melhor que tem e proteger melhor as fragilidades que ainda terá.

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