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Pote não sabe o que é um cone de aspiração. Mas no futebol é um Fórmula 1

O Sporting precisava de dois golos de vantagem sobre o Borussia Dortmund para confirmar os oitavos de final e foi o que fez: uma histórica vitória por 3-1 confirma o 2.º lugar no Grupo C e a continuação na liga milionária, num jogo em que Pedro Gonçalves, com dois golos na 1.ª parte cheios daquela insolência que só o seu talento permite, foi o homem que tudo fez acontecer

Lídia Paralta Gomes

Soccrates Images

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O vídeo está nas redes sociais e fez muito boa gente rir. A câmara está virada para os jogadores e a cara de Pedro Gonçalves é uma espécie de livro em branco. Olha meio perdido perdido para Paulinho a conduzir a alta velocidade no videojogo da Fórmula 1, impressionado com uma ultrapassagem do avançado, que lhe fala de como o cone de aspiração o ajudou naquela manobra. Vários pontos de interrogação imaginários aparecem então na cara do médio, que diz, que nem menino tímido a aprender as primeiras letras na escola:

- “Não sei o que é isso”

Não sabes Pedro e está tudo bem, essa conversa de cones de aspiração é para maluquinhos da aerodinâmica. Que Pote não saiba de física e das leis do atrito pouco importa quando aquela cara aparentemente vazia pisa a relva e, de repente, vão-se embora todas as dúvidas. Porque foram aqueles dois golos do rapaz de Vidago, dois golos marcados com aquela insolência de quem sabe que é killer, com o desplante de quem não tem grandes fantasmas na cabeça, que começaram a construir uma noite histórica para o Sporting, que com a vitória por 3-1 frente ao Borussia Dortmund, num jogo em que não era favorito apesar das ausências nos alemães, é a primeira equipa portuguesa a confirmar a continuidade na Liga dos Campeões esta temporada - um regresso à fase a eliminar da competição 13 anos depois da primeira vez, em 2008/09.

A noite feliz do Sporting fez-se, e isso começa a tornar-se numa espécie de motto de Rúben Amorim, de muita segurança na defesa e eficácia no ataque. À entrada a assustar dos leões, que ganharam logo um canto na primeira jogada do encontro, o Dortmund respondeu apoderando-se da bola, agarrando-se ao jogo, pressionando o Sporting, mas sem nunca conseguir tirar daquele estado zen o trio Coates, Feddal e Inácio.

picture alliance

E ao primeiro erro de monta dos alemães, o Sporting marcou, que nem predador pacientemente esperando o momento do tropeço da presa. A uma bola longa de Coates, Schulz respondeu com um corte defeituoso que isolou Pedro Gonçalves. Ele, que até andava desaparecido do jogo (e não é sempre assim?), só precisou de um toque para fazer a bola entrar, sem rendilhados ou demasiado raciocínio. O relógio estava na meia-hora e ao Sporting bastava apenas mais um golo para confirmar um apuramento que após as duas primeiras jornadas do Grupo C parecia coisa do campo da utopia.

O panorama ainda melhoraria antes do intervalo, talvez numa das únicas jogadas de entendimento dos leões na 1.ª parte, que começou com uma bola salva por Paulinho na esquerda e terminou com um bom trabalho de Matheus Nunes e Sarabia, que fizeram a bola chegar à entrada da grande área, onde Pote, matreiro, cheio de graça e confiança, rematou de novo de primeira, um remate seco e colocado, daqueles que explodem quando embatem nas redes da baliza.

Nem foi preciso cone de aspiração.

A perder por 2-0, o Dortmund entrou naturalmente esbaforido na 2.ª parte, encostando o Sporting lá atrás e deixando muitas vezes a equipa de Rúben Amorim desconfortável, algo que na 1.ª parte a equipa portuguesa tinha conseguido controlar. Mas a entrada de Emre Can ao intervalo seria quase catastrófica. Não só o médio não conseguiu fazer a diferença na esquerda, como a sua expulsão, aos 74’, colocaria gelo nos ímpetos do vice-líder da Bundesliga - e Pedro Gonçalves, de novo, com aquela inconsciência que só quem está cheio de confiança pode ter, ainda foi tirar desforço ao alemão, uns bons centímetros mais alto que ele, depois deste alegadamente agredir Pedro Porro.

NurPhoto

Mais seguro lá atrás, a expulsão de Can permitiu ao Sporting aproveitar mais ainda aquilo que na 2.ª parte só tinha conseguido muito de vez em quando: os espaços deixados por um Dortmund balanceado para o ataque. Depois de uma boa oportunidade logo aos 48’, num contra-ataque entre Pote e Sarabia, ofensivamente o Sporting encolheu-se, ressurgindo nos últimos minutos. E a falta de Zagadou sobre Paulinho na área, aos 81’, tinha tudo para confirmar não só a vitória mas o apuramento.

Pedro Gonçalves, sempre ele, pegou na bola, prontinho para o hat-trick, mas Kobel adivinhou-lhe o remate. No entanto, como se brindado por um magnetismo a quem tudo parece correr bem, Pote viu a bola ir ter com Pedro Porro, que de cabeça disse que sim à recarga. O Sporting, que nunca em três jogos havia pontuado com o Dortmund, estava de repente a vencer os alemães por 3-0.

É claro que os grandes feitos, as grandes noites europeias não são feitas sem um pouco de sofrimento e ele apareceu mesmo já nos descontos, com Malan a aproveitar um dos poucos momento de distração da defensiva do Sporting ao longo de todo o jogo para reduzir, numa altura em que ainda havia quatro dos sete minutos extra para jogar. Ligou-se o modo “aguenta-coração”, porque embora a vitória já estivesse na mão, um golo do Borussia adiaria o apuramento, e os rapazes de Rúben Amorim aguentaram a pressão, os batimentos acelerados vindos da bancada, cerraram os dentes e colocaram mais uma linha na lista de feitos deste Sporting em 2021.

Porque o hino da Champions vai voltar a ouvir-se em Alvalade em 2022, porque o Sporting é uma máquina bem oleada, que sabe ler os momentos do jogo. E que tem na frente um Fórmula 1 chamado Pedro Gonçalves.