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Dividir sem reinar

O Sporting voltou a perder (1-0) na Liga dos Campeões, mas a derrota frente ao Borussia Dortmund foi bem diferente da goleada sofrida contra o Ajax: a equipa de Amorim discutiu a partida, deixando para trás o nervosismo e os erros da primeira jornada, mas faltou-lhe qualidade ofensiva para conseguir trazer pontos da Alemanha, território onde continua sem conseguir vencer

Pedro Barata

Frederic Scheidemann/Getty

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Dizem os que se definem como "resultadistas" que uma derrota é uma derrota, um deslize que significa não encaixar qualquer ponto. Mas, no futebol, as sensações jogam um papel fundamental, como o Sporting comprovou, em primeira mão, com o golpe anímico que a "pancada forte" (palavras de Amorim) levada contra o Ajax provocou.

Em Dortmund, o Sporting voltou a sair derrotado (1-0) contra um Borussia com argumentos individuais superiores, mas se, como disse o técnico dos campeões nacionais, esta fase de grupos serviria para o seu grupo crescer e aprender, é legítimo afirmar que os leões tiraram ilações da goleada da primeira jornada. Criando pouco perigo, é certo, o Sporting discutiu o duelo contra o Dortmund, dando a sensação de não ter feito mais, em boa parte, devido a falta de maior talento e capacidade individual. O leão dividiu, mas não teve argumentos para reinar.

No dicionário da mitologia da bola, Alemanha é sinónimo de terra de dificuldade, lar de gigantes incómodos para as aspirações lusas. O pontapé de Carlos Manuel, em 1985 em Estugarda, contribuiu para tirar da mentalidade do futebol português a ideia de que vencer em solo germânico era tarefa impossível, no entanto cada deslocação a um estádio da Bundesliga continua a supor um grande problema para equipas nacionais. O Sporting, que por lá nunca ganhou, que o diga. Em 80 encontros de formações portuguesas na Alemanha, só por nove vezes se festejaram triunfos.

Nesta luta portuguesa por afastar fantasmas do passado, Dortmund é terreno por conquistar. Em casa, o Borussia venceu todas as partidas que disputou contra portugueses. Os momentos anteriores à partida, ainda assim, pareciam trazer boas notícias para os campeões nacionais: Haaland, o goleador implacável do Dortmund, não estava na ficha de jogo, ausente por lesão. Antes do apito inicial, o norueguês foi ao relvado receber, das mãos do presidente da UEFA, o prémio de melhor avançado da última edição da Liga dos Campeões, mas seria a sua única aparição junto ao relvado.

Frederic Scheidemann/Getty

Sem ter de se preocupar com Haaland, o Sporting entrou personalizado no desafio. Sem fantasmas trazidos da primeira jornada, os verde e brancos foram controlando bem as investidas do adversário, com Sarabia e Tiago Tomás muito solidários com o seu meio-campo, no qual Palhinha e Matheus Nunes, nos primeiros instantes da partida, se assumiam como mandões. Ao minuto 7, uma condução de bola de Matheus, daquelas em que o jovem parece rasgar o centro do terreno ao meio, levou a bola até Porro, não tendo Paulinho conseguido desviar o centro do espanhol. Era o sinal de que o Sporting estava em Dortmund apostado em deixar uma imagem diferente.

No plano defensivo, a grande armadilha que Amorim trouxe para o jogo foi a coordenação da sua linha defensiva. As unidades mais recuadas do Sporting evidenciaram um acerto fantástico, deixando os atacantes do Dortmund várias vezes em fora de jogo (só nos primeiros 35 minutos foram quatro ocasiões, acabando a equipa da casa por ter três golos anulados por posição irregular). Os maiores sustos que o Sporting apanhou na meia-hora inicial terminaram com o árbitro assistente a levantar a bandeirola.

