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Kikas e Callinan: os melhores amigos que não puderam surfar um contra o outro

Ryan Callinan é o melhor amigo de Frederico Morais no circuito mundial, por admissão de ambos, e só por um triz - chamado Gabriel Medina - não surfaram um contra o outro em Peniche. "Nem tinha pensado nisso, mas teria sido incrível, mesmo", admitiu-nos o australiano, após ser eliminado pelo brasileiro, que vai defrontar Kikas em vez dele

Diogo Pombo

Laurent Masurel/WSL

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No final de setembro, a uns bons quilómetros para sul, um australiano de feições tímidas, saiu do mar de Ribeira D'Ilhas aos berros. Extasiado, assim que pisou a areia foi erguido em ombros por dois tipos, enquanto levantava os braços e celebrava a conquista do QS de 10,000 pontos que, em grande parte, o qualificou para surfar no circuito mundial em 2019.

Ryan Callinan estava a delirar com a vitória, no topo dos ombros de dois bons amigos.

Um deles era Frederico Morais.

Esta quinta-feira de manhã, o australiano não apareceu delirante de alegria nas traseiras do palanque de competição do Meo Rip Curl Pro. Estava sorridente e fácil na conversa, mas Ryan acabara de ser eliminado por Gabriel Medina. Remou uma batalha pela posição no mar com o intenso, lutador e bruto líder do circuito, que lhe valeu uma interferência, já a bateria terminara com o brasileiro na frente.

Ryan não entendeu bem o porquê. Está despreocupado, já não interessa. "Ele estava na liderança, ambos queríamos apanhar ondas e estar em posição. Ele estava a fazer o melhor para me parar e eu a dar tudo para me afastar. Já não acontece muito hoje em dia, mas ainda há umas boas batalhas lá fora. Até foi divertido, fiquei surpreendido por terem marcado uma interferência, mas pronto, é a vida", desabafa, quando lhe pergunto o que se passou.

A derrota, porém, fez com que não fosse surfar contra Frederico Morais, o surfista com quem mais partilha viagens, aviões, conversas, refeições e, no fundo, a vida nómada de surfar para viver.

Há largos anos que eles, ambos de 26 anos, viajam juntos, unidos pela amizade e por Richard 'Dog' Marsh, o australiano que os treina. “Yeah, teria sido incrível, mesmo”, resumiu, com pausas no discursos, estupefacto por imaginar tal coisa - porque, confessa, nem se tinha apercebido que era possível.

Diz que nem chegaram a falar sobre a hipótese. Há “tanta gente aqui à volta” de Kikas que “ele tem passado o seu tempo com a família”. Ryan Callinan tem estado mais com os seus botões - “na minha, a fazer as minhas coisas”.

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O australiano está ciente de que tempo será coisa que não lhes faltará, em 2019. "Felizmente, teremos muitas hipóteses de o fazer no próximo ano. Parece que ele está concentrado e numa boa fase para conseguir um bom resultado aqui e reaqualificar-se para o ano. Também parece que me vou qualificar. Somos companheiros de viagem e talvez tenhamos os nossos momentos na água", confessou.

O pacato e humilde australiano tem aproveitado o injury wildcard que a WSL lhe tem feito chegar: chegou à final em França, há duas semanas, que perdeu para Julian Wilson. Da Ericeira para Hossegor e de lá para Peniche palmilhou estrada com Kikas. “É ótimo estar com ele, temos uma equipa muito boa com o 'Dog' e o resto das pessoas que costumam estar connosco. Mal posso esperar pelo próximo ano”, revela, com entusiasmo na voz.

Ryan Callinan está feliz com a forma como tem surfado, que “os juízes têm gostado e pontuado bem”. Sente-se a aprender, o quê de nervos e ansiedade que o abanou um pouco, aqui em Peniche, foram causados mais por Gabriel Medina, “que desperta essa reação praticamente em toda a gente”, do que por um hipotético nervosismo com a ocasião.

Para o ano, que será o seu segundo no circuito (já se qualificara em 2016), o australiano espera aproveitar “as boas baterias, contra gente incrível, e as tudo o que [lhe] tem corrido bem” para, no fundo, “se tentar divertir”.

E se às viagens, à convivência, às horas multiplicadas que passam juntos, ainda coincidir com Frederico Morais dentro de água, em competição, melhor ainda. O que não aconteceu por pouco em Peniche será uma questão de tempo numa das 11 etapas da próxima edição do circuito.

Falta Kikas garantir que lá estará.