“Teve de ser à Sporting. O Sporting não pode ser campeão sem sofrer”. Uma noite nas ruas com aqueles que não sabem como é ser de outra forma
Foram milhares e milhares, um mar de gente, novos, velhos, adultos e miúdos que até esta terça-feira nunca tinham conhecido um Sporting campeão. Entre o Marquês e o Saldanha, festejou-se a capacidade de sofrer, a resiliência e explodiu-se de alegria já bem tarde, quando os jogadores vieram às ruas da cidade saudar os seus adeptos
12.05.2021 às 6h21
Jose Fernandes
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Inventem-se os estereótipos que se quiser, mas as festas do futebol são todas elas fundamentalmente iguais. Há rapazes e raparigas, homens e mulheres graúdos e miúdos ao colo, há altos, baixos, mais magros, mais gordos, gente mais bem vestida, outra mais maltrapilha, pessoas pobres, ricas, remediadas.
Toda a gente cabe em qualquer futebol.
Mas é possível que 19 anos sem ganhar potenciem uma ou outra coisa. Como os abraços em que amigos se fundiram ao longo de toda a Avenida Fontes Pereira de Melo, alguns encontrando-se por acaso entre os milhares que desciam como um rio caudaloso desde o Saldanha até ao Marquês, os abraços a perfeitos desconhecidos, ou rapaz que de repente parou a meio da rua, fechou os punhos e ergueu os braços, do nada, como um espasmo involuntário, como que a relembrar-se que, sim, é verdade, o Sporting é campeão nacional todos estes anos depois, acredita.
Também há os que olham estrada abaixo, vêem o Marquês de verde e dizem apenas “isto é lindo”, seguido de vários termos em vernáculo que aqui não podemos reproduzir, mas perdoem-os pelos palavrões, a surpresa é muita e os olhos das pessoas, dos miúdos, tantos deles a festejar um título pela primeira vez, contam a história toda.
Como Rodrigo Oliveira, 15 anos, que até era do Benfica em criança. “Mas vi o que era bom para a minha vida e mudei”, diz-nos. “Acho que fiz muito bem, agora estou aqui a festejar e espero festejar muitos mais campeonatos até morrer”, continua, antes de manifestar o desejo de conhecer o capitão Sebastian Coates e dizer uma frase que se ouviu muito ao longo da noite: “Ser do Sporting é diferente”.
Mas como assim, “diferente”? Não são homens, mulheres, adultos, crianças, altos ou magros como todos os outros adeptos de futebol? Sim, mas os sportinguistas garantem que neles o sofrimento é algo intrínseco. Como uma identidade, como se não conhecessem outra coisa. E mesmo assim, eles prevalecem. É nisso que são “diferentes”.
“Não houve praticamente nenhum jogo que não ganhássemos sem ser a sofrer”, diz Nuno Pedroso um pouco abaixo do Saldanha, sítio onde uma discoteca improvisada juntou algumas centenas a gritar o proverbial “We Are The Champions” ou aquela música brasileira que diz “deixa acontecer naturalmente”, tão naturalmente como boa parte daquela festa orgânica pelas principais artérias de Lisboa - aqui bem menos confusa do que uns metros mais abaixo, ainda que faltassem máscaras em algumas caras.
Jose Fernandes
Nuno Pedroso, que ao seu lado tem o filho José, de 11 anos, um dos tais pela primeira vez a festejar um título, continua a explicar-nos a sua teoria sobre o Sporting e o sofrimento: “Ainda hoje, com o Boavista: podíamos perfeitamente ter resolvido antes, mas teve de ser à Sporting. O Sporting não pode ser campeão sem sofrer”.
Talvez Nuno tenha razão, sofrer faz parte do ser sportinguista, sofre-se muito e ganha-se menos, mas isso leva à resiliência e é por isso que milhares de pessoas continuam a descer a até ao Marquês, muitas horas depois do Sporting ter batido o Boavista por 1-0. “Ser do Sporting exige mais sofrimento, mas também dá mais prazer. Os meus amigos do Benfica e do FC Porto não dão tanto valor àquilo que ganham. Já nós quando ganhamos o campeonato é uma coisa extraordinária, é esta festa toda que se vê”.
