Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Sporting

“Tenho pena que o Sporting festeje este título em período de pandemia. Estava a torcer pelo meu cunhado Rúben Amorim e amigo Hugo Viana"

Luís Filipe conquistou o primeiro título nacional da carreira pelo Sporting, em 2001/02, e não fora o 11 de setembro muito provavelmente teria jogado mais naquela época. Dos festejos, o que mais o marcou foi o “mar de gente” que de forma espontânea quase não deixava o autocarro panorâmico descer a avenida

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

Partilhar

Que memórias mais fortes tem da época 2001/02?
Sem dúvida finalizar com a conquista do título. Recordo-me que o Bölöni era um treinador fisicamente muito exigente e os treinos eram duros, mas o resultado ficou à vista. Era o meu primeiro ano de Sporting, era um miúdo de 22 anos e estava inserido num plantel muito batido em jogos e com experiência.

Fez poucos jogos porquê?
A determinada altura até estava a ser aposta do Bölöni. Eu fiz um jogo em Leiria que até me correu bem, a seguir íamos ter um jogo para a Taça UEFA, na Dinamarca se não estou em erro, e eu ia jogar novamente. Lembro-me que o Sá Pinto estava lesionado, as coisas estavam a correr-me bem, eu jogava a extremo, estava confiante e julgo que o facto de não ter havido esse jogo, por causa do 11 setembro, foi bastante prejudicial para mim, porque o jogo que fiz em Leiria acabou por ser esquecido e entretanto regressaram alguns lesionados, entre eles o Sá Pinto. Há um momento de paragem e as coisas invertem-se, volto a não ser opção e a partir daí entrei numa fase sem jogar e sem competitividade o que acabou por me tirar algum fulgor e acabei por jogar menos do que estava à espera. Mas apesar de não ter jogado muito, foi um campeonato marcante porque foi o primeiro que ganhei. Isso marca sempre.

Estava onde quando soube que o Boavista tinha perdido com o Benfica?
Estava em casa. Recebemos todos umas mensagem para irmos para o hotel Radisson. Foi o ponto de encontro e se não me engano fomos logo nessa noite para o Marquês de Pombal no autocarro panorâmico. Foi uma coisa espontânea. Julgo que a seguir fomos à câmara municipal, não tenho bem a certeza se foi nesse dia ou se foi noutro dia, mas recordo-me de termos saído do Radisson no autocarro em direção ao Marquês e julgo que não havia nada propriamente organizado, ou se calhar até havia, mas o que é certo é que apareceu imensa gente. O autocarro praticamente não conseguia andar na Av. da Liberdade com tanta gente e estamos a falar de uma avenida que tem uma largura e dimensão enormes. Era um mar de gente, o autocarro não se conseguia deslocar, era quase preciso pedir por favor às pessoas para deixarem o autocarro andar, porque era impossível. O que mais me impressionou foi essa multidão, esse mar de gente que de um momento para o outro começou a acumular-se, quer à porta do Radisson, quer pelo caminho até ao Marquês. Foi isso que mais me marcou. Foi uma noite em branco, apesar do Sporting não estar há tanto tempo sem ganhar porque tinha ganho o título dois anos antes, mas mesmo assim foi uma festa extraordinária. E tenho pena que o Sporting seja novamente campeão passado 19 anos num momento de pandemia, porque se calhar não vai permitir que se festeje da forma como os sportinguista gostariam; mas mesmo assim julgo que vai ser difícil controlar as pessoas, embora espere que as pessoas tenham algum bom senso e festejem mas com segurança.

Consegue encontrar algumas semelhanças entre este grupo e aquele em que foi campeão?
Não conhecendo diretamente este grupo, mesmo assim, acho que não tem nada a ver. Estamos a falar de uma equipa em 2002 com jogadores com muita maturidade e experiência. A maior parte dos jogadores titulares da seleção jogava no Sporting. É óbvio que havia alguma juventude, mas o que imperava era a experiência. Tínhamos um goleador como o Jardel, tínhamos o João V. Pinto, Sá Pinto, Pedro Barbosa, Paulo Bento, Rui Bento, André Cruz, Beto, Rui Jorge e muitos mais. Estamos a falar de jogadores com uma carreira já feita, bem sustentadas, portanto um plantel bem diferente deste nesse aspeto. Este é um plantel de muita juventude misturada com alguma experiência e o de 2002 era ao contrário, havia muito mais experiência e alguma juventude.

O grande mérito deste título é de Rúben Amorim?
Acho que é de todos. O Rúben sozinho não faz nada. Foi preciso que os jogadores acreditassem, que acreditassem nele e naquilo que ele dizia e ficou demonstrado que sempre acreditaram. Portanto deve-se também aos jogadores e a toda a estrutura, o mérito é de todos.

Este título teria acontecido à mesma se o campeonato tivesse decorrido com público nos estádios? O facto de não haver público pode ter favorecido o Sporting devido à juventude do plantel, porque retirou alguma pressão?
Nunca vamos saber. Não é justo eu estar aqui a dizer o que quer que seja porque todos jogaram em igualdade de circunstâncias. Nunca sairemos saber se seria igual, melhor ou pior.

O Sporting é um justo vencedor?
Acho que sim, pelo campeonato que fez, pela regularidade, é a única equipa que ainda não perdeu qualquer jogo. O campeonato é uma prova de regularidade e o Sporting foi sem dúvida o mais regular, portanto é um justo vencedor com certeza.

Tem alguma garrafa de champanhe no frigorífico para festejar?
Não. Não vou festejar da mesma forma que se tivesse participado ou coisa parecida. Fico muito contente que o Sporting ganhe por várias razões, em primeiro lugar porque foi um dos clubes por onde passei e fui feliz e onde ganhei troféus, por isso tenho uma simpatia grande pelo Sporting. A outra razão é porque tenho pessoas próximas neste momento que estão na estrutura e na equipa do clube, nomeadamente o Hugo Viana, de quem sou amigo, e o Rúben Amorim que é meu amigo e ao fim e ao cabo meu familiar porque é casado com a irmã da minha mulher, é meu cunhado. Portanto quanto mais não seja estava a torcer por eles e vou festejar por eles.