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O Restelo sonhou, viveu amores e desamores. E o Sporting mordeu

Equipa de Rúben Amorim segue em frente na Taça de Portugal, depois de vencer o Belenenses, no Restelo, por 4-0. Tiago Tomás bisou pela primeira vez na carreira

Hugo Tavares da Silva

MÁRIO CRUZ

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A semana deve ter sido agitada. Afinal, os rapazes que jogam na 4ª Divisão iam defrontar os campeões nacionais, o Sporting Clube de Portugal. As conversas devem ter andado todas à volta do mesmo, nos trabalhos vulgares que cada um deles tem, nos cafés, em casa, no telefone, no pensamento. Certamente que, em determinado momento, os futebolistas do Belenenses voltaram todos a sentir-se crianças outra vez, aquela que foram há muito, muito tempo, com sonhos quase proibidos, mudos, ingénuos e impossíveis. Ou possíveis? O futebol trataria de falar.

Ainda havia muita gente à espera para entrar no Restelo, que parecia viver uma qualquer paixão de verão, e o Sporting já fazia pela vida. Bola na esquerda para o revigorado Rúben Vinagre, que estava empenhado quem sabe em recuperar a moral asfixiada depois do duelo com Antony do Ajax; o ala cruzou para o segundo poste e Tiago Tomás puxou dos galões da equipa visitante. Bastaram dois minutos de jogo.

Rúben Amorim promoveu as estreias de João Virgínia, na baliza, e de Gonçalo Esteves, um ala, de 17 anos, que é uma maravilha com a bola no pé, constantemente com vontade de acelerar e ferir a linha defensiva do outro lado. Manuel Ugarte jogou perto do fino, fino Daniel Bragança, uma dupla de médios que tentou, apesar de nem sempre calibrados, combinar com os três homens da frente, Tiago Tomás, Jovane Cabral e o regressado Pedro Gonçalves, o rapaz com dom para fazer golos.

O Belenenses, preparado para sofrer sem bola, ia fazendo uma linha de cinco defesas, sendo que às vezes a desmontava quando um lateral ia apertar um ala do Sporting ou quando um dos centrais era atraído por um dos avançados que baixava. Rapidamente se perceberam duas coisas: que Rui Pereira e Mauro Antunes queriam tocar e tentar combinar com os mexidos David Brazão, Rúben Araújo e Clé; e descobriu-se também que era naquelas botas de Clé que estaria o ouro, se alguém pudesse ser feliz do lado improvável. Rápido, venenoso, atrevido, esquecido de ter medo dos gigantes que tinha à frente, foi uma maravilha vê-lo no relvado.

Os homens da casa quiseram e tentaram fazer um jogo de sombras, muitas vezes com marcação homem a homem, tentando condicionar a saída de bola dos visitantes, cansados de fazer jogatanas destas. O entusiasmo até permitiria manter o rigor e a energia, mas seria uma questão de tempo até as diferenças realmente começarem a notar-se. Foi até mais tarde do que seria razoável. Um problema do Belenenses, corrigido ao intervalo, teve a ver com a equipa estar muito comprida, permitindo assim muito espaço para o Sporting jogar pelo meio, descobrindo combinações com Jovane e Tiago Tomás, que, apesar da mossa que faziam, não são refinados como Paulinho. O Sporting só não chegou a golear ao intervalo porque houve demasiado desacerto dos homens da frente (e de Feddal, numa bola parada), assim como um bom Marcelo Valverde na baliza dos de Belém.

A segunda parte trouxe outra coisa. Para começar, a tal mexida do treinador da casa, Nuno Oliveira, que fez a equipa defender mais à frente, mantendo-a mais curta. João Oliveira, André Serra, Fábio Marinheiro, César Medina e Zé Pedro Neto, a linha defensiva, iam-se mantendo estóicos, mas começariam a pagar fatura, até porque o espaço nas costas levaria a piscinas e correrias desenfreadas atrás de futebolistas profissionais com um pedal que não acaba. O Sporting, ao contrário, permitiu ao Belenenses sonhar um bocadinho. Quando os sonhadores acreditam, as coisas podem complicar e foi nesta primeira fase da segunda parte que a meninada da equipa prometia uma gracinha. Apesar da superioridade nos duelos, Gonçalo Inácio (regresso), Feddal e Ricardo Esgaio tiveram de se aplicar mais a sério num ou noutro lance.

O Sporting voltou a ameaçar a baliza de Valverde, primeiro por Tiago Tomás e depois por Pedro Gonçalves, que já está certamente a morrer de saudades de festejar um golo. As diferenças iam-se notando mais, a faltar meia hora para o fim do jogo, principalmente com a entrada de Nuno Santos, que deu uma pedalada importante ao corredor esquerdo. Aos 68’, o Sporting fez finalmente o 2-0, baixou o lume da esperança dos de azul e tomou conta do jogo. Tiago Tomás bisou, pela primeira vez na carreira, depois de um primeiro toque de Feddal em resposta a um canto de Nuno Santos.

Por esta altura, as substituições saíam à velocidade das imperiais lá fora, antes do jogo, quando se viram momentos ternos entre adeptos das duas equipas. O capítulo triste do jogo também se deu aqui, por volta do minuto 72, quando o acabadinho de entrar André Frias, um lateral bem cotado nestas divisões, entrou duro sobre Pedro Porro (entrou aos 64’). O lateral espanhol bateu na relva em desespero, havia dor no gesto, na raiva. Acabou por ser substituído e Frias viu o cartão amarelo, começando ali certamente uma das noites mais negativas da sua vida. É que não lhe bastou saber o que é sentir o desamor por parte dos adeptos do Sporting, que lhe fizeram a vida negra sempre que se aproximava da bola, Frias pouco depois foi para a rua, quando cometeu um penálti que permitiu ao Sporting fazer o 4-0, por Nuno Santos. Dois, três minutos antes, e também de grande penalidade, Jovane Cabral fizera o 3-0.

As ventoinhas do Sporting começaram então a massacrar o Belenenses por todos os lados, principalmente pelas alas, com Nuno Santos e Matheus Nunes, que ocupou a posição de Pedro Porro. O resultado não mexeria mais, embora tenha havido ocasiões para tal. O Belenenses mostrou coragem, em vários momentos, não só na forma como quis defender, como quando tentou jogar, saindo a partir do guarda-redes, um projeto que vem consolidando há mais de dois anos. Há duas temporadas estava na 6ª Divisão, teve de começar do zero depois de uma cisão com a SAD.

Rúben Amorim, que foi aplaudido no regresso ao estádio do seu Belenenses, sai com a satisfação de a equipa ter cumprido, embora tenha amolecido no início da segunda parte, assim como sai certamente agradado pelas prestações dos estreantes, Virgínia e Esteves. O Sporting segue em frente na Taça de Portugal e o Belenenses, que já desceu à terra depois de uma semana mágica, vai tentar continuar o seu caminho rumo aos campeonatos nacionais.