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É desta que voltamos a ver festa brasileira na areia de Pipeline?

A última etapa do circuito mundial de surf arrancou esta quarta-feira, no Havai. Após a fase de trials, o título mundial estará em discussão nas ondas de Pipeline e vai colocar à prova a rivalidade entre Brasil e Austrália. A luta é entre Gabriel Medina, Filipe Toledo e Julian Wilson

Carol Fontes

Há quatro anos, Gabriel Medina conquistou o título mundial na última etapa do circuito em Pipeline, no Havai. Foi a primeira vez que um sul-americano o fez e, desde então, o Brasil tem explodido no surf.

KENT NISHIMURA

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Duas das maiores potências da actualidade, Brasil e Austrália estão outra vez no topo do mundo do surf. Primeiro brasileiro campeão mundial, em 2014, Gabriel Medina luta pelo bicampeonato no North Shore da ilha havaiana de Oahu, com dois outros destaques de sua geração: o conterrâneo Filipe Toledo e o australiano Julian Wilson, com quem travou duras batalhas nos últimos anos.

As ondas pesadas e tubulares de Pipeline e Backdoor serão o palco da decisão. A janela do Pipe Masters, última de 11 etapas do circuito mundial de 2018, fica aberta até 20 de dezembro, e a World Surf League (WSL) poderá escolher os melhores dias para o espectáculo. Filipinho e Julian buscam o seu primeiro título mundial, mas têm uma difícil missão pela frente - afinal, precisam avançar à final.

"Todos os dias eu ganho mais experiências de vida. Sinto que estou evoluindo a cada dia. Vou dar o meu melhor em busca do segundo título mundial", disse Medina em seu perfil na WSL. Nos últimos quatro eventos, ele perdeu apenas duas de 17 baterias.

Dos quatro surfistas mais bem colocados no ranking mundial, três são do Brasil. Gabriel lidera, com 56.190 pontos, seguido por Julian Wilson (51.450), Filipe Toledo (51.450) e Italo Ferreira (43.070). O campeão do Pipe Masters ganha 10.000 pontos e o prémio de 100 mil dólares. Os ventos fortes adiaram o início da etapa, que deverá começar nesta semana. Dois convidados locais serão definidos na triagem, o Pipe Invitational.

O atual defensor do título do Pipe Masters é o francês Jeremy Flores. Ídolo local e criado nas ondas de Oahu, o bicampeão mundial John John Florence desistiu de surfar em Pipeline. O havaiano ainda se recupera de uma lesão no joelho sofrida em uma sessão de free surf em Bali, na Indonésia, em junho.

Uma lesão no tornozelo esquerdo às vésperas de Pipeline também põe em dúvida a participação do português Frederico Morais. Kikas sofreu uma entorse grave durante um treinamento, no entanto, mantém as esperanças e segue os trabalhos para estar apto a competir. Kikas foi escalado para a primeira bateria do dia contra o sul-africano Jordy Smith e o brasileiro Miguel Pupo.

Gabriel Medina estreia na sexta bateria diante do australiano Connor O'Leary e um surfista dos trials, enquanto Filipe Toledo terá pela frente o aussie Matt Wilkinson e o havaiano Seth Moniz, substituto de John John. Julian Wilson estreia contra o brasileiro Tomas Hermes e outro classificado pela triagem. Entre candidatos a entrar para a disputa principal no Havai, estão Jamie O'Brien, Nathan Florence, Billy Kemper, Koa Rothman, Mason Ho e Bruce Irons.

Na memória

Há quatro anos, as areias da mítica praia de Banzai Pipeline coloriram-se de verde e amarelo para comemorar a histórico título de Medina.

Nunca houvera um surfista sul-americano a alcançar o feito. Em 38 anos de circuito mundial até então, a hegemonia era de australianos, americanos e havaianos. Shaun Tomson, em 1977, e Martin Potter, em 1989, foram os únicos a quebrar a escrita. A conquista de Medina ajudou a quebrar paradigmas e preconceitos em um desporto marginalizado nos anos 70 e 80. Atualmente, o Brasil é referência na modalidade e tem nesta temporada o maior número de atletas na elite: 11 entre os top-34. A Austrália tem o segundo maior contingente, com sete surfistas, e não comemora um título mundial desde o tricampeonato de Mick Fanning, em 2015.

O CT de 2018 foi amplamente dominado por brasileiros. Em 10 etapas disputadas até o momento, oito foram vencidas por surfistas do chamado Brazilian Storm: Medina (Taiti e Surf Ranch, na Califórnia), Filipe Toledo (Rio de Janeiro e J-Bay, África do Sul), Willian Cardoso (Uluwatu, Indonésia) Ítalo Ferreira (Bells Beach, Austrália, Keramas, Indonésia, e Peniche, Portugal), recordista de vitórias neste ano. Julian Wilson levou a melhor na abertura do circuito, na Gold Coast australiana, e em Hossegor, França.

Histórico favorável

No Pipe Masters de 2014, Medina surfou uma onda nota 10 com um tubo nas direitas de Backdoor, mas não evitou a virada de Julian no fim. O brasileiro e o australiano já protagonizaram épicas finais no circuito e colocam a rivalidade na água mais uma vez na meca do surfe. Toledo, apontado como fenómeno nas ondas pequenas e médias, por sua vez, precisa provar a sua habilidade no mar pesado do Havai.

Medina é o único que depende apenas de si mesmo para conquistar o caneco de melhor surfista da temporada: basta chegar a final para cumprir o seu objetivo. Caso perca nas meias-finais, os seus rivais teriam de vencer a etapa para levar a melhor. Se Gabriel terminar em quinto lugar ou pior, Filipe e Julian têm obrigatoriamente de avançar até à decisão do Pipe Masters para manterem o sonho vivo.

