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O capacete “não é a coisa mais cool”, mas Owen Wright usou-o para ganhar em Teahupo'o

O alto e esguio australiano venceu a final da sétima etapa do circuito mundial de surf, nas assustadoras esquerdas cavadas de Teahupo'o, no Tahiti, contra Gabriel Medina, que o tinha derrotado na edição de 2018. Owen Wright surfou com um capacete branco na cabeça para fugir aos fantasmas do acidente no Havai, de 2015, e enfrentar com "mais convicção" os monstros de água que lhe foram aparecendo à frente

Diogo Pombo

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Teahupo'o pode ter um nome esquisito, difícil de se ler e mais ainda de pronunciar. Mas, como sítio, é idílico e um paraíso aparente na terra, com a onda mais cavada, cavernosa e perigosa esquerda em que um humano se pode enfiar. E é lá que 32 dos melhores surfistas do mundo fintam a morte uma vez por ano.

Ela forma-se, abruptamente, a cerca de 450 metros da costa, gerada por ondulações que se aproximam de frente e, em distâncias curtas, passam de águas muito profundas para muito rasas: ao rebentar, a onda de Teahupo'o desmancha-se ordeiramente onde haverá menos de dois metros de profundidade.

Gabriel Medina e Owen Wright, o brasileiro e o australiano que já tinham discutido a final, o ano passado, no sítio onde de frente se tem a onda assustadora e, atrás, ao fundo, se vê o verde intocado da ilha perdida no meio do Pacífico.

Em 2018 ganhou o poderoso Medina, domador de qualquer coisa que quebre no seu caminho. Agora, venceu Wright, o esguio e alto loiro que entrou e a saiu de caves construídas dentro de paredes para lá dos dois metros de altura. Escondeu-se e reapareceu com um capacete branco na cabeça, precaução que toma quando no fundo do mar não está só areia - em 2015, um traumatismo craniano quase lhe levou a vida em Pipeline, no Havai.

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Kelly Cestari/WSL

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Matt Dunbar/WSL

O australiano superou o brasileiro, ganhou apenas a segunda etapa (vencera logo em Snapper Rocks, à primeira em que competiu no pós-lesão, em 2017) em quase quatro anos. E, quando soou a corneta para terminar a final, quebrou-se em lágrimas. "Desde o acidente que sou um humano mais domado. Quando as ondas ficam deste tamanho, o capacete acalma-me, posso olhá-las e pensar 'vou apanhar, tenho o capacete, vou conseguir'. Permitiu-me ir com mais convicção", disse, à "Associated Press", após a vitória.

Owen tem a desculpa do trauma sofrido no Havai e de um ano passado a recuperar, submetido ao repouso. Mas não foi o único a tapar a cabeça com proteção que é coisa raramente vista no surf de competição - também Sebastien Zietz usou um capacete, como Kauli Vaast, surfista que acedeu ao evento através dos trials. "Esta onda é das mais agressivas que há e basta uma fração de segunda para te correr mal. Não tens qualquer controlo quando cais e és enrolado, não te consegues tapar, proteger ou fazer o que seja", explicou Wright, sobre o capacete que não largou.

Ele admite que "pode não ser a coisa mais cool para usar, mas pode, de certeza, salvar uma vida".

Owen Wright ganhou, está são e salvo, gosta do capacete e segue vitorioso para o interior da Califórnia, onde a próxima etapa se realiza na onda artificial criada por Kelly Slater. O líder do circuito mundial continua a ser Felipe Toledo.