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Tudo é possível, Ítalo

Roubaram-lhe o passaporte nos EUA, adiou a partida para o Japão, o voo atrasou por causa de um furacão, aterrou em Tóquio, deram-lhe o visto, voou para Miyazaki, deixou as malas no aeroporto e foi direto para a praia. Faltavam nove minutos para a bateria acabar, mas, com calções de rua e uma prancha emprestada, Ítalo Ferreira conseguiu ganhar o heat e sobreviver uma aventura de loucos

Diogo Pombo

Ed Sloane/Getty

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Ítalo e a namorada, Mari, estacionaram o carro numa rua de Santa Monica, na Califórnia, presumivelmente movimentada por se chamar ‘Main Street’. Era de noite, pararam para beber café, coisa rápida; não podiam demorar, poucas horas faltavam para terem que rumar ao aeroporto e apanharem asas para o Japão. Deixaram as coisas no carro e tentaram despachar-se.

Regressados à boleia com rodas, viram que o carro fora assaltado. Vasculharam os pertences e entre malas de roupa, pranchas e computadores portáteis, deram pela falta da mochila de Ítalo e do pequeno bloco de papel que lá dentro estava, sem o qual se proíbe às pessoas que entrem e saiam de aeroportos, que troquem de país.

Sem passaporte, sem saber falar “perfeitamente a língua local”, sem tempo, este era Ítalo Ferreira, o sexto classificado do ranking mundial de surf que tinha de ir representar o Brasil aos World Surfing Games da ISA, evento anual, por norma, menosprezado por quem passa a vida no circuito da WSL, mas obrigatório, este ano, por imposição do Comité Olímpico, que o definiu como condição para entrar nos Jogos de Tóquio, em 2020. "Eu tinha que estar no Japão senão perdia a chance e poderia me tornar ilegível à vaga".

Ítalo não podia encolher os ombros, dar tempo à burocracia para obter um passaporte e uns vistos novos e deixar-se estar. Não, o surfista informou-se, ligou a pessoas, publicou pedidos de ajuda no Instagram, aconselhou-se e diz que o que mais lhe disseram - tendo o passaporte, mas não os vistos - foi que o melhor era sair dos EUA, aterrar em Tóquio e agendar uma entrevista no consulado americano: “Então saí dos Estados Unidos no dia 8 de setembro, com entrevista marcada para o dia seguinte”.

Entrou, por fim, no autocarro com asas e uma viagem que, sem escalas, o aguentaria durante 11 horas no avião acabaria por demorar 18, além dos atrasos - “Parecia tudo normal, mas o meu voo atrasou por causa de um furacão”.

Certo que não chegaria a tempo da entrevista, remarcou-a para terça-feira, 10 de setembro, sendo ainda mais certeiro que esse era o primeiro dia de competição dos World Surfing Games, com a incerteza sobre se o pedido de visto seria, ou não, aprovado. “Já estava confiante e feliz, mesmo depois de tudo, só por ter chegado ao Japão”. Correu bem, carimbaram-lhe o passaporte, voltou “correndo” para o aeroporto e esperou pelo primeiro voo para Miyazaki, onde tinha que surfar e o resto dos surfistas já o estavam a fazer.

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Ítalo Ferreira ia competir no sexto heat da primeira ronda e boa fortuna, que nada quisera com o brasileiro, saiu do amuo e foi-lhe um pouco benevolente: a bateria do brasileiro atrasara uma hora. “Isso me deu uma pequena chance de chegar ‘a tempo’”. Descolou, voou, aterrou, largou as malas e sprintou até ao carro do Comité Olímpico Brasileiro, que o esperava à saída do aeroporto.

Ainda ia demorar uns 10 minutos até à praia e a bateria já tinha começado.

A congeminação entre a pressa e ter amigos como Felipe Toledo e o pai, Ricardo, fizeram-no chegar ao palanque de competição ainda com nove minutos. Pegou na prancha emprestada, vestiu a licra, foi com os calções que já tinha no corpo e precisava de duas ondas que lhe dessem 12 pontos. “Tudo até ali estava dando ‘certo’, porque ‘só’ precisava surfar e fazer o que mais amo em um tempo curto”.

Lá foi Ítalo a correr para a água, onde os juízes lhe deram a último lugar na ordem da prioridade, ou seja, não podia tocar em ondas que o argentino Leandro Usuna, o mexicano Dylan Southworth e o norueguês Frode Goa remassem para apanhar.

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Em menos de nove minutos, o brasileiro surfou três: a primeira na casa dos três pontos, a segundo já nos cinco, com um risco aéreo pelo meio e a terceira, com menos de dois minutos disponíveis, deu-lhe o 8.33 que o deixou no lado bom de uma jornada rocambolesca, que tudo tinha para o fazer odiar as voltas que a vida dá.

Ítalo ganhou o heat, segue em prova e, mesmo que a ideia seja garantir o lugar nos Jogos Olímpicos via circuito mundial da WSL, que apura os 10 melhores do ranking, tinha de chegar a Miyazaki. “Amo o surf e dou o meu melhor. Foi uma história de superação”.

E sabemos o que ele achou, sentiu e pensou porque Ítalo Ferreira deu corda aos dedos para contar os acontecimentos, via Instagram, onde contou a aventura para a embrulhar numa lição filosófica de perseverança. “Tinha tudo para dar errado, mas sempre tive esperança até ao final. Se você tiver um problema na sua vida, não desista. Acredite! No final vai dar tudo certo, basta acreditar que é possível”.