Tribuna Expresso

Perfil

Surf

Jadson André. O surfista do impossível está de volta à elite (com uma ajudinha dos “moleques” portugueses)

De origem humilde, o surfista brasileiro saiu de uma pequena vila de pescadores no nordeste do Brasil e ganhou o mundo, passando quase uma década entre os melhores da modalidade. A família sustentava-se com menos de €100 por mês, mas o desporto mudou-lhe a vida. Aos 28 anos, o "potiguar voador" reinventa-se a cada ano e garantiu o regresso à elite na última oportunidade possível em Sunset Beach, no Havai. E revelou à Tribuna Expresso a sua felicidade, assim como a amizade com os surfistas portugueses: "O Kikas e o Vasquinho são dois meninos de ouro. Sempre que vou a Portugal e preciso de qualquer coisa, os 'moleques' estão ali para me ajudar"

Carol Fontes

Matthew Stockman

Partilhar

“Tudo parece impossível até que seja feito”. A frase de Nelson Mandela assenta como uma luva a Jadson André. O surfista de 28 anos sempre acreditou no impossível, mas nunca no improvável. Desde que entrou para a elite, em 2010, com vitória sobre o mito Kelly Slater, o brasileiro aprendeu a reinventar-se e a acreditar em milagres até o fim, mesmo quando a maré não parece favorável.

De origem humilde, Jadson encontrou no surf um divisor de águas. Firmou uma carreira sólida graças ao seu talento e espírito aguerrido, mudou a vida da sua família e manteve-se na elite mundial por quase uma década, sendo um dos mais respeitados e queridos no circuito.

Muitas vezes, a salvação veio em Portugal, em etapas valiosas pela divisão de acesso (QS). Desta vez, no entanto, a classificação heróica veio no Havai, uma das mais difíceis do Tour, em Sunset Beach, a segunda etapa da Triple Crown havaiana.

"Desde a primeira bateria foi pura emoção. Os oitavos de final foram uma das baterias mais difíceis do evento, com o Jack Robinson, um fenómeno no Havai, que surfa melhor que ninguém, o Sebastian Zietz, que estava quebrando [a surfar bem], e a briga direta [pela classificação] com o Soli Bailey, que estava ali cheirando o meu pescoço. Mas deu tudo certo. E os quartos foram uma bateria sensacional. É difícil surfar em Sunset e é difícil pegar uma onda em Sunset, principalmente quando falta pouco tempo. Faltavam três minutos e eu estava em combinação, precisava de duas ondas. Foi algo perto do impossível", contou Jadson à Tribuna Expresso, que, assim como em 2016, também se classificou em Sunset Beach, na sua última oportunidade possível.

"Eu não sabia o que realmente estava acontecendo ali, só sei que no final da bateria peguei uma onda sensacional. Quando acabou a bateria, estava comemorando balançando os braços porque ouvi o locutor na praia falar que eu precisava de 7.6. Eu tinha a certeza de que a minha onda era excelente, então, antes de sair a nota, eu já estava comemorando. Quando eu vi que a minha onda tinha sido 8.1 e eu tinha vencido a bateria, eu fiquei louco. Louco, no bom sentido. Eu comecei a gritar 'glória a Deus' e a pôr as mãos para o céu porque foi um milagre eu ter virado a bateria", completou o surfista.

Jadson André será um dos brasileiros no Circuito Mundial de 2019

Jadson André será um dos brasileiros no Circuito Mundial de 2019

WSL / Keoki Saguibo

O shaper português "vidente"

Depois de duas reviravoltas no “mata-mata”, Jadson estava à espera de um milagre nos quartos de final. Na altura, ele estava em combinação e precisava surfar duas ondas a menos de três minutos do estouro do cronómetro para manter vivo o sonho de voltar ao seleto grupo dos 32 melhores do mundo.

A salvação veio 36 segundos para o fim. Após um 5.60, ele viu no horizonte uma vasta parede de água para encaixar manobras. Foi recompensado com nota 8.10 e virou o resultado sobre o francês Joan Duru por 13.70 a 13.17. Quem "previu" o feito foi um dos seus shapers, o português Nuno Matta.

“Sabe de quem é a culpa? Do Matta, o meu shaper [MATTA Surfboards]. Quando eu estava em Portugal, ele falou: você vai deixar para a etapa de Sunset só para matar todo mundo do coração porque você gosta de emoção. Dito e feito. O campeonato foi, sem sobras de dúvidas, o mais incrível para mim. Eu não precisava de resultado por estar no top-10, mas a turma foi passando baterias e, automaticamente, foram me forçando a passar também. O que é que eu fiz? Fui passando [risos]. Deu altas ondas, o mar estava clássico, bem grande, então, fica menos difícil de competir em Sunset", lembrou o surfista, que acrescentou o Havai como um de seus lugares favoritos para competir, ao lado de Taiti e Portugal.

