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Briga entre surfistas acirra rivalidade no Havai

O passado bate à porta. No lugar onde o localismo se manifesta com maior violência, Tanner Hendrickson e Michael Rodrigues trocaram socos antes do início do Pipeline Masters, palco do encerramento da temporada. Havaiano foi suspenso provisoriamente pela WSL

Carol Fontes

Michael Rodrigues ocupa atualmente a 14ª posição no ranking mundial

WSL / KELLY CESTARI

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Uma cena lamentável entre dois atletas de alto rendimento voltou a repetir-se na ilha de Oahu, no Havai. Na véspera do Pipeline Masters, 11ª etapa do Circuito Mundial e última parada da Tríplice Coroa Havaiana, o havaiano Tanner Hendrickson e Michael Rodrigues trocaram socos durante uma entrevista em direto do brasileiro para um canal de televisão.

Sem tolerar este tipo de comportamento, a Liga Mundial de Surf (WSL) decidiu suspender Hendrickson provisoriamente nesta quarta-feira. Pelo menos, até o fim das investigações.

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"Estou bem, focado unicamente na competição aqui em Pipeline e na minha carreira como surfista profissional. No mais, repudio todo e qualquer ato de violência contra mim ou contra qualquer outro ser vivo. Nada justifica a agressão que recebi, por isso, sinto-me na obrigação de tomar todas as providências cabíveis para que fatos lamentáveis como este não se repitam, comigo ou contra qualquer outro atleta e/ou pessoa. Por fim, a WSL já demonstrou que o surf, como desporto de alto nível que é, não tolera mais este tipo de comportamento. Espero que esse facto não manche negativamente o surf, e muito menos minha carreira", lamentou Michael Rodrigues nas redes sociais.

A decisão da entidade deixou o havaiano fora dos trials para o Pipe Masters, de onde saíram dois convidados: Ryan Callinan e Benji Brand. A disputa principal em Pipeline foi aberta nesta quinta-feira, e a WSL tem até 20 de dezembro para realizar o campeonato.

Ali, serão definidos o campeão mundial de 2018 e as últimas vagas para a elite na próxima temporada. Gabriel Medina, Julian Wilson e Filipe Toledo lutam pelo título.

Michael Rodrigues ocupa atualmente a 14ª posição no ranking mundial

Michael Rodrigues ocupa atualmente a 14ª posição no ranking mundial

WSL / KELLY CESTARI

O localismo é comum no surf, mas é no Havai onde ele se manifesta com mais agressividade. Muitos dos locais defendem as suas praias, literalmente, com unhas e dentes. É comum a prática do jiu-jitsu e alguns são cinturão negro. Tudo pela preservação da "meca" do surf mundial.

Eddie Rothman, também conhecido como Fast Eddie, é o "xerife" do North Shore de Oahu. Lá, os locais mandam e "desmandam" na região. Por vezes, já foi até montado um tribunal improvisado na casa do "dono" da costa norte para acerto de contas entre os surfistas.

Os brasileiros foram os que mais sentiram na pele a fúria dos locais. Mas, embora o clima tenha sido mais pacífico nos últimos anos, a rusga do passado permanece. No ano passado, o clima mais tenso por conta da decisão do título entre o ídolo local John John Florence e o brasileiro Gabriel Medina.

Impedir um local de surfar Pipeline, rabear ou "roubar" a prioridade de onda de um havaiano é uma tarefa que exige coragem, afinal, o preço costuma ser caro.

Os conflitos existem há décadas. Nos anos 70 e 80, os "Black Trunks", vestidos de calções pretos, tocavam o terror nos "haoles", surfistas estrangeiros. Já houve quem oferecesse uma recompensa de 100 dólares por cada brasileiro retirado do mar. A briga é parte da cultura local.

Além da preservação do ambiente, o facto de haver boas condições de surf durante seis meses do ano também deixa os locais mais sedentos pelas cobiçadas ondas da região.

Adriano de Souza já precisou de competir com seguranças na areia para ficar protegido da fúria de Dustin Barca, Neco Padaratz trocou socos com Sunny Garcia no Pipe Masters de 2007 e Peterson Rosa lutou no tribunal de Fast Eddie para resolver a confusão com Kalani Chapman. Os dois também trocaram socos no mar depois de algumas disputas de onda e só se acertaram no ringue.