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O tempo e o espaço, coisas do Sporting

Durante a primeira parte, sobretudo, tudo o que o Sporting tem mecanizado (as saídas da área, acelerações por fora com os alas e também já o uso de Paulinho como apoio ou parede) desmantelou o Belenenses SAD. A equipa fabricou mais oportunidades do que os golos (2-0) que marcou e fez, provavelmente, a melhor partida da ainda curta e pouco testada época

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Futebol é, foi e será de quem tiver a alquimia do tempo e do espaço na cabeça, quem souber onde e quando deve fazer as coisas certas e só depois vieram, vêm e virão os donos dos pés mais excelsos para malabarismos. Não é que Rúben Vinagrem seja um exemplo ambulante desta evidência, mas era cedo, os minutos só enchiam uma mão e ele, portanto, sem cansaços a toldarem-lhe os julgamentos perto do bico da área, a ameaçar um cruzamento e a travar, para ir ao outro pé também ameaçar cruzar a bola e frenar, uma dupla ilusão dividida em simulações.

À terceira, o ala esquerdo cruzou com o seu lado canhoto. No meio deste repetido engano, nunca pareceu levantar a cabeça e o olhar para a área, compenetrando-se, ao invés, nas baldrocas com que ludibriou dois adversários. Quando curvou a bola, já Paulinho estava quieto, com postura de desaprovação, após tentar ganhar vantagens em curtíssimos espaços para ficar a jeito do cruzamento vindo de quem não lhe fez caso. Daria canto.

E Rúben Vinagre lembrou-se do tempo e do espaço, o esquerdino recebeu a ressaca cortada da área, ergueu os binóculos para o aglomerado na área e ao segundo toque cruzou a bola que Gonçalo Inácio desviar (7’) o 1-0, estendendo o tapete fulgurante para o que já estava a ser um arranque de jogo da equipa que destroçou o Belenenses SAD pelo manejo preciso, rápido e bastante avesso a erros ao jogar em função de onde a relva estava livre, ou onde queria que o relvado se despisse de corpos.

Usando as fugas de Paulinho aos centrais para, até por vezes em metade próprio do campo, se dar como solução de costas, tirando adversários das marcações aos médios. Aproveitando a vantagem de, neste jogo, ter Gonçalo Inácio na esquerdo do trio de centrais, com o corpo e pé sempre abertos para tensionar passes verticais em Nuno Santos, para este tocar logo na corrida de Vinagre rumo à profundidade. Ou arrepiando na velocidade da jogada com os passes longos que Palhinha está a mais confortável a usar e abusar, para variar onde está o núcleo da jogada, o Sporting colocava os adversários a correrem atrás em todo o campo.

Várias vezes Paulinho rematou, um pontapé Ricardo Esgaio tentou, Pedro Gonçalves quase desviou um dos muitos cruzamentos que se colocaram a jeito de serem finalizados, na área, e a equipa de Rúben Amorim foi, em bastantes momentos da primeira parte, um conjunto de sombras a que o Belenenses SAD chegava atrasado, mais reativo do que preventivo na forma como tentava limitar as jogadas mecanizadas com que era atacado em Alvalade.

Ter no talentoso Afonso Sousa o íman a que a equipa se fidelizava para ordenar qualquer posse de bola, com Pedro Nuno nas redondezas para tabelar, não chegava — sem ela, eram desmontados pela fluidez com que tudo saía ao Sporting e também não chegava ter a boa capacidade do capitão Tomás Ribeiro.

Esse bem-fazer das coisas do Sporting prosseguiu inalterado, logo no arranque da segunda parte e mal a bola parou para ser cruzada num livre. Pedro Gonçalves fê-la cair perto do segundo poste, onde Palhinha a desviou nas costas da linha de adversários que não se fez a esse espaço.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Ao 2-0 quase acresceu outro golo, no minuto seguinte, quando mais uma receção-aceleração de Matheus Nunes para se livrar de um adversário foi correspondida por uma desmarcação de Paulinho, só bloqueado na área pela saída do guarda-redes Luiz Filipe. O tempo do passe, o ataque do avançado ao espaço; a equipa continuava a controlar as coisas intangíveis em que as cabeças de joga futebol têm de pensar, as mesmas que são mais tramadas de domar neste jogo.

Variando a forma como se livrava da pressão do Belenenses SAD, desemaranhando-a pelo centro, pela direita ou pela esquerda, a equipa só abrandaria perto da hora de jogo, quando já insistia mais na procura de Paulinho como fonte de apoios e entroncamentos por onde fazer a bola circular para atrair atenções no avançado e depois levar a jogada aos sítios onde realmente a queria. Ter as receções, tabelas e bolas seguras do português será a razão pela qual Rúben Amorim não quer mais avançados e diz que nem mudará de ideias.

O abrandamento gradual, se bem que sempre controlado, do Sporting, coincidiu com uns quase 15 minutos em que os visitantes já tiveram Afonso Taira em campo e, na acalmia do médio em cada contacto com a bola, ganharam mais alguma capacidade para prolongarem a vida às jogadas na metade do relvado do adversário. Afonso Sousa agradeceu, mas nunca a equipa se aproximou de ameaçar qualquer processo dos caseiros na partida.

Estes são tempos em que até um jogo em Alvalade evidencia luxos. Rúben Vinagre e Ricardo Esgaio, os alas que renderam e muito produzem na largura em que Rúben Amorim põe a equipa, de caras, a apostar, seriam substituídos por Nuno Mendes e Pedro Porro, os titulares da época passada e, para já, suplentes nesta — devido a lesões — sem que haja justificações práticas que consensualizem o seu retorno à equipa.

E o jogo chegou sereno ao seu fim, pontuado depois apenas pelos pitons que Taira cravou nas costas da perna de Palhinha e no cartão vermelho que viu, momento que os adeptos em Alvalade aplaudiram tanto quanto os golos. O Sporting é só vitórias esta época e este foi, porventura, o melhor jogo que fez enquanto ainda não conhece as suas cartas na Liga dos Campeões e quem lhe vai calhar no grupo, onde vai encontrar outro tipo de andamento a tentar colocar-lhe em causa a feitura do tempo e do espaço e da bola no meio deles que mostrou nesta partida. Em que tudo controlou.