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O primeiro desporto na América a pagar o mesmo a homens e mulheres está nas ondas

É uma questão há muito debatida, discutida e controversa, à qual o surf se chegou à frente para responder - e terminar. A partir de 2019, os prémios monetários das provas dos circuitos mundiais masculino e feminino serão iguais, o que fará da WSL a primeira liga sediada nos EUA a pagar o mesmo a homens e mulheres. E, para o ano, também Peniche terá as duas provas pela primeira vez

Diogo Pombo

AFP

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Os homens com mais jeito, aptidão e talento do mundo a surfar reúnem-se numa praia da Austrália para competirem entre eles. Ao mesmo tempo, as mulheres com mais jeito, aptidão e talento desse mesmo mundo também estão nessa praia.

O tamanho das ondas, a velocidade do vento, a exigência das correntes e as condições são as mesmas e tudo lhes é igual, na Austrália, Indonésia, África do Sul ou Tahiti.

A cada coincidência geográfica, que era uma coisa ocasional, e não uma regra, porém, a vencedora surfista nunca foi recompensada na mesma medida financeira do surfista ganhador.

E esta era a única diferença: os melhores e as melhores surfavam as mesmas ondas, nas mesmas condições, mas o dinheiro que eles recebiam por isso era, sempre, mais do que elas viam cair na conta bancária.

Até agora.

Mesmo atrasada no tempo, a World Surf League (WSL) adiantou-se a todas as outras modalidades no combate à desigualdade de prémios monetários e anunciou, na noite de quarta-feira, que, em 2019, os circuitos mundiais masculino e feminino vão ter os mesmos valores prize money.

Kelly Cestari/WSL

“Esta mudança é, simplesmente, a coisa certa a fazer para a WSL. Queremos estar na vanguarda da luta pela igualdade em todos os parâmetros de vida, começando pelas ondas. É um passo gigante na nossa estratégia a longo prazo para elevar o surf feminino”, explicou, em comunicado, a CEO da empresa.

De seu nome Sophie Goldschmidt, chegou à direção da WSL, em 2017, a primeira mulher a liderar a entidade.

Foi uma espécie de primeiro passo para chegar às certezas para 2019: o prize money do circuito feminino aumentará 153%; de quatro eventos conjuntos passarão a existir nove - incluindo, pela primeira vez, a etapa de Peniche, na Praia de Supertubos.

E a WSL talvez não tenha sido inocente a escolher a altura para dar esta boa nova. O anúncio aconteceu um dia antes de arrancar o Surf Ranch Pro, em Leemore, na Califórnia, a mais ou menos 100 quilómetros do mar, onde se vai realizar primeiro evento da história do circuito mundial numa onda artificial.

Ou seja, a um evento histórico colaram uma decisão histórica, juntado-lhes ainda a voz de dois surfistas históricos.

O contexto americano

Porque, também na quarta-feira, o Players' Tribune publicou o testemunho de Stephanie Gilmore, a hexacampeã do mundo, e de Kelly Slater, o senhor surf que já venceu 11 títulos mundiais – outra não-coincidência, já que foi a empresa de Slater a inventar o mecanismo da tal onda artificial, cuja patente já vendeu, entretanto, à WSL.

Aconteceu, também, no mesmo dia em que a Nike, praticamente duas décadas após o feito de marketing conseguido com os Air Jordan, modelo de ténis que a NBA proibiu, mas a marca defendeu, impulsionando o produto e o Michael Jordan, divulgou um anúncio narrado por Colin Kaepernick.

O jogador de futebol americano está desempregado porque se fez notar há quase há dois anos, ajoelhando-se durante o hino americano, antes de um encontro da NFL, em protesto contra a violência policial no país, dirigida à população negra, o racismo e a desigualdade.

A Nike fez de Kaepernick o seu atleta-franquia para a uma nova campanha publicitária, quando o seu gesto tem sido seguido por outros atletas, mas criticado, reincidentemente, até por Donald Trump, presidente dos EUA.

Uma das modalidades na qual a igualdade de prémios de jogo é mais discutida é o ténis, muito pela voz de Serena Williams, dona de 23 torneios do Grand Slam.

Títulos conquistados nos mesmos courts onde Roger Federer, Rafael Nadal ou Novak Djokovic venceram os seus.