Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Sporting

Os cantinhos do Coates

Sporting goleou o Besiktas (4-1), em Istambul, num jogo em que Coates bisou e alcançou Beto como o terceiro defesa com mais golos do clube - a lista é liderada por João Morais, o herói de 1964. Depois do azar, Paulinho foi generoso e recompensou aquele jogo de futebol com um golaço

Hugo Tavares da Silva

Aziz Karimov

Partilhar

Quando as coisas estavam tremidas e a bola hesitante sem saber em que botas haveria de descansar, apareceu um senhor para sossegar a banda. O capitão Sebastián Coates tratou de tudo. Primeiro, colocou o Sporting a vencer, depois de um canto e desvio de Gonçalo Inácio. Depois, como se tivesse uma fotocopiadora invisível, voltou a colocar a sua equipa na frente da mesma maneira logo a seguir ao golo do empate do Besiktas. Fez tudo: movimentando-se alguns metros, deu opções de passe e ajudou os colegas na defesa, teve coragem com a bola, assumiu, foi capitão, claro. Sem bola, é um defesa de grande nível. Foi mais uma quarta-feira na vida de Coates, que, num ambiente difícil e perante bons futebolistas, manteve a equipa ligada a um jogo que lhe permite agora discutir ou sonhar com discutir a passagem aos oitavos de final.

Esta história começou com um primeiro minuto diabólico, com inúmeras mudanças nos donos da bola. Havia ansiedade, quem sabe, mas sobretudo ritmo e pedalada na hora de apertar o rival. Paulinho, nesta altura, apareceu isolado, depois de um passe do mui venenoso Pablo Sarabia, e desatou o fio da tragédia a que parecia estar destinado neste fim de tarde. No que toca aos golos, atenção, pois no resto é um futebolista de alto gabarito, que dá soluções e é importante no jogo da equipa. O futebol, um universo paralelo que também sabe ser justo, recompensaria o número 21 do Sporting lá bem pertinho do final do jogo.

Os primeiros 15 minutos foram complicados, com o Besiktas a pressionar forte. Ghezzal tentou o golo, com a canhota, e a bola não passou longe. Havia qualidade do outro lado, sobretudo nos pés de Alex Teixeira (que golaço anulado, senhores), Rachid Ghezzal e, naturalmente, Miralem Pjanic, o médio que sabe escolher os melhores caminhos. Souza, um médio que passou pelo FC Porto, deixou bons apontamentos, comprovando a já conhecida boa relação com bola.

Matheus Reis, pela esquerda, foi talvez a surpresa de Rúben Amorim para este jogo em Istambul. O canhoto brasileiro entrou porventura nervoso, com algumas abordagens complicadas. Pedro Porro, lesionado no Restelo para a Taça, recuperou e jogou de início, dando sempre grande ritmo àquela ala direita. Pedro Gonçalves, que também voltou nesse jogo com o Belenenses após lesão, estreava-se na Liga dos Campeões e, apesar de ter estado a um nível aceitável, parece estar longe daquele estado natural em que qualquer bola que recebe é uma ameaça para o outro lado.

Depois de se libertar daquela pressão e assobiadelas sufocantes dos primeiros 15 minutos, o Sporting tentou ter mais bola. Sarabia, depois de uma bola de Porro, ficou perto do golo. Pouco depois, num canto, Coates fez o primeiro da noite. Os homens da casa, feridos no orgulho e na coragem, baixaram a temperatura e já se ia notando menos confiança, menos entusiasmo.

Aziz Karimov

A seguir a um passe longo de Adán que deixou o desafinado Pedro Gonçalves na cara do guarda-redes rival, o Besiktas chegou ao empate, também de canto. Cyle Larin impôs-se a Matheus Reis e fez o 1-1, num lance que obrigaria à revisão e validação do VAR. Mas, para as dúvidas não picarem o pensamento, Coates fez outro golo logo a seguir, de canto, após desvio de Paulinho, e serenou a alma dos visitantes. Segundo o Playmaker do Zerozero, uruguaio igualou o ex-capitão Beto como o terceiro defesa do Sporting com mais golos pelo clube (25). À frente dele só estão Lúcio (35) e Morais (69), o tal do ‘Cantinho do Morais’, o autor do golo que valeu a Taça das Taças em 1964 e o senhor que inspirou o título desta crónica.

Se Matheus Nunes e João Palhinha acabariam por crescer muito à medida que o relógio caminhava para onde é suposto caminhar, com e sem bola, do outro lado iam-se repetindo os detalhes e pormenores maravilhosos de Michy Batshuayi, que aos 38’ até chutou uma bola ao poste.

O VAR deu sinais de vida quando Coates procurou fazer o hat-trick, novamente de canto, vislumbrando uma bola no braço de Vida, o defesa croata. Penálti para o Sporting: Sarabia, um jogador que parece jogar de pantufas e com a criação como obsessão, bateu bem para o lado esquerdo de Ersin Destanoglu, 3-1.

O Besiktas voltaria a entrar no jogo, na segunda parte, com aquela vontade de fazer algo mais. O Sporting soube resistir, dando corpo às palavras do treinador na véspera, que queria os rapazes a defender melhor do que com o Ajax e a atacar melhor do que com o Dortmund. Se a primeira parte é verdadeira, a segunda aqui e ali pecou por más decisões nos últimos 30, 40 metros. Noutros momentos talvez tenha faltado mais bola e serenidade, mas, já sabemos, ninguém está a jogar sozinho...

O Sporting ia entrando, em ataques rápidos normalmente, pela permeável defesa turca adentro. As más decisões, sobretudo ali no ataque, iam engordando. Podia ser uma noite memorável dos lisboetas. Do outro lado, lá longe, Adán voltava a negar um golo a Batshuayi. Foi um tiro. Pouco depois, em novo duelo, o avançado até tirou o espanhol da jogada, mas chutou para longe. Não era a noite dele.

OZAN KOSE

A relação complicada de Paulinho com os postes seria inaugurada a seguir. Primeiro, num gesto belíssimo, em carrinho, encostou para o poste depois de um cruzamento do inconformado e inesgotável Pedro Porro. O avançado voltaria a tentar: sentou o defesa, já na área, e aquela canhota já brilhava como quem se ia emocionar, mas o remate saiu à trave. A linguagem corporal do avançado era desoladora.

Depois de muitas mexidas de Rúben Amorim, que optou por deixar em campo Paulinho, o futebol recompensou os dois. Foi por volta do minuto 90. Depois de mais uma má definição num ataque, desta vez de Pedro Gonçalves, a bola sobrou para Paulinho. Numa manobra majestosa e despreocupada, o avançado bateu com o pé esquerdo em arco, não passando muito longe dos dedos do guarda-redes. A beleza do futebol também é esta: a arte do golo e a recompensa para o desventurado.

Depois de duas derrotas, com Ajax e Dortmund, o Sporting soma os primeiros pontos no Grupo C e está na luta pelo apuramento. Rúben Amorim já avisara: ainda não está a pensar na Liga Europa.