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A próxima vida de Frederico Morais: 75 etapas e muitas horas em aviões no circuito dos sonhadores

Ao fim de dois anos entre os 32 melhores surfistas do mundo, o português voltará a ter que competir, integralmente, no circuito de qualificação. Apenas três homens já conseguiram requalificar-se logo no ano seguinte a serem eliminados do world tour

Diogo Pombo

Kelly Cestari

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Imaginemos juntos, por momentos. Somos um surfista profissional, a nossa vida é fazer uso de uma prancha, passámos uma vida a treinar no duro para nunca cessarmos de melhorar o nosso jeito a viver nas ondas, por mais ou menos inato que seja. O afinco compensou e fez-nos chegar ao circuito onde toda a pessoa com fome de competição quer alcançar. Somos, por fim, uma de trinta e duas almas que têm um privilégio como há poucos em circuitos mundiais de modalidades desportivas.

Temos o direito a vestir o fato de neoprene, às vezes até basta o fato de banho, e de nos taparmos com uma licra de manga curta, para quem está na praia a avaliar nos ver melhor - e entrarmos no mar nos onze lugares do planeta onde quebram as melhores e mais aptas ondas do planeta para darem boleia a pranchas de surf.

Sítios espalhados pela Austrália e a África do Sul, pelos EUA e o Taiti, pelo Brasil e o Havai, por França e Portugal. Em fundos de areia, de coral ou ladeados por pontões, são aglomerados de água que se desfazem com a graciosidade que encanta qualquer pedaço de gente que se deixe levar pelo surf. Muita gente e cada vez mais, que fazem esses lugares ficarem sobre povoados num dia normal, em que é quase preciso pedir autorização para estar na água e apanhar um onda.

Agora, imaginem-se a ter as melhores ondas do mundo, durante os, supostos, melhores períodos que a natureza tem no ano (ondulação, vento, marés, etc.) para cada uma delas, só para vocês e para um, dois ou três outros surfistas que competem contra vocês. Seria e é de sonho, daí chamarem-lhe o circuito de sonho em vez de Championship Tour (CT), a designação oficial.

O dream tour para qualquer surfista, não concordariam?

É o circuito do qual se soube que Frederico Morais sairá - e, sem lhe perguntar, por certo que estranhará esta perda de privilégios.

Foi o segundo português - Tiago Pires foi o primeiro - a chegar onde se tornou tradicional ver mais australianos, americanos e brasileiros do que outra qualquer nacionalidade. Kikas apurou-se em 2016 com façanhas míticas no Havai, estreou-se em 2017 com resultados de arregalar o olho e uma final surfada (em Jeffreys Bay, na África do Sul), mas sofreu durante 2018. Teve resultados por baixo da fasquia que elevara com a época de estreia, lesionou-se no último mês de competição e o azar, no Havai, dificultou-lhe a vida que o próprio foi tornando difícil nas dez etapas anteriores.

O único português que competia no circuito mundial de surf foi desqualificado para o circuito que não é de sonho, mas de quem é sonhador.

Kikas juntar-se-á a Vasco Ribeiro, o seguinte na hipotética linha de sucessão dos portugueses que mais perto ficam, desde há uns anos, de entrar no CT, mais outros surfistas à beira-mar plantados que competiram no Qualification Tour (QS). Vasco acabou a temporada na 23.ª posição e outros sete portugueses ficaram no top-300: Miguel Blanco (120.º), Tomás Fernandes (152.º), Pedro Coelho (234.º), Nicolau Von Rupp (240.º), Luís Perloiro (241.º), Jácome Correia (278.º) e Pedro Henrique (288.º).

Eles terminaram entrelaçados no meio de uma vida que contrasta com a primeira divisão dos surfistas. As 11 etapas do CT são 75 no QS. As massas de água que se agigantam para serem tubulares, pesadas e brutais a quebrarem são trocadas por ondas que se formam, sobretudo, sobre bancos de areia, quase sempre menores em tamanho e intensidade. Porque o circuito de qualificação é bem diferente.

O calendário repleto de eventos faz com que o período de espera (janela de tempo em que a prova se pode realizar e esperar, ou não, pelas melhores condições) de cada um seja mais curto. É limitativo e limita, muitas vezes, os campeonatos a terem de se haver com as condições que há no momento e pronto. Há muito mais eventos. Há muitos mais surfistas a competirem. Há muito mais gente a correr atrás do prejuízo. Há muito mais dinheiro, voos e horas em viagem a terem que ser investidos.

E há muitas mais escolhas a fazer.

As 75 provas do circuito de qualificação não valem todas o mesmo. Há cinco (uma delas na Ericeira, em setembro), os chamados eventos prime, que premeiam o vencedor com 10 mil pontos, recompensa incrivelmente valiosa porque pode decidir grande parte do problema de uma temporada: Kanoa Igarashi, o campeão do QS, terminou com 26.800 pontos e venceu o Vans US Open of Surfing, evento prime de Huffington Beach, nos EUA.

Joel Parkinson foi único entre os cinco surfistas diferentes que ganharam um destes eventos que não acabou o ano entre os dez primeiros que se qualificam para o circuito mundial. E o australiano que viajou com a mulher, os filhos e os seus 37 anos atrás, que há muito anunciara que se ia retirar no fim da época, também serve de exemplo - ele só participou em dois eventos de qualificação e, mesmo assim, fechou o circuito no 24º lugar. Mas também serve para evidenciar um problema.

A World Surf League (WSL) permite que os surfistas residentes no CT participem nas provas do QS, se lhes apetecer. Portanto, há quem vá competindo nos dois circuitos, sobretudo quem tem a vida mais complicada na primeira divisão e tenha em risco a manutenção, pois aí opta por tentar garantir o lugar através do circuito de qualificação.

Ou seja, Frederico Morais e os restantes portugueses vão, de quando em vez, partilhar ondas e mar com surfistas, em teoria, melhores, com mais andamento, habituados a outro nível e concorrência na água.

O circuito vai de janeiro a dezembro, partindo de Israel e terminando no Havai, saltitando por outros territórios não muito comuns de se ver no surf de competição, como o Panamá, o Japão, a Argentina, os Barbados, o Senegal, o Peru ou a Martinica, onde Kikas logrou vencer uma prova, no ano prévio a qualificar-se para o circuito do qual, por agora, terá de acordar do sonho para tentar o que apenas quatro surfistas (Dusty Payne, Alejo Muniz, Keanu Asing e Leonardo Fioravanti) conseguiram: regressar ao CT logo no ano seguinte a ser eliminado.

  • Jadson André. O surfista do impossível está de volta à elite (com uma ajudinha dos “moleques” portugueses)

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    De origem humilde, o surfista brasileiro saiu de uma pequena vila de pescadores no nordeste do Brasil e ganhou o mundo, passando quase uma década entre os melhores da modalidade. A família sustentava-se com menos de €100 por mês, mas o desporto mudou-lhe a vida. Aos 28 anos, o "potiguar voador" reinventa-se a cada ano e garantiu o regresso à elite na última oportunidade possível em Sunset Beach, no Havai. E revelou à Tribuna Expresso a sua felicidade, assim como a amizade com os surfistas portugueses: "O Kikas e o Vasquinho são dois meninos de ouro. Sempre que vou a Portugal e preciso de qualquer coisa, os 'moleques' estão ali para me ajudar"