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No mata-mata, Gabriel matou. Medina é campeão do mundo

Na última bateria da derradeira etapa do circuito, Gabriel Medina imperou dentro dos cavernosos tubos de Pipeline, bateu Julian Wilson e juntou uma vitória ao que já garantira na meia-final: o brasileiro é campeão mundial de surf pela segunda vez na carreira

Diogo Pombo

Ed Sloane/WSL

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Chegar à última etapa de um circuito que dura nove meses, tem onze paragens por cinco continentes, conta com trinta e dois surfistas residentes e ser aí que se decide o campeão do mundo seria, provavelmente, o melhor desfecho possível para quem compete na água, quem assiste na areia, quem vê pela televisão no canto oposto do mundo, quem está no escritório e patrocinou o circuito. Até quem espreitou a transmissão por curiosidade.

Que da final do Billabong Pipeline Masters, a derradeira etapa do tour, sairia o campeão mundial de surf.

Mas, na meia-final, um dos vindouros finalistas garantiu outra coisa curiosa: quem surfaria contra ele estaria já a surfar para bater um campeão mundial.

O australiano facilmente sorridente, Julian Wilson, tipo pacato e de palavras sempre sucintas, ganhador de duas etapas incluindo a primeira do ano, quando estava quase com um ombro a menos (caíra, semanas antes, a praticar BTT perto de casa), perder o que mais almejava ainda antes de entrar na água. O título já não poderia ser seu, mas teria a hipótese de ser o melhor em Pipeline.

Ele ou Gabriel Medina, o poderoso surfista, o mais genialmente polivalente do circuito, tão fora de série a dar uso aos rails da prancha na água, a usar as ondas como rampas de lançamento ou a esconder-se dentro de cavernosos tubos. De grutas que envolvem a prancha e o seu dono e escondem, por segundos, na mais privada manobra que há no surf.

Faltou referir que Gabriel é brasileiro, do país onde é vulgar dizer-se mata-mata quando o desporto envolve ganhar para não sofrer uma derrota que impede que se volte a tentar. Ele matou quando teve de matar, na meia-final, derrotando Jordy Smith e assegurando a passagem à final que lhe bastava para ser certo que o título de campeão do mundo já não lhe fugiria.

Fê-lo porque Gabriel é Medina, o todo-poderoso surfista que acordou a meio do ano (três primeiros lugares e dois terceiros nas cinco últimas etapas) e provou a toda a gente como é o, atualmente, mais capaz surfista, qualquer que seja o mar onde se encontre.

Kelly Cestari/WSL

E Medina fechou o ano a destroçar Wilson numa final à base dos tubos, em que o australiano se elevou, se entubou e fez por esticar a fasquia que o brasileiro ultrapassou ao prolongar a sua esperança média de vida dentro de todas as ondas que acabou. O 18.34 de Gabriel bateu o 16.70 de Julian e a praia havaiana, com quase tantos brasileiros como grãos de areia, audíveis a todo o minuto, explodiu em cânticos pró-Medina.

A monstruosidade competitiva do tipo que aos 20 dos seus 24 anos injetou, de vez, o contagiante bom vírus do surf pelo Brasil, dando um título mundial à nação que já produzia atletas talentosos de prancha nos pés, em doses industriais, tornou-o no surfista mais popular do seu país - e, talvez, no mais conhecido se assumirmos que Kelly Slater é um caso à parte.

Gabriel Medina demonstrou, ferozmente, toda a sua força tão técnica em Pipeline. Foi sempre o melhor surfista; quem mais se adaptou às igualmente ferozes ondas tubulares; não deu hipótese a quem quer que o tentasse derrubar, por mais inevitável que tal parecesse. Nos quartos-de-final, apanhou duas ondas em três minutos contra Conor O'Leary e fez um 9.43 e um 10.

Matou qualquer tentativa de possível reação.

E acabou a matar em Pipeline a mais mínima dúvida que restasse quanto renascimento da sua força, desde há uns meses cada vez mais imparável. Gabriel Medina é campeão mundial de surf pela segunda vez - a primeira foi em 2014 - e se, nos três meses de férias que se seguem não se acalmar, um terceiro título não deverá estar muito longe.