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Gabriel Medina, o fenómeno da “geração de ouro” do Brasil

Conheça o surfista que saiu da praia de Maresias para conquistar o mundo e mudou paradigmas: a relação com o padrasto, a veia competitiva, a versatilidade e as impressionantes marcas do brasileiro que garantiu o seu segundo título mundial, esta terça-feira, no Havai, tornando-se um Pipe Master na meca do surf

Carol Fontes

Ed Sloane/WSL

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Uma história escrita por um animal indomável, com fome e sem medo. As palavras do pai refletem a história de Gabriel Medina. Um menino que saiu da praia de Maresias, em São Sebastião, no litoral de São Paulo, e ganhou o mundo. Depois de escrever o seu nome na história como o primeiro brasileiro campeão do mundo no surf, em 2014, o surfista de 24 anos voltou ao topo ao garantir o bicampeonato, na mítica praia de Banzai Pipeline, no North Shore da ilha de Oahu, no Havai.

Nenhum outro competidor foi mais competente e magistral nas ondas pesadas e tubulares do lugar considerado a meca do desporto. O título no Pipe Masters, a derradeira de 11 etapas do circuito mundial de surf 2018, tornou tudo ainda mais especial. E ainda com uma vitória sobre o seu maior rival, o australiano Julian Wilson, o seu algoz na final da etapa de 2014 e com quem trava duras batalhas desde que entrou na elite.

“Todo mundo está aumentando os limites. O nível está altíssimo. Todos são muito bons e isso é o que me incentiva a treinar mais, surfar mais. Essa é a minha motivação, pois quero estar sempre no mesmo nível deles. Foi incrível vir para Pipeline disputar o título com o Julian e o Filipe [Toledo]. São duas pessoas incríveis, grandes surfistas, sou fã dos dois e foi um ótimo ano para mim, porém muito longo e muito intenso”, contou Gabriel à World Surf League logo ao sair do mar.

Medina assumiu a liderança do ranking somente na nona etapa do Tour, em França, mas não deixou escapar a licra amarela de número um até ao apito final. A praia de Pipeline era como um Maracanã lotado de adeptos em êxtase. Gabriel foi carregado por amigos e pelo segurança “Fabão”, o seu fiel escudeiro, festejou com a mãe, Simone, os irmãos, Sophia e Felipe, e o pai, Charles Saldanha. Para o atleta, bastante religioso, o final perfeito foi um plano de Deus. O esforço e o “regime militar” imposto pelo treinador surtiram efeito. A chamada “prisão do Charlão” é uma tática antiga. O surfista abdicou de festas e saídas com amigos para se dedicar inteiramente ao surf. No Havai, ficou numa espécie de túnel, de casa para Pipeline, de Pipeline para casa. Deu certo.

“Trabalhei muito este ano. Foi um ano intenso e estou feliz agora que deu tudo certo”. Foram as primeiras palavras de Medina, que vai completar 25 anos de idade agora a 22 de dezembro. “Ver toda a minha família e amigos felizes indo buscar-me ali [no mar], com orgulho de mim, deixa-me muito feliz. É isso que me faz vir aqui e fazer o meu melhor sempre. Só tenho que agradecer a Deus e eu tive fé até ao final. Eu vi os 'caras' da bateria anterior pegando altas ondas, então mantive a calma no início e estou amarradão. Isso é para o Brasil”, completou o surfista, que havia sido duas vezes vice-campeão da etapa no Havai antes de se tornar um Pipe Master.

Gabriel Medina é bicampeão mundial no Havai

Gabriel Medina é bicampeão mundial no Havai

@WSL / Ed Sloane

A união de Medina e "Charlão"

Charles Saldanha, o treinador e padrasto, adotou o surfista como filho e foi o primeiro a perceber o seu potencial. Juntos e isolados em Maresias, realizaram um trabalho minucioso para lapidar o jovem que logo despontou como um prodígio. Com o tempo, outros foram percebendo o que estava por vir. Nomes como Kelly Slater, Mick Fanning, Joel Parkinson, Taylor Knox e Martin Potter são alguns dos exemplos. A cada façanha de Medina, vinha a certeza que, anos depois, o domínio seria todo seu.

