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"É bom viver isto outra vez". A esperança de milhares de adeptos em Alvalade antes do Sporting-Boavista

Buzinas, tochas, petardos e esperança. Há cautela dos mais velhos e urgência dos mais novos. O Sporting está a uma vitória do título e a Tribuna Expresso já encontrou em Alvalade tudo preparado para a festa

Hugo Tavares da Silva

D.R.

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O olhar de Silvério está mais ou menos perdido e entranhado no barulho da música. Descobre no horizonte a euforia, ali onde os adeptos das claques se juntam, em Alvalade. Há miúdos, tantos miúdos. Tem quase 65 anos, já viu muita coisa, avisa. É um sentimento que se alastra pelos mais velhos, a calmaria, o esperar para ver. Os jovens suam amor desmedido, é tudo urgente, nem se pensam nem ousam ponderar sobre o que poderá correr mal.

Mas Silvério, apesar da paixão serena, acredita que não passa de hoje, o Sporting há de celebrar mais um título nacional que foge desde 2002. Oferece a primeira gargalhada quando, como muitos, diz que afinal o dinheiro em Rúben Amorim foi bem gasto. Jogar no Totobola à segunda-feira é mais fácil, dizemos-lhe por outras palavras. Ri-se. Vive por ali, perto do estádio, há muito e nota que há adeptos que vêm de longe: "Ouvi um miúdo a dizer 'olha um avião', não são de cá". Há 19 e 21 anos estava a trabalhar quando o clube que lhe arrebita o coração foi campeão, ensanduichando o rival desta jornada. Agora anda por ali, a ver a glória a vestir-se. Quer já resolver a questão esta noite, o Boavista é um osso duro de roer. Se ganharem, já “podem ir jogar relaxados nos outros jogos e vão ganhar”. Teme a pressão aparentemente. Vai dando por garantida a coisa, mesmo com cautela, e já pensa na Liga dos Campeões: “Para o ano é com bichos, leões, não é tartarugas…”

Há buzinas a falar no futuro, circulam litros e litros de cerveja, respiram-se tochas, veem-se fumo verde, bandeiras a esvoaçar, camisolas de hoje e de ontem, estão por ali Jardel, João Pinto, Deo, Pote, Coates, a Susana, o Tavares e outros heróis do quotidiano. Os petardos vão competindo com a música altíssima, que abafa os cânticos, um dos tesouros do futebol. Foi aliás quando a música foi silenciada que se ouviram como deve ser as cantorias do costume. "E o Sporting é o nosso grande amor”, escutou-se.

Ali perto, agitados e a engolir tudo com os olhos, estavam três jovens. Têm 18 anos, nunca viram o Sporting a ser campeão. Como vai ser? “Hoje ganhamos, somos campeões e vamos partir isto tudo”, diz um deles. Não será chato? “Pronto, deixamos uns autocarros…”, dá troco com atrevimento. É brincadeira, é a tal urgência. Querem muito e já. A rapariga, com cachecol do Sporting, até é de outro clube mas está ali a acompanhar o namorado, o mais ponderado do grupo. Este rapaz, que até joga num histórico de Lisboa e que vai interromper este convívio para ir ao treino, diz que Rúben Amorim e Coates merecem uma estátua. O treinador então vive no quentinho do coração deste rapaz: “É treinador, é diretor de marketing, é o gestor da academia”, enumera alguns cargos para dizer no fundo que Rúben Amorim o representa, que faz tudo bem.

José Lorvão/Sporting CP

Os cânticos não cessam, vendem-se cachecóis de campeão, desafiando as gentes que admitem que tudo pode acontecer. A música está muito alta mesmo. Há um contingente de polícia importante numa zona mais refundida, menos visível. Há muitos sorrisos, há esperança e certeza ao mesmo tempo. Apesar de tudo, do dia bonito que se adivinha, o ajuntamento com demasiadas pessoas sem máscara não é aconselhável em contexto de pandemia. A cerveja vai amolecendo a disciplina. Os mais novos estão como costumam estar, na verdade, sem grandes problemas de proximidade.

É a isso que Jorge Gonçalves, de 50 anos, está atento. O filho, de 18 anos, está por ali nas entranhas daquela multidão perto de um camião de onde sai música que não é para todos. “Isto vai ser uma loucura”, avisa. Em 2002 viveu o triunfo por aqui, no estádio, "com a esposa". Foi feliz. “É bom viver isto outra vez”, desabafa como quem ameaça emocionar-se. Diz que não, que nem chorou quando o filho nasceu. E gargalha. Vai bebericando a sua cerveja e comenta o facto de ver miúdos a jogar com a camisola do clube de sempre. “Muitos deles nunca viram [o Sporting ser campeão] e agora vão fazer história.” Não condenou Coates, garante, quando questionado sobre a figura da temporada: “É um homem com H grande. Ficou no clube contra tudo e contra todos”. Este sportinguista diz que gosta da liderança do uruguaio, da importância dele para o grupo. Lembra-se de Sá Pinto e Delfim, que “falava pouco, mas que era ouvido”.

E o treinador? “Fui enganado”, abre logo o jogo, sorrindo com todos os músculos do corpo. Era muito dinheiro por um treinador no contexto em que estava o clube. Queixa-se de algumas arbitragens, falta uma limpeza, diz. Mas hoje o assunto é outro, é bater com a cabeça nas estrelas. Elogia a euforia que está por vir. Os olhos dizem mais do que as palavras.