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Stephanie Gilmore: “Fico devastada quando perco. É horrível. Mas a melhor forma de aprender é perder, porque paras para pensar”

Já foi sete vezes campeã do mundo, mais um título dar-lhe-á o recorde, mas, aos 31 anos, Stephanie Gilmore sente que “apenas está a começar”. A surfista australiana perdeu a final da última vez que o circuito feminino parou em Peniche, em 2010, e até acha “engraçadas” as derrotas, porque lhe dão hipótese de aprender o que fez mal

Diogo Pombo

Stephanie Gilmore em Supertubos, onde surfou na ação Rising Tides, em que a WSL coloca surfistas do circuito na água com as jovens em ascensão do país do evento (no caso, foram Teresa Bonvalot, Mafalda Lopes e Yoland Hopkins).

Damien Poullenot/WSL

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Stephanie Gilmore é amável e atenciosa e sabe o que "costumam dizer" sobre ela. Tem a sombra da reputação de ser alguém que "está sempre a sorrir", olharam para o apelido e colaram-lhe o título de um filme, que vai buscar a graça a um aspirante a jogador profissional de hóquei no gelo que, afinal, tem jeito para golfe. "Não é a minha alcunha preferida, mas também não tenho outra", lamenta, com os dentes à mostra, claro.

A australiana tem sete títulos mundiais, empatada com a reformada Layne Beachley, é a campeão em título, não há quem surfe mais consistentemente, em qualquer onda. É do corpo, que “está saudável”. Por isso diz que tem tempo para ganhar mais, mesmo que tema "ser um pouco gananciosa" quando admite, em Peniche, antes de arrancar o MEO Rip Curl Pro, querer muito voltar a ser a melhor surfista do mundo.

Estiveste mais de meia hora a ouvir uma língua que não entendes. Em que estavas a pensar?
[Ri-se] Que tenho de aprender outra língua. Sabes, estava a pensar que estou sentada ao lado do Gabriel [Medina] ou do Ítalo [Ferreira], que são forçados a aprender outra linguagem para estarem no circuito e, enquanto nativa do inglês, é fácil, porque onde quer que vamos, toda a gente o fala. Não somos empurrados para aprender, safamo-nos com o facto de não termos de aprender outro idioma e isso deixa-me triste. Apercebo-me do quão preguiçosa sou.

Terias tempo, neste momento, para aprender e estudar uma língua nova?
Claro. Tenho tanto tempo como qualquer pessoa. É só uma questão de motivação e também tem a ver com as viagens, sabes? Passas duas semanas em França, começas a habituar-te ao francês e, de repente, já tens que ir para Portugal. “Ó, espera um segundo, tenho andado a dizer merci e agora é obrigado”.

Recordas-te da final que tiveste aqui, há nove anos, contra a Carissa Moore?
Foi há tanto tempo! Não me lembro na totalidade, mas lembro-me que perdi, que é a parte má. Entretanto, tive bons resultados em Cascais [etapa portuguesa no circuito mundial feminino, entre 2013 e 2017], onde me diverti bastante. Aliás, acho que até tenho mais memórias do ano em que a Coco Ho ganhou em Peniche, por ter sido a primeira vez que viemos aqui. Vê-la ganhar foi especial. Também tenho boas memórias de me encontrar com os meus pais aqui. Até falei com o meu pai ontem [segunda-feira] à noite e ele estava sempre a perguntar-me como está Peniche, se mudou muito entretanto. O meu pai adorava vir cá.

Porque não vieram desta vez?
A minha irmã mais velha já tem dois filhos, portanto estão demasiado ocupados a serem avós [ri-se]. Talvez consigam vir no próximo ano.

Entretanto, conseguiste voltar a surfar aqui?
Não, esta é a primeira vez que estou em Peniche desde 2010. Mas acho que estou a recuperar sensações, já estive a passear pelas ruelas da cidade, a ver as ondas a quebrarem na praia... É tão bom. Também pensei o quão espetacular é que o surf, enquanto desporto, dê tanto a um lugar. Em Hossegor é igual, há tanta coisa a acontecer hoje em dia, entre restaurantes, cafés e lojas. O surf traz vida para uma pequena cidade onde, talvez, antes não existisse quase nada. As pessoas começam a transportar as suas vidas para estes sítios e isso é especial.

E como analisas a onda de Supertubos?
É muito assustadora e desafiante. Quando vês os highlights das provas achas que a onda é incrível e impressionante, mas, ao assistires aos heats do início ao fim, percebes que pode haver apenas uma onde de 10 pontos no tempo de cinco heats. Há muitos tubos a fecharem [close outs], depende muito de como o swell e a direção do vento estejam nesse dia. Parece uma onda muito difícil. Acho que as raparigas estiveram bastante bem em La Gravière, no evento anterior, e o ambiente parece semelhante aqui. Nós conseguimos fazê-lo e espero que tenhamos bons ventos offshore [direção terra-mar] e condições agradáveis. Mas, não sei, as previsões mudam a cada cinco minutos [volta a rir-se].