"Charlão” e Gabriel conheceram-se quando o surfista tinha oito anos. O padrasto, triatleta e surfista nas horas vagas deixou a faculdade de arquitetura na cidade de São Paulo para viver perto da praia. Mudou-se para Maresias, trabalhou como ajudante de pizzaiolo e tornou-se dono de uma loja de produtos de surf. Foi ali que conheceu Simone Medina, que já era mãe de Gabriel e Felipe. Anos mais tarde, nasceu Sophia, fruto da união do casal. Foi Charles quem deu a primeira prancha de surf para o menino, na altura, com 10 anos.

Gabriel Medina

Gabriel Medina

Kelly Cestari

De promessa a realidade

Aos 15, ganhou duas notas 10 no World King of the Groms, campeonato com promessas do surf, numa final com o compatriota Caio Ibelli. Dois anos depois, com 17, Medina fez a sua estreia na elite mundial. Em seis meses, venceu duas de cinco etapas, passando por atletas de alto calibre como Slater, Taylor Knox e Joel Parkinson. O jogo aéreo impressionou a todos: “Medina Airlines", “The Freak”, “Fenómeno” e “Air Medina” são algumas das suas alcunhas.

Gabriel sempre foi um competidor nato, com um talento e uma inteligência fora do comum, tanto em termos de leitura do mar como no sentido de estratégias e tomadas de decisão durante as competições. Ele é também um “homem de gelo”. Tem a frieza como um dos seus pontos fortes e provou isto mais uma vez numa campanha irretocável em Pipeline.

Gabriel Medina

Gabriel Medina

Ed Sloane

Brilho no Pipe Masters

Mesmo quando as condições eram desafiadoras e o vento atrapalhava a formação do mar, Gabriel soube escolher as melhores ondas das baterias e usou a refinada técnica para tirar o máximo de proveito das esquerdas de Pipeline e das direitas de Backdoor. Passou por outros competidores além de Julian, como o perigoso havaiano Seth Moniz, local da costa norte havaiana e substituto do lesionado John John Florence, e como o sul-africano Jordy Smith.

Mesmo quando estava atrás no marcador, como na bateria contra Conner Coffin nos quartos de final, ele não perdeu a calma. O tubo de Backdoor rendeu-lhe uma nota 10 e provocou uma reviravolta, comemorada pelos adeptos brasileiros como um golo numa final de um Campeonato do Mundo. E quando a onda quebrou clássica, ele também encontrou os melhores e maiores tubos. Entrou na caverna e desapareceu atrás da cortina de água, descolou em aéreos e foi ovacionado pelo público, provando ser um atleta completo, preparado para todas as condições.

Não são todos os surfistas que têm esse poder de jogar e cativar o público. Tarefa para poucos, como o brasileiro e o americano Kelly Slater, onze vezes campeão do mundo. Se antes o Brasil tinha a fama de “merrequeiro” (surfistas de ondas pequenas), mesmo já sendo uma potência no desporto, Medina veio definitivamente transformar de vez a forma como o mundo via o surf verde e amarelo. Gabriel provou inúmeras vezes ser um surfista completo. Ao todo, o local de Maresias tem 12 vitórias na elite mundial, sendo três somente nesta temporada: Teahupoo, no Taiti, também conhecida como a “praia dos crânios quebrados”, Surf Ranch, em Lemoore, na Califórnia, na piscina de ondas de Kelly Slater, e o Pipeline Masters, o troféu mais cobiçado do circuito.

Gabriel Medina

Gabriel Medina

Ed Sloane

Domínio brasileiro

Quando conquistou o primeiro título mundial no Havai, Medina quebrou uma hegemonia de 38 anos de australianos, americanos e havaianos. No ano seguinte, veio a conquista de Adriano de Souza, o primeiro brasileiro a liderar o ranking mundial. John John Florence levou o caneco em 2016 e 2017 e, agora, o Brasil voltou ao topo.

O bicampeonato de Medina coroou o domínio brasileiro no circuito mundial surf de 2018. Das 11 etapas disputadas nesta temporada, nove foram vencidas por representes do Brazilian Storm, como foi batizada a “geração de ouro” de Medina, Filipe Toledo e Adriano de Souza. Surfistas que trilharam um caminho sedimentado por pioneiros e refletiram a versatilidade e talento em resultados. Desde a primeira vitória do país na elite, em 1976, com Pepê Lopes, foram 45 vitórias do Brasil no “Circuito dos Sonhos”.

