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Chegou a multidão, a única coisa que parecia realmente importar

O surf é as ondas e também é os surfistas que tanto de bom são capazes de fazer com o que o mar lhes oferecer. Eles deviam ser as coisas que interessam, não fosse o surf, claro, um negócio, que ficou visível na decisão da organização do Meo Rip Cur Pro em não aproveitar as ondas que tinha na sexta-feira e esperar por sábado - que trouxe as pessoas e a multidão, mas levou muitas ondas, durante muito tempo

Diogo Pombo

Pedro Mestre/WSL

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"Temos a opção de continuar hoje com uma maré a encher e um swell a morrer, ou amanha de manhã, com a maré a encher e um swell a crescer. Mas amanhã está com com aspeto para o possível fim."

Coberto por um casaco cinzento, desiludido, Travis Logie falou para a câmara. Por volta das 9h. O sul-africano, surfista profissionalmente reformado, é hoje o comissário da WSL a quem, todos os dias, compete decidir se a praia de Supertubos irá ter os surfistas no mar. Se a mistura das direções do vento e da ondulação, com o andamento das marés, fazem ondas que o justifiquem.

Nas primeiras horas de sol de sexta-feira, ao fim de apenas um heat, ele achou que não. E o Meo Rip Curl Pro ficou em pausa, à espera, a hibernar.

Só que, nem nuns 100 metros para Sul da praia, nem a pouco mais de 50 metros para Norte da estrutura da competição, os rolos de água salgada entravam consistentemente. Não eram enormes, os dois metros de altura eram esporádicos, só que o vento, de Norte, da costa para o mar, descabelava a crista das ondas. Abria-as para os tubos que não eram super, mas eram bons.

As ondas apresentavam-se boas e a quebrarem em períodos regulares. Estavam apetecíveis. Kanoa Igarashi vestiu o fato, pegou na prancha e correu para o mar. Owen Wright, a torre loura australiana, também. Ítalo Ferreira e Michel Bourez não os deixaram desacompanhados.

Eram todos surfistas que ainda estavam em prova, escalados para os quartos-de-final que foram mandados esperar até sábado.

Mas eles, profissionais do circuito mundial, gente que o que vê mais na vida são estas construções do mar, estiveram mais do que a fim de surfarem até, mais ou menos, às 12h. Ao meio dia, a maré encheu-se ao máximo, atingiu o estado que menos convém à praia de Supertubos. As ondas amoleceram, já rebentavam demasiado perto da área. Só a meio da tarde voltariam a pôr-se a jeito.

Ou seja, houve, de manhã, pelo menos três horas de um estado de coisas suficientemente condigno ao lema "os melhores surfistas do mundo, as melhores ondas do mundo". É o lema da WSL.

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Mas essa WSL não esteve a fim de prolongar a competição na sexta-feira, um dia coberto por nuvens, com um frio provocado pelo forte forte. Estava um pouco agreste e a areia recebia pouca gente.

O oposto a sábado.

O primeiro dia de fim de semana esteve mais quente, sem nuvens, encalorado. Um típico sábado que nos faz duvidar se estamos, de facto, a entrar no outono. O problema estava lá dentro: o mar tinha ondas tímidas, os sets pouco se elevavam para lá do metro de altura, o vento, fraco, vinha de Este.

E o call matutino das 8h foi sendo adiado, consecutivamente, para as 9h, as 10h, as 11h30, as 13h e as 14h15, surpreendente só para quem estivesse desatento às previsões - o vento apenas voltaria a soprar de Norte mais perto das 16h, a maré recolheria só a partir das 13h, e a urgência apertava porque, de domingo em diante, o mar não se voltaria a estar a preceito até ao fim de semana seguinte.

Portanto, a WSL ignorou as ondas que quebravam nas suas barbas, na sexta-feira, e arriscou em aguardar por sábado, mesmo sabendo que o mar, por certo, minguaria. Porque, neste dia, sabia também que a popularidade de um evento que vai na sua décima edição e o sol que aqueceria os corpos, traria milhares de pessoas à praia, mais do que o conjunto de todos os dias anteriores.

O que convém, claro, às marcas, aos patrocinadores, às empresas que promovem ações na praia e à volta dela. Beneficiaria as origens do financiamento do evento, mas não tanto as origens que levaram um evento destes a fixar-se em Peniche: as ondas e os surfistas.

Mas, passando ao que importa, elas e eles, que apenas se juntaram a partir das 14h40, provocando toda uma histeria berrante na areia, vão terminar a competição durante a tarde deste sábado.