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Frederico Morais pergunta ao tempo quanto tempo o tempo tem

O adiamento do arranque do Billabong Pipe Masters, no Havai, a última etapa do circuito mundial de surf, por dois dias seguidos, está a deixar que o tornozelo de Frederico Morais tenha mais tempo para se curar e deixar que o português, 21º classificado de um ranking em que sobrevivem 22 surfistas, possa entrar na água sem dores

Diogo Pombo

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

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Infelizmente, é coisa que acontece: um dia, no mar, sem pontos ou vitórias e derrotas a boiarem, mas entre as ondas pesadas e desafiantes que quebram no Havai e pelas suas ilhas, algo se passou no tornozelo esquerdo de Frederico Morais. Era um treino, uma sessão de free surf, prática devida para as ondas que se viessem a surfar a sério, mas correu-lhe mal.

O português lesionou-se, parece ter torcido a articulação, feito uma entorse, maleita que tentámos confirmar com o surfista, sem sucesso, mesmo que o aval tenha aparecido através das redes sociais - uma fotografia de Kikas apoiado numa muleta, com o pé preso por ligaduras, ou um vídeo do pai, Nuno, fisioterapeuta de profissão, a tratar o tornozelo lesionado do filho. "Quando não controlas o destino e só podes aceitar o desafio... a melhorar todos os dias", escreveria.

Um destino que necessita, muito, de um tornozelo são, elástico e imune a dores, estado em que muito Frederico o quererá para a última etapa do circuito mundial, onde negociará com o mar a permanência na elite em que entrou, há dois anos, nestas mesmas ilhas.

Kikas abdicou do segundo de três eventos da Triple Crown havaiana, um troféu que junta duas provas (nas praias de Haleiwa e Sunset, onde o resgatou a sua entrada no CT, em 2016) do circuito de qualificação à derradeira do mundial onde moram os melhores humanos a existirem sobre as ondas. Para curar o tornozelo, o português caçou o tempo de que precisava ao evento de Sunset e escolheu, de vez, a onda que seria obrigado a apanhar.

Porque, assim, Frederico Morais ficou obrigado a garantir um terceiro ano no circuito no próprio circuito.

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Sendo que é o 21º surfista num ranking de 32 tipos em que apenas os 22 melhores sobrevivem, o português está mergulhado num berbicacho de água salgada, que requer algumas coisas aconteçam. Primeiro, terá que ultrapassar o maior número de baterias possível e fazer figas para que não vejamos isso em Yago Dora, Joan Duru, Thomas Hermes, Conor O'Leary, Pat Gudauskas e Ian Gouveia, tudo rapazes a viverem abaixo de Kikas na classificação.

Depois, manter os mesmos dedos cruzados para que almas como as de Ezekiel Lau (18º) ou Sebastian Zietz (19º), havaianos habituados às condições brutais que têm nos quintais de casa, não tenham sucesso nas ondas de Pipeline.

Se continuar com a olhar um pouco para cima, Frederico saberá que até pode ter a vida mais facilitada do que seria de esperar. O 20º lugar é de Griffin Colapinto, o imberbe americano que já garantiu a qualificação através do QS e cuja classificação, portanto, não contará caso termine o ano à frente do português. E o 17º posto é de Adriano de Souza, brasileiro a quem o azar fez uma visita mais cedo do que ao português, em Peniche, impossibilitando-o de surfar em Pipeline.

Frederico Morais começará por surfar contra o alto e poderoso sul-africano Jordy Smith, um senhor poderio em ondas pesadas, e Miguel Pupo, brasileiro que nada tem a perder ou a ganhar por estar a competir no circuito como substituto de Caio Ibelli. Essa primeira bateria era para se ter molhado na sexta-feira, depois no sábado e depois no domingo, mas o mar rabugento, chateado pelos ventos e o clima com feitio de tempestade, foram adiando o evento.

Adiando, que é como quem diz, dando mais tempo ao português para recuperar o tornozelo e dar mais margem para que a lesão não o condicione quando o tempo o obrigar a entrar no mar. O que poderá acontecer a partir das 17h30 portuguesas desta segunda-feira.