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Jovane, o melhor dos exemplos

Jovane Cabral entrou e aos 66’ provocou uma expulsão, aos 82’ assistiu e aos 90’+2 engavetou um penálti. O Sporting ganhou (2-0) ao Nacional, manteve os seis pontos na liderança e estes foram exemplos de um rapaz que entre esta época e a anterior esteve 222 dias lesionado e perdeu 34 jogos. Poderia queixar-se da má fortuna, de alguma praga rogada, mas não, recebeu o prémio de melhor em campo e agradeceu à família e prezou o trabalho

Diogo Pombo

Pedro Fiúza/NurPhoto via Getty Images

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O mundo está carente de exemplos, a própria vida o está. Que seria de cada um de nós se antes de assentarmos o traseiro na bicicleta pela primeira vez, e salvo as ajudas equilibristas das rodinhas nos lados, não nos mostrassem antes como pedalar, como pegar no guiador, o que fazer com aquilo, e isto é engraçado, porque andar de bicicleta virou exemplo do que uma vez aprendido jamais é esquecido e já lá vamos ao futebol.

A pessoa nasce, vê uma bicicleta e se quer usá-la tem de aprender a andar nela, o truque está no balanço. É um exercício de equilibrismo, no fundo, mas de equilíbrio já toda a gente sabe por essa altura, mesmo que ninguém se lembre de como começou a saber lidar com o seu bipedismo para caminhar, provavelmente tão pouco alguém se recorda de como a dois pés juntou uma bola para, um dia, chegar lá acima e a um Sporting-Nacional, por exemplo.

A equipa que vai em primeiro defrontar a que está em último não é exemplificativo de futebol do bom, é escorregadio ir pelo que entra nas perceções pessoais, mais conhecidas como subjetividade, mas são 23 faltas ao intervalo, 19 feitas pelas mesmas almas madeirenses e a quase unilateralidade faltosa reflete o que é a inclinação cheia de lombas deste jogo.

O Sporting manda na bola, atrai a pressão alta que o Nacional até se atreve a avançar (em pontapés de baliza ou lançamentos laterais perto da área do adversário) e espera pelo antagonismo de Pedro Gonçalves e Nuno Santos face a Paulinho, eles a movimentarem-se profundidade dentro tendo Coates a sonar ligado, ele a baixar a sua posição para servir de apoio.

É o exemplo flagrante da fluência há muito mecanizada em quem lidera o campeonato, serve para ludibriar os outros, provocar espaços nos costados alheios e lançar passes nas costas da linha defensiva, esta é madeirense e incontrolável pelos três centrais cujos pés, muitas vezes, virados para a bola estão e não para o prejuízo a que se atrasam na perseguição.

Há a leveza da receção e pronto remate de Pote, vê-se o passe que levanta com força a mais para não acertar no que seria o encosto fácil de Paulinho, o próprio avançado mergulha, nas costas de um central, para cabecear um cruzamento de Porro, ele mais tarde remataria uma bola à meia volta, contra o poste. Nas vezes anteriores, houve António Filipe a guardar as redes da equipa que nem 50 passes ligara em 45 minutos.

Serviram de exemplo para os que se seguiram. A adrenalina do recém-entrado Éber Bessa fê-lo ladrão na atrapalhação de Coates, o brasileiro roubou o uruguaio e só não logrou fintar o corpo de Maximiano. O Nacional assustava logo a abrir, também João Camacho o fizera no começo do jogo, era como dobrar uma folha de papel ao meio só com borrões de tinta de um lado.

CARLOS COSTA/Getty

Porque o jogo imitou-se e perseguiu a própria sombra, o que já tivera continuou a ter e o Sporting a dar marretadas na última linha do adversário, mais comedido e com as linhas encostadas atrás ao ser forçado e forçado pelos insistentes esticões de uma equipa fiel a tentar ter gente a correr com bola nas costas dos defesas. Mais do ligações sem escala com partida em Coates, a equipa fugia aos costumes recentes e até fazia por tricotar a missão.

A presença do pé esquerdo associativo de Daniel Bragança no desemaranhar do novelo das jogadas ajudava. A sua procura pelas receções de Pedro Gonçalves nos ângulos cegos dos adversários também, foi o melhor marcador do Sporting e isolar a finalização sem olhar prévio - e, por isso, contra o guarda-redes - de Paulinho e do avançado se viram tabelas, toques e simulações de corpo para estimular ligações que foram padecendo de precipitação na escolha de como as concluir na área.

E quando a tendência faltosa do Nacional deu o segundo cartão amarelo a Alhassan (67’) o Sporting carregou, mas carregou como tanto exemplificou em noites passadas, a pender sobre a ala esquerda deixada para Nuno Santos, por vezes demasiada circulação de bola em ‘u’ e com a formalidade de Coates ser a torre posta perto da baliza contrária para os derradeiros 15 minutos de cerco.

A influência vinda do banco onde, três jogos volvidos, estava Rúben Amorim, era a de colocar peças distintas nos mesmos postos, o sistema e a maioria das dinâmicas a manterem-se, sólidos que nem ossos, mas com a ginga de Jovane Cabral a deambular pelo ataque, as ideias verticalmente mirando a baliza do cabo-verdiano a darem outra vertigem às posses de bola do Sporting que lhe pediam participação.

Ele arrancou a falta da expulsão de Alhassan, nele calhou a ressaca de um canto que dele extraiu uma quebra propositada de perna, um baloiçar do corpo, que enganou o adversário e lhe deu espaço para, sem mexer o pé de apoio, picar com efeito a bola que Feddal, de rompante, cabeceou no 1-0. E dele foi a corrida que apanhou um passe de Coates na profundidade, entrou na área, foi derrubada e lhe deu o penálti que engavetou no 2-0.

O visto aos 66’, aos 82’ e aos 90’+2 foram exemplos de um rapaz que entre esta época e a anterior esteve 222 dias lesionado e perdeu 34 jogos, poderia queixar-se da má fortuna, de alguma praga rogada, mas não, recebe o prémio de melhor em campo e agradece à família e preza o trabalho. Jovane Cabral resgatou a equipa, repôs os seus pontos a mais na caçada à presa em fuga há 19 anos e exemplificou no que o futebol se pode focar para não perder o equilíbrio.

Nas histórias de superação de infortúnios, resistência às rasteiras do futebol e carícias dadas à roleta do futuro, porque Jovane é dos que sobram no Sporting que viveram as agruras caóticas do seu passado recente, ele e Coates têm rugas no clube e experimentaram os exemplos do que a equipa está cada vez mais perto de não seguir.

Destes exemplos, dos sem insultos, vernáculo insultuoso ou agressões, haverá muitos por aí espalhados. São estes que mantêm o futebol equilibrado.