Frederico Morais, agora sim: numa relação séria com o Havai
Há três anos, Frederico Morais foi vice-campeão dos dois últimos eventos do circuito de qualificação, no Havai, que lhe garantiu a estreia no CT. Este domingo, já garantido o regresso ao lago dos peixes graúdos do surf mundial, Kikas venceu o Hawaiian Pro e passou à liderança do QS
25.11.2019 às 0h20
Keoki Saguibo/WSL
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Com 2016 a preparar-se para fechar a pestana, Frederico Morais desdobrou-se em aviões, escalas e malas até aterrar no Havai, onde teria que ser um quase milagreiro se a ideia fosse qualificar-se, pela primeira vez, para o lugar onde moram os 32 melhores surfistas do planeta e passar uma época só com eles, nas ondas que todos querem.
O português roçou uma aura de misticismo, foi vice-campeão nas duas derradeiras etapas do Qualification Series (QS), colheu pontos do mar como nunca antes e o Havai virou, para Kikas, sinónimo bendito de qualificação para o circuito do prestígio, do dinheiro, das melhores ondas e dos melhores surfistas.
Em 2018, o português lá voltou aflito, apertado na vida pela mesma necessidade de pontos, agora para não descer na vida. O arquipélago que antes fora amuleto, porém, transmutou-se num cúmulo de azar. Frederico lesionou o tornozelo num treino, o pai fisioterapeuta, Nuno Morais, voou em seu auxílio, tratou-lhe e ligou-lhe o pé, mas ele seria eliminado precocemente em Pipeline.
Pontos dados, pontos retirados, era lei do Havai.
E eis que, em 2019, as ilhas vulcânicas dos ukeleles, das flores nas camisas e das ondas epicamente monstruosas, voltaram a ser terra de boa sina para Frederico Morais.
O português aterrou no Havai já com meia prancha, garantidamente, a deslizar entre o Championship Tour, no próximo ano, mas havia que confirmá-lo, se possível, logo no Hawaiian Pro, a primeira das duas provas onde, há três anos, resgatara uma proeza. Na madrugada de sexta-feira, Kikas surfou até aos quartos-de-final e garantira pontos suficientes para conservar um lugar de acesso ao CT.
Keoki Saguibo/WSL
Cauteloso para fora, medindo as palavras nas partilhas sociais, o português não aparentou deitar os foguetes que apenas ele conteve. Dotado, quiçá, de um súbito poder vidente, já saberia o que ia acontecer na noite deste domingo - lá foi desenhando leques gigantes na água, rasgando ondas e fatiando paredes até ganhar o último heat disponível.
Frederico Morais superou, com apenas três ondas, o italiano Leonardo Fioravanti, o sul-africano Matthew McGillivray e o australiano Ethan Ewing e venceu a prova de 10.000 pontos na praia de Haleiwa, no Havai, a terra prometida do português que lhe deu, roubou e voltou a dar.
O português volta a ser felicíssimo no arquipélago onde os pais o começaram a levar aos 12, 13 anos, sempre por esta altura do ano e assegurou, de vez, a presença no circuito mundial em 2020.
Kikas conquistou o terceiro evento da época (Santa Cruz e Açores), é o novo líder do QS (nem ele, nem Tiago Pires, alguma vez acabaram um ano na primeira posição) e parece ter feito as pazes com o Havai.