Amizade com Kikas e Vasco Ribeiro

Jadson já venceu duas vezes o QS 10.000 Cascais, etapa "prime" da divisão de acesso (QS), soma bons resultados em etapas portuguesas e tem uma boa relação com o país. Amigo do top da elite Frederico Morais - Kikas -, e de Vasco Ribeiro, o surfista rasgou elogios aos portugueses da Liga Mundial de Surf (WSL). Segundo ele, ver Vasco no CT é apenas uma questão de tempo. E vai além: Jadson aposta que o atleta luso irá provocar um "estrago" quando entrar na elite.

"O Kikas e o Vasquinho são dois meninos de ouro, duas pessoas que eu gosto muito e tenho muito carinho. Tenho 28 anos e eles são um pouco mais novos do que eu. Sempre vi que eles tinham um talento incrível, principalmente, para o Circuito Mundial. Tenho a certeza de que é uma questão de tempo para o Vasco Ribeiro entrar e fazer um estrago nisso tudo aqui. O surf do Vasco encaixa perfeitamente no circuito", garantiu.

"Sempre que vou a Portugal e preciso de qualquer coisa, os 'moleques' estão ali para me ajudar. Na realidade, Portugal inteiro. O pessoal tem um carinho incrível por mim, nunca passei dificuldades, e eu tenho patrocínio da Matta, shaper português, já venci vários eventos com a prancha dele. Portugal é um lugar incrível, que me traz boas lembranças, pessoas legais, ondas incríveis... É um país que, sem dúvida, vai ficar gravado para o resto da minha vida como um lugar muito especial."

Dias de luta, dias de glória

Embora tenha uma carreira de sucesso, o caminho nem sempre foi fácil. Nascido e criado na pequena vila de Ponta Negra, no litoral de Natal, Rio Grande do Norte, o “potiguar voador” leva uma vida simples em casa e vem de uma família de pescadores. O surfista de 28 anos morava com os dois irmãos numa casa com um quarto e uma casa de banho, e a família sustentava-se apenas com 400 reais - menos de 100 euros - por mês.

Jadson viu a sua vida transformar-se através do surf. O pai trabalhava como pedreiro e era como um “faz tudo”, acumulando também as funções de marceneiro, pintor e até cavava poços. A mãe era empregada doméstica e teve de deixar o emprego para tratar de uma diabetes, mas, graças ao trabalho do filho, hoje vive de forma tranquila e confortável.

"O surf mudou a minha vida totalmente, da água para o vinho. Consegui mudar a vida da minha família, dar uma condição um pouco melhor e para mim, isso não tem preço. Sinto-me bem honrado por ter ajudado a minha família. Até hoje eu ajudo um pouco aqui, um pouco ali, mas, sem dúvida, o que eu mais poderia ter feito por eles de forma radical eu fiz. A minha família sempre foi muito humilde, mas, hoje em dia, tem uma vida um pouco melhor, trabalhando com dignidade com os negócios deles e eu sigo trabalhando para conseguir as minhas coisas", revelou o "potiguar voador".

Jadson André garantiu a classificação para a elite em Sunset Beach no Havai

Jadson André garantiu a classificação para a elite em Sunset Beach no Havai

WSL/TONYHEFF

Com o tempo, muita coisa mudou. A casa foi reformada e Jadson já deu mais 10 voltas ao mundo surfando nas mais variadas ondas e condições. O espírito continuou o mesmo, e o potiguar manteve a sua essência. Seja no surf com os locais pelas praias de Natal, assistindo a um dos jogos do ABC em um dos barzinhos numa das estradas de barro do vilarejo ou no futebol com os amigos no campo do seu condomínio.

Mais maduro, Jadson também tem aproveitado as horas vagas para estudar, aprender sobre coaching, gestão e finanças e até a cozinhar. E, claro, muito treino. Ele teve de assistir esta temporada ao circuito de longe, mas tem estado dedicado para estar 100% em seu retorno. A etapa da qual o atleta mais sentiu falta foi a de Teahupoo, no Taiti. É ali, na "praia dos crânios quebrados", onde há uma das ondas mais perfeitas do mundo, forte e tubular, que quebra sobre uma rasa bancada de corais de 0,5m de profundidade.

Evolução constante

O surfista mal pode esperar para viajar novamente para a Polinésia Francesa e competir no chamado "Circuito dos Sonhos". Jadson diz que o trabalho deve caminhar ao lado da renovação. "Estou feliz e orgulhoso de voltar à elite. Eu saí duas vezes e voltei no ano seguinte. O trabalho tem que continuar com disciplina. A 'molecada' está cada vez melhor, portanto, tem que fazer de tudo para acompanhar, se não, você vai ser massacrado. Quem já fez parte da elite sabe a diferença que é estar no CT, ainda mais eu que nunca tive grandes patrocinadores como outros atletas por aí, então, a diferença de vida e a minha realidade muda muito quando eu estou no CT e quando eu estou no QS", explicou.