A única nota 10 do campeonato também foi de Gabriel Medina no Pipeline Masters, no Havai

A única nota 10 do campeonato também foi de Gabriel Medina no Pipeline Masters, no Havai

Tony Heff

Vitórias de Gabriel Medina na elite mundial:

2011 - Hossegor, França - Gabriel Medina
2011 - San Francisco, EUA - Gabriel Medina
2014 - Snapper Rocks, Austrália - Gabriel Medina
2014 - Fiji Pro, Tavarua - Gabriel Medina
2014 - Teahupoo, Taiti - Gabriel Medina
2015 - Hossegor, França Gabriel Medina
2016 - Fiji Pro, Tavarua - Gabriel Medina
2017 - Hossegor, França - Gabriel Medina
2017 - Peniche, Portugal - Gabriel Medina
2018 - Teahupoo, Taiti - Gabriel Medina
2018 - Surf Ranch, Lemoore, Califórnia, EUA - Gabriel Medina
2018 - Pipe Masters, Havai - Gabriel Medina

Todas as etapas do circuito mundial de 2018:

Gold Coast, Austrália - Julian Wilson
Bells Beach, Austrália - Italo Ferreira
Saquarema, Rio de Janeiro - Filipe Toledo
Keramas, Bali, Indonésia - Italo Ferreira
Margaret River/Uluwatu, Indonésia - William Cardoso
Jeffreys Bay, África do Sul - Filipe Toledo
Teahupoo, Taiti - Gabriel Medina
Surf Ranch, Lemoore, Califórnia - Gabriel Medina
Hossegor, França - Julian Wilson
Peniche, Portugal - Italo Ferreira
Pipeline, Havai - Gabriel Medina

TOP-22 do circuito mundial - quem fica na elite:

1: Gabriel Medina (BRA) – 62.490 pontos
2: Julian Wilson (AUS) – 57.585
3: Filipe Toledo (BRA) – 51.450
4: Italo Ferreira (BRA) – 43.070
5: Jordy Smith (AFR) – 36.440
6: Owen Wright (AUS) – 35.570
7: Conner Coffin (EUA) – 32.715
8: Michel Bourez (TAH) – 32.395
9: Wade Carmichael (AUS) – 31.915
10: Kanoa Igarashi (JPN) – 30.520
11: Kolohe Andino (EUA) – 27.600
12: Mikey Wright (AUS) – 27.275
13: Willian Cardoso (BRA) – 27.190
14: Sebastian Zietz (HAV) – 26.850
15: Michael Rodrigues (BRA) – 25.215
16: Jeremy Flores (FRA) – 24.520
17: Adrian Buchan (AUS) – 23.945
18: Griffin Colapinto (EUA) – 23.275
19: Adriano de Souza (BRA) – 22.925
20: Ezekiel Lau (HAV) – 22.820
21: Yago Dora (BRA) – 22.725
22: Joan Duru (FRA) – 21.255
--------fora da zona de classificação:
23: Frederico Morais (PRT) – 19.645 pontos

G-10 da divisão de acesso (QS):

1: Kanoa Igarashi (JPN) – 26.800 pontos é top-22 do CT
2: Griffin Colapinto (EUA) – 24.300 é top-22 do CT
3: Seth Moniz (HAV) – 22.300
4: Ryan Callinan (AUS) – 21.660
5: Peterson Crisanto (BRA) – 20.750
6: Jessé Mendes (BRA) – 20.250
7: Deivid Silva (BRA) – 19.860
8: Ricardo Christie (NZL) – 18.750
9: Leonardo Fioravanti (ITA) – 18.650
10: Jadson André (BRA) – 18.160
11: Soli Bailey (AUS) – 17.200
12: Ezekiel Lau (HAV) – 17.100 é top-22 do CT
13: Jack Freestone (AUS) – 14.400

Perderam suas vagas no CT 2018:

23: Frederico Morais (PRT) – 19.645 pontos
24: Joel Parkinson (AUS) – 17.810
25: Matt Wilkinson (AUS) – 17.155
26: Connor O´Leary (AUS) – 16.565
27: Tomas Hermes (BRA) – 15.670
29: Patrick Gudauskas (EUA) – 15.215
30: Kelly Slater (EUA) – 15.110
32: Michael February (AFR) – 13.085
33: Ian Gouveia (BRA) – 12.040
34: Mick Fanning (AUS) – 11.500
35: John John Florence (HAV) – 10.795
37: Keanu Asing (HAV) – 7.515
39: Caio Ibelli (BRA) – 3.780