INA FASSBENDER/Getty

Não obstante, o plano competente de Amorim carecia de desequilíbrios. Ao minuto 22, um duplo momento de Paulinho evidencia bem o pecado maior da equipa lusa: em duas ocasiões o avançado poderia ter definido melhor lances e criado real perigo, mas falta de precisão num passe para servir Tiago Tomás e um remate desenquadrado deitaram tudo a perder. Se a organização coletiva e serenidade psicológica deram argumentos ao Sporting para equilibrar a contenda, alguma falta de arte no último terço tirou aos leões as garras para ferir o rival.

E, se ao Sporting faltaram algumas armas para danificar o adversário, o Dortmund tem armas de sobra. Mesmo sem Haaland, os alemães são uma equipa cheia de talento, e em particular talento jovem.

Ao minuto 37, na única real oportunidade de perigo da equipa de Rose, Bellingham, de 18 anos, assistiu Malen, de 22 voltas ao sol, para que este, na passada, batesse Adán. Tudo começou num lance em que Akanji encontrou Bellingham nas costas da dupla de médios do Sporting (e à frente da linha dos centrais), voltando a ser essa zona, tal como havia sucedido contra o Ajax, fatal para a equipa de Amorim. Ao intervalo, os dois remates à baliza feitos pelo Dortmund, contra zero do Sporting evidenciavam um duelo equilibrado, mas que estava desequilibrado no marcador pela diferença na capacidade individual ofensiva.

A segunda parte arrancou com o segundo dos três tentos anulados ao conjunto da casa por fora de jogo, mas logo a seguir o Sporting partiu para minutos de personalidade e relativo domínio das operações. Paulinho, com um remate de cabeça, foi o único a esboçar algum perigo, mas através das recuperações de bola em zonas subidas de Palhinha, de algumas conduções de Matheus ou de um ou outro pormenor de Sarabia, os verde e brancos trouxeram uma cara de maior arrojo para a etapa complementar.

Rúben Amorim foi tentando mexer na sua equipa, lançando Nuno Santos e Jovane Cabral, mas com o decorrer dos minutos o Dortmund foi passando a adotar um modo de gestão, aceitando os três pontos. Raphael Guerreiro, que se viu mais em ações de construção (sempre a centrar a sua posição nesse momento, juntando-se ao círculo central), ficou perto do golo ao minuto 65, mas Coates tirou o 2-0 ao internacional português.

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O Sporting nunca deixou de acreditar. Cada ação defensiva positiva de Neto - que terá realizado uma das melhores exibições da carreira - tentava empurrar o Sporting para a frente, ao mesmo tempo que cada duelo entre Bellingham e Matheus Nunes no meio-campo parecia trazer a certeza de que se tratam de dois jogadores condenados a viver noites europeias durante muito tempo nas respetivas carreiras, mas a crença leonina não se traduziu na criação de oportunidades de golo.

Amorim tentou agitar, uma última vez, a partida, colocando Esgaio, Tabata e Bragança em campo para os instantes finais, mas a aposta do técnico, embalado por uns adeptos leoninos que nunca se deixaram de fazer ouvir, não se traduziu em acções que levassem os visitantes a estar, de maneira efectiva, próximos do 1-1. Em período de compensação, Coates tentou vestir a capa de herói como tantas vezes na época passada, mas desta vez não houve epopeia verde e branca.

O Sporting sai de Dortmund com zero pontos, pecúlio que obriga os leões a, na dupla jornada que se avizinha contra o Besiktas, obter bons resultados, não só para ter esperanças em discutir o acesso à fase seguinte, mas sobretudo para, pelo menos, assegurar a presença na Liga Europa. A equipa de Alvalade continua sem conseguir vencer na Alemanha mas, apesar da sensação de que é preciso crescer ofensivamente para aspirar a melhores resultados nestes cenários, o que é indiscutível é que, desta feita, os campeões nacionais demonstraram dimensão europeia para dividir um duelo num palco desta exigência.