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"O meu pai ensinou-me que sentir o Sporting só faz sentido sem diminuir os outros": este título também é de quem já cá não está

Na ressaca da conquista do campeonato nacional pelo Sporting, e porque a ternura também tem lugar no futebol, a Tribuna Expresso conta pequenas histórias de adeptos sportinguistas

Hugo Tavares da Silva

Jose Fernandes

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Há uma rua em Lisboa, perto da Estefânia, a cinco quilómetros do Estádio de Alvalade, que esconde um muro onde pode ler-se "A minha pátria é a infância". É aí que começa tudo. Entranham-se valores, lições, lembranças, preconceitos e o amor a coisas várias. A escolha do clube chega nessa altura quando, para alguns, deixa de ser suficiente dar uns inocentes pontapés na bola, quando se aprende o conceito de comunidade ou tribo, quando nasce a vontade de partilhar algo a cada domingo. A semente da paixão por um clube de futebol - o gozo de aceitar a sugestão, o gosto de se fazer parte de algo - é sempre plantada por alguém importante. Na ressaca da conquista do campeonato nacional pelo Sporting, e porque a ternura também tem lugar no futebol, a Tribuna Expresso conta pequenas histórias de sportinguistas que lembraram em dia de festa outros que já cá não estão.

João Pedro

Só tenho uma camisola do Sporting. Foi comprada quando tinha uns cinco anos, poucos dias depois de o meu pai ter um enfarte. Fui com ela vestida visitá-lo ao hospital e tenho ideia de que gostou muito da surpresa. Apesar daquele susto, o meu pai recuperou e festejámos juntos os títulos seguintes, 1999/2000 e 2001/2002, ainda eu era criança. Foi com ele que aprendi a ser sportinguista. Sofria quase sempre em silêncio, quase sempre com o encolher de ombros "fica para o ano". A dada altura, quando me viu mais fanático, mais obcecado em falar mal dos adversários do que em apoiar o Sporting, mais vergado às conversas rasteiras, ensinou-me que o futebol só vale a pena com respeito e que sentir o Sporting só faz sentido sem diminuir os outros. Fomos juntos ao velhinho Alvalade algumas vezes, ao novo fomos menos - ele tinha saudades do tartan. Um dia levou-me ao museu e mostrou-me o seu nome inscrito em alguns troféus. Quando morreu, herdei dele um pequeno leão em madeira, muito parecido com um leão de metal que me ofereceu a minha avó, mãe dele, também sportinguista. É nesses dois leões que tenho pensado.

João

Sou casado com uma grande portista que tinha um avô que era um grande sportinguista, que infelizmente partiu dois meses antes da conquista do título de 2000, em Vidal Pinheiro. Viveu a época toda na esperança de conseguir viver mais uma vez a conquista de um campeonato, não foi possível. O senhor era invisual, acompanhava sempre o Sporting no seu radiozinho, sabia tudo, viveu tudo, ‘Cinco Violinos’, tudo, as maiores conquistas. A vida dele parava quando jogava o Sporting, não queria saber de sair, nem de aniversários nem nada do género. Tinha que ouvir o Sporting, para onde fosse levava o rádio, mesmo se tivesse de estar num casamento com o rádio ligado era isso que faria. Uma das maiores frustrações da minha esposa é eu não o ter conhecido, porque diz que sou sportinguista doente como o avô era, existia esse elo de ligação. Ela diz que o avô me ia adorar por causa disso e que eu ia gostar muito do avô dela. Tenho pena. A família dela, apesar de ser maioritariamente portista, nestes momentos de conquistas do Sporting relembram sempre o avô, porque sabem que onde estiver estará plenamente satisfeito com o seu rádio a ouvir o Sporting.

Catarina

Não há como não me lembrar de ti hoje à noite. Das tardes em que te sentavas no sofá a ler “A Bola”, nas horas de sofrimento a ver os jogos do nosso Sporting, nas idas ao estádio e naquele golo do Sabry que nos deixou congelados numa noite chuvosa no antigo Estádio de Alvalade. Não há como esquecer a paixão que me passaste, que passaste à minha mãe e às minhas tias. E que, digam o que disserem, não se explica mesmo. A última vez que fomos campeões ainda estavas por cá. Todos os anos depois disso, olhava para o céu cada vez que pensava “este ano é que é”. Repeti este gesto tantas vezes e tantas vezes dentro do novo Estádio de Alvalade. Parece que este ano é que foi mesmo. Parabéns a nós, avô. Que grande família de leoas (e leões) que tu criaste.