Nuno diz ainda que “é muito difícil para um pai fazer com que os filhos continuem a ser do Sporting”, compreensível quando o clube passou quase duas décadas sem ganhar o campeonato. Mas, pela amostra, não parece. Ao seu lado, José diz que mesmo que o pai lhe tivesse dado a escolher (coisa que não deu), escolheria sempre ser do Sporting. E pela quantidade de pais com filhos adolescentes a passear-se avenida abaixo, será justo dizer que o sofrimento também passa dos progenitores para as suas crias, as paixões são assim mesmo, não mudam, contaminam todos, tantas vezes sem qualquer racional.
Ouvindo indiscretamente as conversas dos grupos de amigos espalhados pelas ruas, percebe-se que, de facto, mesmo em dia de festa o sportinguista gosta de relembrar o seu estoicismo. Não se fala sobre os bons jogos, sobre as vitórias seguras, mas sim dos jogos ganhos ao último suspiro: “E o Gil Vicente? E com o Santa Clara?”.
Ali perto, Nuno Venâncio responde com um sorriso conformado quando lhe perguntamos se foi sofrido. “Já estamos habituados…”. Ainda assim, Nuno, que veio à festa acompanhado pela filha Joana, de 15 anos, é um bocadinho mais confiante que o comum mortal sportinguista. Obra e graça da época de Rúben Amorim. “Isto sofrido é sempre, mas acho que pela primeira vez senti que ia acontecer e acho que a surpresa não foi assim tão grande. Quando não perdes qualquer jogo…”
Jose Fernandes
Sobre esta espécie de masoquismo que parece fazer parte do ser Sporting, Nuno Venâncio lembra, tal como o outro Nuno, que isso também traz “outro prazer” nos jogos e naquilo que se procura no clube. Ganhar é sempre importante, mas há algo mais. E vem outra vez a frase mágica: “É diferente”. Às vezes nem dá para explicar bem.
Desesperando à espera do autocarro
Por esta altura, já os adeptos desesperavam com o autocarro que não levava jeito de sair de Alvalade, enquanto outros desesperavam com a falta de negócio. “Não estou a vender nada, nada”, disse-nos Paula Almeida, vendedora de cachecóis já com o respectivo título 2020/21 bordado. Mas nem assim, nem atrás do pregão que prometia uma recordação daquela noite por meros 5 euros. “Eles querem é beber”, continua, referindo-se aos milhares de adeptos que por ali andavam, nem sempre a cumprir as regras e recomendações nestes tempos de pandemia. “Nas festas do Benfica vendia-se mais”, conta ainda.
Eram já 2h da manhã quando o autocarro com os jogadores e equipa técnica deixou definitivamente Alvalade e daí até à hora de passagem pelo Saldanha multiplicaram-se as desistências, também motivadas pela violência que mais abaixo alguns adeptos provocavam no Marquês. “Estar lá para ver garrafas a voar e cabeças abertas? Não!”, dizia um adepto já a subir para a Praça Duque de Saldanha, onde os festejos decorreram com maior paciência e normalidade.
Eram 3h30 quando se vislumbrou a festa leonina, quando se viram os empoleirados jogadores do Sporting no autocarro panorâmico, e soltaram-se os fogos de artifício, as tochas, as gargantas, a alegria. Arrebitaram-se as tropas, até então já cansadas e apenas entusiasmadas por um grupo de pequenos rufias, meninos e meninas, todos eles com 10 anos ou menos, que de tempos a tempos, no sopé da estátua da praça, iam cantando alguns dos mais conhecidos hinos dos leões. Este título também vai ajudar a criar recordações em novas gerações de pequenos sportinguistas, depois de quase 20 anos de nevoeiro ou de baixos muito baixos, pintalgados por alegrias menores e graçolas sobre o clube.
A chuva ajudou a dispersar a multidão mal os jogadores deram a volta no Marquês. Afinal de contas a noite foi longa e quarta-feira é dia de trabalho. Bem, para alguns. José, por exemplo, está autorizado pelo pai Nuno a faltar às aulas. Festejar um título do Sporting é para os que sofrem e os que sofrem também merecem um pouco de sossego.
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