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Vai e não voltes, Neymar, que com a tua chegada se foi o Kikas

O burburinho, as cabeças a virarem-se para o palanque dos atletas, as câmaras apontadas, tudo mudou assim que se soube que Neymar estava na praia de Supertubos. O futebolista apareceu para apoiar Gabriel Medina e foi um mau prenúncio para Frederico Morais: o português perdeu na ronda quatro contra o brasileiro e Michel Bourez, acabando o Meo Rip Curl Pro no 9.º lugar

Diogo Pombo

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

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Um amigo que desempata amigo é uma forma subliminar de dizer que as amizades são para as ocasiões, e, se a ocasião assim o proporcionar, um futebolista foge dos relvados e troca de país para apoiar um surfista na praia, não com os pés na areia, mas quase.

Neymar, mascarado pela Nike, com o tronco coberto por um casaco de Le Bron James, outra amizade formada contra fronteiras de desportos estranhos um ao outro, aparece em Peniche e senta-se ao lado de Gabriel Medina. Um amigo chegou a Supertubos para apoiar outro.

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Gesto inconveniente para Frederico Morais, que corre areia fora, em direção ao mar, quando já a praia sabe da presença do planetário jogador de futebol e vira as pessoas, em peso, na direção do palanque.

Porque está o português a flutuar no mar, corpo deitado na prancha, Gabriel Medina rema para todas as ondas que o querem varrer, como um homem numa missão. O estilo potente, agressivo e intenso do brasileiro recompensa-o não com ondas espetaculares, antes com três ou quatro segundos possíveis nas massas de água que, a meio da tarde, já se fecham demasiado, traídas pela inconstância do vento.

Sob o olhar do “bom amigo” Neymar, diria já na areia, Gabriel atira-se às ondas cada vez menos jeitosas para surfistas as domarem. Tem meia dezena acumulada quando Kikas se faz à sua primeira - quase 20 minutos de uma bateria com 35 de vida tinham passado.

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Não é que estivesse apático, mole ou medroso. Kikas parecia estar sobre preocupado com a estratégia. Flutuou sempre mais perto de Michel Bourez, o matulão da Polinésia Francesa, a quem apontava o leme das remadas, como quem preferia focar a batalha nele e deixar Medina a surfar sozinho.

Uma aparente opção que o mar, rabujento e com transtornos de personalidade, usou contra ele.

Nos dez minutos que teve após pontuar pela primeira vez na bateria, Kikas apanharia mais quatro ondas. Apenas uma, realmente utilizável, da qual só retirou um 2.0 quando ainda só precisava de um 3.81. Michel Bourez, o segundo classificado da bateria, terminaria com uma pontuação total de 7.84, Medina ficou nos 11.67.

Frederico despediu-se silenciosamente. E estranhamente.

Apanhou poucas ondas, pouco surf retirou delas, não foi o competidor intenso que fora no dia anterior, como Medina fez por ser nesta bateria. Deixou-se conter pelas condições agrestes do mar, que não facilitavam a vida a quem ousou nele entrar sem permissão.

O líder do ranking mundial considerou “fixe” ter na praia o amigo que "é uma inspiração". A presença de Neymar, influente ou não, projetou o brasileiro para os quartos-de-final em Peniche, onde pode ser campeão mundial se tudo ganhar (e Julian Wilson não existir para lá das meias-finais), mas eliminou Frederico Morais.

Enquanto Medina estiver a desfrutar de uma noite com amigos, garantiu, “tranquila, de certeza”, Kikas recuperará do seu fim em Supertubos com a família. Os pais e o tio, Tomaz Morais, estiveram com ele na praia. O português sairá de Peniche com um 9º lugar e os respetivos 3,700 pontos, que muito o farão escalar do ranking.

A aparição da super estrela do futebol, carente de prémios, mas farta em exposição mediática, transferências milionárias e quedas nos relvados, por coincidência, fez com que a escalada de Kikas não possa ir mais alto.

Se for para ser assim, talvez o melhor seja Neymar ficar longe de Peniche.

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