Pedro

“Este vai sair cá um lagartão”. Esta é das primeiras frases que me lembro de ouvir o meu avô dizer. O meu avô era um sportinguista orgulhoso. Quando o conheci ostentava uma característica particular: era a única pessoa que tinha vivido o Sporting como dominador do futebol português, bem diferente do meu Sporting. O meu avô não escondia o fervor clubista e apressou-se a transmitir-me a paixão pela bola e, claro, pelo Sporting. Há uma frase que ecoou com especial força na minha cabeça de pré-adolescente quando me viu jogar futebol: “Hoje é um dia em cheio para mim. O meu neto faz passes como o Jesus Correia!”, exclamou para a minha avó. Na minha cabeça de 11 anos, ouvir aquilo foi melhor do que me entregarem a Bola de Ouro. O meu avô já me tinha explicado, várias vezes, quem era Jesus Correia, o mito dos “dois amores”, o violino que era craque do hóquei e do futebol. O meu avô comparar-me a um dos seus heróis de juventude era, para mim, o elogio máximo que poderia receber. Guardo-a na memória, essa sala de troféus que cada um de nós cria no canto mais inviolável do nosso coração.

Os anos passaram e, bem, eu não me tornei no novo Jesus Correia. Mas o amor pelo Sporting ficou lá, sempre acompanhado pelo meu avô. Habituámo-nos a ver jogos juntos, a sofrer... e a perder. As alegrias eram raras e maio não costumava ser mês de celebração. Mas hoje não olho para essas tardes e noites passadas a ver o Sporting jogar (e muitas vezes não ganhar) como dolorosas. Guardo-as com um carinho imenso, consciente do privilégio que tive em vivê-las. Estar ali, com o meu avô, a viver o Sporting era como estar na companhia mais ternurenta a que poderia aspirar. Um momento de partilha entre duas gerações separadas por tudo, mas unidas pela paixão em verem 11 tipos vestidos de verde e branco a correrem por uma causa comum. O Sporting (e o futebol) deram-me horas e horas de companhia com uma pessoa que amei.

Esta época tudo parecia diferente. Começámos a sonhar e, lentamente, passámos a acreditar. Quando já acreditávamos muito, uma estrela foi para o céu. E não, não foram os cabeceamentos do Coates a elevar-se na área rival nos últimos minutos. Foi o meu avô que morreu em fevereiro. O meu avô, que me transmitiu o amor pela bola e a paixão leonina, morreu a meio da época na qual todos voltámos a acreditar no nosso clube. Foi a tempo de voltar a sonhar com o Sporting. Hoje penso em ti, avô. Porque se hoje sou um “lagartão” é graças a ti. Se hoje é um dia que vivo com ansiedade e esperança é graças a ti. Se ainda hoje, sempre que toco numa bola, penso poder ser, por um instante, o Jesus Correia é graças a ti. Hoje, do alto de onde estás, sei que festejas connosco. Porque, neste Sporting que nos fez acreditar, onde vai um, vão todos. E tu vens connosco. E tu estás connosco. Fico feliz por saber que, junto com a tua Maria, a minha avó, hoje nos vês felizes.

Maria

Eu sou sportinguista desde os 12 anos. Nessa altura foi por causa do meu querido cunhado, que era namorado da minha irmã. Na primeira visita lá a casa perguntou-me de que clube eu era. Eu disse-lhe que não tinha, ele perguntou-me se queria ser do Sporting, que era o clube dele. Eu fiquei muito feliz, disse-lhe que sim e até parece que fiquei mais rica, já tinha clube. Este cunhado foi mais que um irmão para mim e família. Era um ser humano com um coração gigante. O filho dele também é do Sporting, foi o meu primeiro sobrinho e afilhado. É no meu cunhado que penso hoje...

David

Os meus avós fizeram-me sócio aos três anos, levaram-me ao estádio todos os quinze dias, explicaram-me sempre do que era feito o Sporting Clube de Portugal. De honra, de esforço, de resiliência. Vi duas vitórias enormes ao pé deles. Hoje choro uma vitória enorme com eles dentro de mim - e com o Jubas que deram à bisneta no meu abraço. Foi assim, avó, foi assim, avô: fomos enormes, fomos o que vocês sempre me disseram: virtuosos.

André

Tenho imensa pena de não poder viver o dia de hoje com o meu pai. Era alguém que se esforçava por não ligar muito ao futebol, provavelmente por já se ter desiludido demasiadas vezes, mas que invariavelmente acabava a irritar-se porque, contra a sua vontade, dava por si a acreditar que iria acontecer o que aconteceu este ano mas não aconteceu em tantos outros. Sou terceira geração de sportinguistas, o meu avô deve ter o recorde mundial de cartões de sócio rasgados, os meus filhos também já têm o bichinho, mas o meu pai é que era o romântico do futebol. Tenho muitas saudades e muita pena de hoje não podermos comemorar juntos. Espero poder dedicar-lhe hoje uma vitória. Será merecida. Viva o Sporting Clube de Portugal!

Rui

O último jogo que vi com o meu pai foi o Sporting-Barcelona, nessa altura tanto ele como nós já sabíamos o que o futuro lhe reservava. Continuo com o vídeo nos meus favoritos e ainda hoje o revi, eu, o meu irmão e ele de cachecóis erguidos a cantar “O Mundo Sabe Que”. Um sportinguista ferrenho que me fez a mim sportinguista e aos meus filhos também! O que as memórias têm de bom é que com elas podemos construir momentos que já não podem acontecer. Hoje já o fiz várias vezes!