O rapaz de origem humilde que saiu da praia de Maresias, em São Sebastião (SP), e até já apanhou latinhas na praia para ajudar nas despesas da casa, escreveu o seu nome na história e atualmente é um dos atletas mais influentes do mundo. Medina tem o estilo mais completo entre os três concorrentes. A versatilidade em diferentes ondas e condições o credencia como favorito ao troféu deste ano. O surfista de 24 anos foi o mais jovem a ingressar no WCT, em 2011, mais novo a vencer uma etapa, na França, e recordista de vitórias entre os brasileiros na elite, com 11, superando Filipinho e Mineirinho, ambos com sete cada. O sucesso da geração fez o surfe cair nas graças do país do futebol.

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Injecção de ânimo para Medina

O apoio a Medina cresce com a chegada do campeonato. Personalidades do país, como Neymar, Giselle Bündchen, Pelé, Anitta e Kaká são alguns dos rostos de um vídeo da campanha que está a circular na internet. Medina e Toledo são os dois maiores expoentes da chamada “geração de ouro” do surfe brasileiro. Ao lado de Adriano de Souza, campeão mundial em 2015, eles foram responsáveis por um divisor de águas no desporto nacional.

Da liderança do ranking ao título, eles trilharam o caminho sedimentado pela pioneira geração que viajava o mundo sem os patrocínios e estrutura de hoje. Os irmãos Neco e Teco Padaratz, Victor Ribas, Picuruta Salazar e Pepê Lopes foram alguns dos que colocaram o Brasil no patamar actual, mas a consagração acabou por vir décadas depois. O primeiro brasileiro a garantir a liderança do ranking foi Adriano de Souza, em 2011, mas o seu título mundial veio apenas em 2015. A conquista de Medina no ano anterior renovou os sonhos de outros surfistas de renome mundo afora.

Stephanie Gilmore campeã

No circuito feminino, a australiana Stephanie Gilmore conquistou o título mundial pela sétima vez na carreira. A local da superbancada de Gold Coast se beneficiou da precoce eliminação da americana Lakey Peterson na segunda ronda e arrematou o troféu na derradeira etapa do circuito em Maui, no Havai. O heptacampeonato a fez igualar a marca da também australiana Layne Beachley.

Panorama do título no Havaí:

- Se Gabriel Medina terminar em primeiro ou segundo lugar no Pipe Masters, ele é campeão mundial;

- Se Gabriel Medina terminar em terceiro, Julian Wilson e Filipe Toledo precisam vencer etapa;

- Se Gabriel Medina terminar em quinto ou 25º, Julian Wilson e Filipe Toledo precisam de um segundo ou um primeiro lugar em Pipeline.

As baterias do Pipe Invitational 2018, que apura dois surfistas para o evento principal:

1. Ryan Callinan (AUS), Makai McNamara (HAV), Jamie O’Brien (HAV), Bruce Irons (HAV)
2. Kiron Jabour (HAV), Imaikalani Devault (HAV), Nathan Florence (HAV), Sheldon Paishon (HAV)
3. Barron Mamiya (HAV), Torrey Meister (HAV), Ian Gentil (HAV), Ian Walsh (HAV)
4. Tanner Hendrickson (HAV), Mason Ho (HAV), Michael O’Shaughnessy (HAV), Takayuki Wakita (HAV)
5. Soli Bailey (AUS), Wyatt McHale (HAV), Noa Mizuno (HAV), Hank Gaskell (HAV)
6. Joshua Moniz (HAV), Finn McGill (HAV), Evan Valiere (HAV), Lahiki Minamishin (HAV)
7. Jack Robinson (AUS), Benji Brand (HAV), Koa Smith (HAV), Justin Becret (FRA)
8. Ethan Ewing (AUS), Billy Kemper (HAV), Dusty Payne (HAV), Koa Rothman (HAV)

A primeira ronda do Billabong Pipe Masters 2018:

1. Jordy Smith (AFR), Frederico Morais (POR), Miguel Pupo (BRA)
2. Owen Wright (AUS), Yago Dora (BRA), Keanu Asing (HAV)
3. Italo Ferreira (BRA), Joan Duru (FRA), Caio Ibelli (BRA)
4. Filipe Toledo (BRA), Matt Wilkinson (AUS), Seth Moniz (HAV)
5. Julian Wilson (AUS), Tomas Hermes (BRA), classificado pela triagem
6. Gabriel Medina (BRA), Connor O’Leary (AUS), classificado pela triagem
7. Wade Carmichael (AUS), Griffin Colapinto (EUA), Kelly Slater (EUA)
8. Kanoa Igarashi (JPO), Sebastian Zietz (HAV), Michael February (AFR)
9. Michel Bourez (PLF), Ezekiel Lau (HAV), Ian Gouveia (BRA)
10. Conner Coffin (EUA), Jeremy Flores (FRA), Jessé Mendes (BRA)
11. Kolohe Andino (EUA), Adrian Buchan (AUS), Joel Parkinson (AUS)
12. Willian Cardoso (BRA), Michael Rodrigues (BRA), Patrick Gudauskas (EUA)

  • Frederico Morais pergunta ao tempo quanto tempo o tempo tem

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    O adiamento do arranque do Billabong Pipe Masters, no Havai, a última etapa do circuito mundial de surf, por dois dias seguidos, está a deixar que o tornozelo de Frederico Morais tenha mais tempo para se curar e deixar que o português, 21º classificado de um ranking em que sobrevivem 22 surfistas, possa entrar na água sem dores