"Isso não quer dizer que eu não sou grato por não estar no CT. Eu sempre faço tudo para extrair o máximo de coisas positivas da minha situação. Quando eu estou no QS, eu encaro a minha realidade da mesma forma que eu encaro quando estou no CT, mas sabendo das limitações", considerou Jadson, que avaliou o ano de 2018 como um dos melhores de sua vida.

Vitória épica de apresentação

Em 2010, o seu ano de estreia na elite, Jadson conquistou uma das mais importantes vitórias de sua carreira na final da etapa brasileira do circuito em Imbituba, Santa Catarina. A vítima na final foi ninguém menos do que o americano Kelly Slater. Na época, o 11 vezes campeão mundial havia arrematado nove de seus troféus, mas já era uma lenda viva do desporto, enquanto o brasileiro era apenas uma promessa. O cartão de visitas ainda serviu para vingar Adriano de Souza, superado pelo surfista de Cocoa Beach na final no Brasil na temporada anterior.

Nove anos depois, Jadson fará uma nova estreia na elite mundial. Ao fim da etapa de Sunset Beach, o já classificado Jadson retornou ao Brasil.

Brasil pode ter 12 surfistas no CT 2019

As vagas restantes na elite serão conhecidas ao fim do Pipeline Masters, que marca o encerramento da temporada na meca do surf. Ao todo, 22 surfistas classificam-se pelo CT, enquanto 10 avançam pelo QS. Pipeline é também a terceira parada da Triple Crown, depois de Haleiwa e Sunset Beach, competições que rendem 10 mil pontos ao campeão no ranking de acesso à elite. E o Brasil pode chegar a um contingente de 12 surfistas, dependendo dos resultados na ilha de Oahu.

Além Medina e Filipinho, outros representantes do Brazilian Storm classificados pelo CT são Adriano de Souza, Italo Ferreira, Willian Cardoso, Michael Rodrigues e Yago Dora, ameaçado na 22ª posição, última na zona de classificação pelo CT. Jadson, Jessé Mendes, Peterson Crisanto e Deivid Silva carimbaram o seu passaporte através do QS, mas Tomas Hermes, Ian Gouveia e Caio Ibelli ainda estão fora da zona de classificação. Caio, no entanto, pode receber um convite da WSL destinado a atletas que sofreram com lesões ao longo do ano e, assim, ser o 12º “jogador” da seleção brasileira entre os 32 melhores surfistas do mundo.

Decisão no Havai

O Pipeline Masters foi aberto nesta quarta-feira com a realização do trials, de onde saíram dois convidados: o australiano Ryan Callinan, vencedor da disputa, e o vice Benji Brand, local das praias do North Shore havaiano. A janela do campeonato fica aberta até o dia 20 de dezembro.

O português Frederico Morais estreia na primeira bateria da ronda 1 contra o sul-africano Jordy Smith e o americano 11 vezes campeão do mundo Kelly Slater. Três surfistas estão na briga pelo título mundial em Pipeline: Gabriel Medina, Julian Wilson e Filipe Toledo. Líder do ranking, Medina conquista o bicampeonato se for à decisão, sem depender de outros resultados.

  • Frederico Morais: com o pé ligado para a segunda ronda de Pipeline

    Surf

    A boa notícia é que a entorse que Frederico Morais sofreu no tornozelo, no Havai, recuperou ao ponto de o deixar competir no Pipe Masters. A má é que o português perdeu na primeira ronda e foi repescado para a segunda, em que terá obrigatoriamente de ganhar para continuar em prova - e a lutar pela sobrevivência no circuito mundial de surf

  • Briga entre surfistas acirra rivalidade no Havai

    Surf

    O passado bate à porta. No lugar onde o localismo se manifesta com maior violência, Tanner Hendrickson e Michael Rodrigues trocaram socos antes do início do Pipeline Masters, palco do encerramento da temporada. Havaiano foi suspenso provisoriamente pela WSL

  • É desta que voltamos a ver festa brasileira na areia de Pipeline?

    Surf

    A última etapa do circuito mundial de surf arrancou esta quarta-feira, no Havai. Após a fase de trials, o título mundial estará em discussão nas ondas de Pipeline e vai colocar à prova a rivalidade entre Brasil e Austrália. A luta é entre Gabriel Medina, Filipe Toledo e Julian Wilson

  • Frederico Morais pergunta ao tempo quanto tempo o tempo tem

    Surf

    O adiamento do arranque do Billabong Pipe Masters, no Havai, a última etapa do circuito mundial de surf, por dois dias seguidos, está a deixar que o tornozelo de Frederico Morais tenha mais tempo para se curar e deixar que o português, 21º classificado de um ranking em que sobrevivem 22 surfistas, possa entrar na água sem dores