Tribuna Expresso

Perfil

Surf

Voa, Ítalo, voa

Um brasileiro, não propriamente o que se esperava, ganhou o Meo Rip Curl Pro, em Peniche, voando sobre todos os outros surfistas. Ítalo Ferreira multiplicou-se em aéreos até à final, eliminando Gabriel Medina no processo até conquistar o seu terceiro evento do ano (e adiar a decisão do título mundial para a última etapa, no Havai)

Diogo Pombo

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Partilhar

O surf, antes, era ingrato. Pouco valor dava a quem ousava viver acima das possibilidades da água, quem se opunha à ideia de que uma prancha veio a esta terra só para deslizar. Quem julgava, em competição, o que cada surfista valia em cada onda, demorou até sacudir a aversão ao vanguardismo aéreo no mar.

Os juízes sempre padeceram de uma patologia conservadora. Eram tipos que valorizavam mais os leques de água desenhados na onda, as manobras que rasgavam uma parede, as voltas de ângulos abertos ou mais apertados. Mas, sempre, com a prancha a deslizar na onda.

Foi mais na primeira metade deste século que, perante as evidências, se tiveram de render, em definitivo, aos surfistas que retiravam um proveito mais aéreo das ondas. Os tipos novos, irreverentes, inovadores e, bem vistas as coisas, desrespeitadores das convenções tradicionais do surf.

A rapazes como Jordy Smith, Julian Wilson, John John Florence, Dane Reynolds juntaram-se, massivamente, os brasileiros. Os Felipes Toledo, os Wiggolly Dantas, os Miguéis Pupo, os Ians Gouveia, almas jovens viradas para o mesmo estilo aéreo de aproveitar uma onda, que muito contribuiram para mudar tendências.

E o Gabriel Medina e o Ítalo Ferreira.

Ele é o brasileiro que vira feroz no mar, um animal de competição cujo talento trabalhado pelo físico o faz ser uma espécie de fenómeno potente nas ondas. Um polivalente cuja valentia o torna excelente em quase tudo - especialmente, nos aéreos.

E com o mar de Supertubos com pouco tamanho, sem ondas tubulares, antes com muitas que deslizam lentamente, com paredes estáveis e parcas em espuma, Gabriel tem as rampas de lançamento que gosta. Tenta projetar-se com aéreos rodopiantes em quase todas as 14 ondas que apanha, perante o desconsolado as quatro do desconsolado Matt Wilkinson.

A multidão, em extâse, reage vocalmente a cada aéreo, como um golo marcado no estádio. Os gritos são estimulados pela proximidade que a maré cheia fornece: Medina, surfando as ondas até ao máximo, termina-as muito perto da areia seca. A espetacularidade a uma distância de apenas alguns metros.

As reações ocorrem, também, quando Ítalo, um entroncado e musculado surfista, nos moldes de Gabriel, está na água. O brasileiro, de cabelo descolorado, usurpa cada oportunidade que tem nas ondas para se projetar no ar, tomando a prancha por uma hélice de hélicoptero, rodando com os pés bem assentes nela para aterrar manobras que já não são a vanguarda do surf.

O brasileiro acabou o evento com a onda mais em pontuada do campeonato: um 9.30

O brasileiro acabou o evento com a onda mais em pontuada do campeonato: um 9.30

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

São o presente.

Ítalo Ferreira despacha, é esse o verbo, o conservadorismo de Michel Bourez, preso quase por lei à parede da onda, nos quartos-de-final, desafiando outra lei, a da gravidade, para acabar a bateria com quase 10 pontos a mais que o taitiano. Descolou sem qualquer turbulência rumo a um choque nos ares com Gabriel Medina.

Uma coincidência de estilos que, num mar assim, incapaz de dar ondas para lá do metro, fazia com que o único credível e possível obstáculo de um do brasileiros só poderia ser o outro brasileiro. Gabriel, realisticamente, só poderia ser parado por Ítalo - e vice-versa.

E foi-o, não propriamente por se superar, porque Ítalo é surfista para, todos os dias, inventar aéreos com 540º de rotação, aterrando-os com a graciosidade artística de uma bailarina, mas sendo capaz da proeza dar consistência a uma maravilha. Ele apanhou menos de metade (seis) das ondas a que o frenético Gabriel Medina se atirou (13), superando-o na batalha de aéreos.

Soube escolher as ondas, soube atacá-las na secção mais apropriada, olhou para elas e previu, sempre melhor que o líder do ranking, o sítio onde se poderia projetar mais alto. Aterrou uma viagem que lhe valeu um 9.30 e Medina não resistiu à melhor onda do campeonato. Os amigos cumprimentaram-se ainda na água, a caminho da praia, que tinha mais pessoas a vibrarem do que grãos de areia.

Com o sol a cair, depressa de mais, no horizonte, cortou-se o intervalo até à final para os 10 minutos (costumam ser 30). O francês Joan Duru, surpresa que antes de Julian Wilson já eliminara Filipe Toledo - os únicos que, com a matemática do lado deles, podiam evitar que Peniche desse o título mundial a Medina -, mal respirou após ser melhor que Owen Wright, na outra meia-final.

O mais surpreendente dos surfistas esta semana, em Supertubos, sofreu com a mesma evidência que limitou Michel Bourez, o seu maior companheiro no circuito. Fiel aos rails da sua prancha, Duru esperou por ondas para cortar, rasgar e desenhar curvas. Ítalo, afastado uns 50 metros do gaulês, prosseguiu com a sua aventura aérea.

Quando aterrou, sem falhas, o primeiro aéreo, toda a gente soube quem iria sair do mar em ombros, a irradiar berros para o céu, enquanto, na areia, dezenas de vozes expeliam cânticos com sotaque brasileiro, não tanto com o nome dele, mas do país deles. É do Brasil a bandeira que ganhou nove das dez rondas realizadas, em onze.

O terceiro, no caso, para Ítalo Ferreira.

E o enésimo que recompensa um surf para além da água e um surfista que faz da sua força as acrobacias que inventa no ar, com os pés colados à prancha. O brasileiro, de 24 anos, voou até a uma camada da atmosfera que só Gabriel Medina e Felipe Toledo costumam atingir, com consistência imperturbável, e logrou abanar um pouco as contas, adiando-as.

Medina sai de Peniche para ter que perseguir o título mundial no Havai, em Pipeline. A final garante-lhe a conquistar, um terceiro lugar obriga-o a fazer figas para que Julian Wilson ou Felipe Toledo não vençam a prova.

Mas a conclusão, como comprovou Ítalo, é que pode sempre confiar na sua vida pelo ares.

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

  • Chegou a multidão, a única coisa que parecia realmente importar

    Surf

    O surf é as ondas e também é os surfistas que tanto de bom são capazes de fazer com o que o mar lhes oferecer. Eles deviam ser as coisas que interessam, não fosse o surf, claro, um negócio, que ficou visível na decisão da organização do Meo Rip Cur Pro em não aproveitar as ondas que tinha na sexta-feira e esperar por sábado - que trouxe as pessoas e a multidão, mas levou muitas ondas, durante muito tempo