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G-Land: 23 anos depois, o circuito mundial de surf pode regressar ao meio de nenhures

Grajagan é um sítio na ilha de Java, na Indonésia, ao qual não é fácil chegar e talvez por isso uma competição de surf não chegue lá desde 1995. Mas a WSL estará a planear incluir a etapa no circuito mundial já no próximo ano

Diogo Pombo

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Ir pela estrada fora equivale a meio dia aprisionado no carro, autocarro, o que houver, a partir de Denpasar, que é o aeroporto mais próximo e fica em Bali, na ilha do lado. Outra hipótese, mais cara, é pagar um barco que parte de Kuta e demora, mais ou menos, duas horas. Há mais uma possibilidade, que é ter mesmo muito dinheiro, ou conhecer quem o tenha, e imitar Kelly Slater: apanhar boleia de um helicóptero e aterrar mesmo em cima do coral seco e morto que há à beira-mar.

Chegar a Grajagan, na ilha de Java, na Indonésia, é tramado e implica doses valentes de esforço, como é costumeiro nos sítios bonitos do planeta. E talvez por aí se entenda que não haja uma competição oficial há 23 anos na idílica, longa e tubular onda que convida toda a gente a viajar para a esquerda durante muitos segundos. Em 1995, o mesmo Kelly Slater, ainda com um senhor cabelo, ganhou o Quiksilver G'Land Pro, que ainda se realizaria nos dois anos seguintes.

Mas a World Surf League (WSL) estará a planear, muito a sério, voltar a ter G-Land no circuito mundial de surf e já em 2020. A ideia será substituir a etapa de Keramas, também na Indonésia, opção fácil de concretizar pois esse evento apenas dispõe de um contrato que é renovado ano a ano, noticiou a "Swellnet". A entidade até já terá reservado os surf camps existentes na zona (alegadamente, serão apenas três) para o período entre 3 e 16 de junho.

Essas datas colidem com a etapa de Margaret River, no este da Austrália. A solução para tornear o obstáculo e ganhar velocidade na ideia seria abdicar do evento em Keramas - este ano deu poucas e pequenas ondas -, voltar a ter três provas consecutivas na Austrália, para arrancar o ano, e depois rumar à Indonésia.

G-Land é uma baía que no livro de História do surf apenas foi descoberta, ou seja, surfada pela primeira vez por ocidentais, nos anos 70. Não dispõe de estruturas montadas no areal, que é pouco. É uma onda que quebra longe da costa e dificilmente acessível ao olhar de quem possa querer assistir da praia.

Retornar à interminável consistência de parede das esquerdas de G-Land é empurrar o surf, um bocadinho, na direção dos sítios com mais de inóspito, aventureiro e selvagem, longe dos supermediáticos eventos que caem de amores pelas ondas que quebram contra costas citadinas (Rio de Janeiro, Snapper Rocks, Peniche), para terem mais pessoas do que grãos de areia por metro quadrado de areia.

Há coisas boas e coisas más nesses dois estilos de provas que há no circuito mundial. As menos vantajosas, para quem quererá assistir, é o trabalho que dará chegar a G-Land, que ficou provado assim que procurámos imagens do local: várias das que apareceram tinham Kelly Slater, o 11 vezes campeão dos campeões, a viajar e a aterrar lá de helicóptero com Shane Dorian, surfista já retirado da competição.