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Choque milionário com a realidade

O regresso da Liga dos Campeões a Alvalade foi um pesadelo para o Sporting, que foi goleado (5-1) pelo Ajax numa noite em que tudo correu mal. A equipa de Amorim sofreu dois golos nos primeiros 10 minutos, ainda reduziu por Paulinho, mas uma exibição em cheio de Haller (autor de um póquer), a qualidade de Antony e as fragilidades defensivas e inexperiência do Sporting deitaram tudo a perder

Pedro Barata

Carlos Rodrigues/Getty

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22 de novembro de 2017 foi há menos de quatro anos, mas em tempo de vida do Sporting passou uma eternidade. Nesse dia, Alcochete era só o nome da academia do clube, Jesus sentava-se no banco de Alvalade e não no da Luz, Varandas era o médico da equipa, Bruno de Carvalho o presidente, Rui Patrício, Mathieu, Coentrão ou Bruno Fernandes vestiam de verde e branco e o último título de campeão nacional datava de 2002. Até esta noite, essa data, quando os leões bateram por 3-1 o Olympiacos, era a última noite de Champions em Alvalade.

Volvidos 1393 dias, o Sporting parece outro clube, com o orgulho renovado graças ao triunfo na liga 19 anos depois. E foi de braços abertos que a equipa de Amorim recebeu de volta a Liga dos Campeões. Mas a máxima competição continental quis que o Sporting se recordasse de que matéria é feita, em que nível é jogada, por que terrenos de exigência suprema se move.

Na primeira jornada do grupo C, o Ajax foi a Lisboa golear por 5-1, num duro choque de realidade para os campeões nacionais. Privado de Coates e Pedro Gonçalves, o conjunto da casa cedo transformou a expectativa em frustração e a noite de sonho em palco de pesadelos.

Com Inácio no lugar do castigado Coates como única mudança no onze face ao clássico com o FC Porto, a equipa dos Países Baixos precisou somente de 10 minutos para dizer ao Sporting que este território dos milhões é sítio que não dá espaço para equívocos.

Ao minuto 2, o lateral Mazraoui, sempre disposto a vir para o meio criar problemas, conseguiu sair da pressão do meio-campo leonino após uma tabela com Berghuis, antecipando-se a Feddal para servir Antony. O brasileiro, que logo ali mostrava ao público o seu futebol com passos de samba, cortou para o meio, rematou ao poste e, na recarga, Haller abriu o marcador. 7 minutos depois, Antony aproveitou uma má abordagem de Rúben Vinagre após passe longo do guardião Pasveer para, novamente, assistir Haller para o 2-0.

A desvantagem por 2-0 na madrugada do desafio era o castigo para um Sporting errático, nervoso e inexperiente. No onze de Rúben Amorim, sete jogadores estavam em estreia absoluta na Champions, somando os titulares dos verde e brancos, entre si, 24 partidas na competição; no onze de Ten Hag, só Haller estava a viver a estreia (de sonho) no torneio, somando os titulares do Ajax 170 jogos entre si na Liga dos Campeões. Mundos diferentes.

Entre passes que viajam com sabor a nervos e abordagens defensivas pouco adequadas para o nível individual de Tadic ou Antony, tudo corria mal aos locais, piorando pouco depois dos 20 minutos. Após uma disputa com Haller, Gonçalo Inácio lesionou-se, saindo para dar lugar a Esgaio e a uma defesa inédita neste Sporting, com o antigo jogador do Sporting de Braga a central pela direita, Neto pelo meio e Feddal pela esquerda.

O Sporting nunca pareceu ter o antídoto para os diversos problemas colocados pelo conjunto de Ten Hag, uma espécie de enviado da Liga dos Campeões para transportar a mensagem de que, esta temporada, Rúben Amorim e o seu plantel terão um conjunto de obstáculos com os quais, até aqui, não se tinham deparado.

A pressão intensa e coordenada do Ajax, a circulação rápida e com diversas soluções, que facilmente encontrou as costas dos médios leoninos, a saída de bola convicta e segura ou a facilidade para acelerar nos últimos metros foram desafios que, todos juntos, deitaram por terra o Sporting.

Os leões tentavam respirar muito à base das arrancadas de Matheus Nunes e, num período do duelo em que conseguiram, dentro do possível, equilibrar as operações, conseguiram reduzir a diferença no marcador. Ao minuto 33, Paulinho transformou um passe alto e forte de Feddal numa bola boa, passando-a a Matheus, que devolveu ao avançado. O remate do português saiu algo fraco e enrolado, mas Pasveer deu uma ajuda e o 2-1 voltou a dar esperanças ao Sporting.

Mas os choques, para serem choques, têm de ser violentos e drásticos. O Sporting encheu-se de esperanças para, seis minutos depois, voltar a bater com a realidade, com o 3-1 de Berghuis, no qual a fragilidade das zonas lateral esquerda (Antony superou Vinagre permanentemente) e central do último reduto dos verde e brancos foram evidentes.

Ao intervalo, Amorim tentou obter uma reação da sua equipa, lançando Matheus Reis e Pablo Sarabia para os lugares de Vinagre, que muito sofreu com Antony, e Jovane, inexistente na partida. E, uma vez mais, o Sporting voltou a sonhar, para logo a seguir deparar-se com a crua realidade.

Poucos segundos após o recomeço, Paulinho, com um grande cabeceamento, colocou a bola no fundo da baliza do Ajax, mas o VAR descortinou milímetros de fora-de-jogo que anularam o que seria o 3-2. E, instantes depois, a bola foi para aos pés de Antony, e por esta altura já o público de Alvalade sabia que isso era sinónimo de fantasia, ginga e perigo. O brasileiro, de trivela, serviu Haller para o 4-1 perante a inexistência da defesa da casa. Do 3-2 para o 4-1 numa questão de milímetros e segundos, acertos e erros. A exigência da Champions.

Carlos Rodrigues/Getty

Perante a perspetiva da goleada, Pedro Porro ainda esboçou uma reação, rematando primeiro ao poste e depois para bela defesa de Pasveer. Mas nada saía bem ao Sporting, nem mesmo quando a equipa chegava bem perto da área rival. E, como isto é a Liga dos Campeões, as falhas da equipa de Amorim eram potenciadas ao máximo pelo Ajax. Ao minuto 63’, nova incursão do lateral Mazraoui pelo meio encontrou Haller sozinho na área, para que o avançado apontasse o 5-1 final e fizesse um póquer que lhe ficará na memória.

Nos últimos 25 minutos, o tempo foi avançando com resignação do Sporting e satisfação do Ajax, poucas situações havendo para alterar um marcador duro para os leões. Rúben Amorim, na estreia como técnico na Liga dos Campeões, agravou um registo europeu que o próprio já tinha avisado ser mau, tendo agora uma vitória e quatro derrotas em cinco jogos realizados nos torneios da UEFA.

Gualter Fatia/Getty

O Sporting não perdia em casa há 22 jogos, justamente desde o seu último duelo europeu, a derrota, por 4-1, frente ao LASK Linz a 1 de outubro de 2020. Na altura, esse desaire no começo da época fez soar alarmes num clube que ainda vivia com traumas recentes e vinha de uma temporada altamente conturbada.

Agora, quase 12 meses depois, o público de Alvalade despediu a equipa com aplausos e cânticos. A frustração e o desânimo eram evidentes, mas só por aí se vê o muito que, de uma goleada europeia para a outra, o panorama mudou no Sporting. Os campeões nacionais bateram de frente perante as exigências de uma realidade desconhecida e implacável. Os próximos duelos da Champions dirão se os traumas desta noite serão transformados em aprendizagens.