Damien Poullenot/WSL

Imagino que te perguntem muito isto, mas como consegues manter a fome de ganhar?
Bom, ganhar sabe muito bem e podes ficar complacente se venceres muitas vezes, mas, para mim, ser eliminada na segunda ronda, em França, é tudo o que preciso para me ativar. Fico devastada. O surf é espetacular porque não podes ganhar tudo, mas há sempre uma onda que ainda não surfaste, ou uma rapariga que apanha ondas maiores do que tu, ou há alguém melhor que tu a fazer alguma coisa. Podes ter múltiplos títulos mundiais, mas nunca podes ser perfeita. Quando ganho, sinto, por exemplo, que as ondas nesse ano não foram grande coisa, ou que perdi num ano em que as ondas foram maiores. Existem tantas variantes em jogo que acho que é isso que me faz voltar e tentar outra vez. Sinto que sou uma campeã do mundo, mas muitas vezes também sinto que não. Estás sempre a tentar melhorar.

Mas como lidas com a derrota? Quando és eliminada numa segunda ou terceira ronda?
Em França, foi a segunda vez na minha carreira em que perdi na segunda ronda. A primeira vez aconteceu no Brasil, há muitos anos. É horrível, sim. Mas, ao mesmo tempo, é engraçado. Depois revejo o heat, vi o que me fez perder e, na maior parte do tempo, tento perceber o que posso aprender. A melhor forma de aprender é perder, porque páras para pensar: “Ok, o que fiz de errado?”. Mas não fico muito agarrada a essas coisas, consigo superá-las rapidamente.

Tens pensado muito no oitavo título mundial?
Claro, adorava ganhar mais um.

Ficarias à frente da Layne Beachley.
Obviamente que amava ter o recorde. Ganhar sete títulos já é um recorde, embora signifique que estou em igualdade. Mas acho que sou gananciosa quando digo que quero mais um [solta uma gargalhada].

Ainda te deixa ansiosa?
Não, penso no facto de ter 31 anos, ainda tenho tanto tempo para o conseguir. Sou saudável e estou em forma, continuo a aprender e acho fixe restar-me esse tempo todo. Não estou stressada.

És a segunda mais velha do circuito, só atrás da Silvana Lima, que tem 34 anos.
Sinto que tenho mais experiência, sim, que sou um pouco mais viajada, mas, ao mesmo tempo, acho que a minha abordagem à vida no circuito é diferente, talvez um pouco mais relaxada. Para mim funciona, vou continuar assim, não sinto stress e acho que é uma condição maravilhosa para se estar na vida: teres 31 anos e sentires que isto é apenas o começo.

Matt Dunbar/WSL

Há semanas, o Taj Burrow disse-me, na Ericeira, que estava farto da vida no circuito mundial quando se retirou e que não ficou triste por sair. Nunca sentiste isso?
Ainda não. Mas consigo imaginar o porquê de alguém como o Taj dizê-lo. Começou bastante novo, mas nunca ganhou um título mundial. Imagino que competir no circuito durante tanto tempo e não ser campeão do mundo seja muito cansativo. Como já o consegui, tenho algo onde me segurar. Gosto do sabor da vitória. Viajar é desgastante, estás sempre a arrastar as tuas coisas à volta do mundo, constantemente a andar de um lado para o outro e nem toda a gente foi feita para isso. Há várias maneiras de lidar com isso e tentar que a experiência seja mais confortável. O truque é descobrir quais são, para ti, as maneiras certas para lidar com isso.

Qual foi a tua influência nas negociações com a WSL para a igualdade dos prémios monetários para homens e mulheres?
A WSL sempre teve isso nos seus planos. A lado fixe da empresa e dos accionistas é que desejam, mesmo, que o surf lidere de uma forma que encoraja outras modalidades e indústrias a melhorarem, a representarem qualidade, a terem valores fundamentais que sejam mais do que apenas desporto. A minha experiência baseou-se em colocar questões. Falar com a Sophie Goldschmidt [CEO da WSL] e perguntar-lhe, pessoalmente, o que pensava sobre o assunto. A parte difícil no surf são as coisas incríveis que já fizeram, como voltarem a levar o circuito feminino a lugares onde queríamos estar, como J-Bay [África do Sul], e darem-nos mais prioridade nos eventos. Isso beneficia muito mais o surf. A igualdade nos prémios monetários foi quase a cereja no topo do bolo, mas as pessoas não iam reconhecer o muito que já foi feito sem esse último passo. Houve muito trabalho de bastidores e não posso receber créditos por isso. Posso estar aqui e dizer que adoro, mas houve muitas mulheres, de gerações anteriores, que lutaram bastante por isto. Tenho orgulho.

De onde surgiu a alcunha Happy Gilmore?
Acho que já tinha uns 16 anos, já competia há algum tempo, e apareceu aquele filme, com esse nome. Nem lembro em que ano saiu. E pronto, ficou. Acho que sou conhecida por sorrir muito e... pronto, ficou Happy Gilmore. Não é a minha alcunha preferida, mas também não tenho outra [ri-se].

  • Em Peniche, é tudo sobre elas

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    Há nove anos que as mulheres não surfavam com os homens, porque o circuito feminino não parava, como o masculino, na praia de Supertubos para a ser a penúltima etapa da época e poder decidir títulos mundiais. Gabriel Medina pode ser já campeão em Peniche, como Carissa Moore, que ganhou o evento da última vez, em 2010, e nos diz que até anda "com dificuldades em dormir" por tanto querer o título. O MEO Rip Curl Pro começa esta quarta-feira