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“Vi a cara dele roxa, estava atordoado”: a história do salvamento de Alex Botelho na Nazaré contada por quem o salvou

Sérgio Cosme é piloto de salvamento e foi o primeiro a chegar perto de Alex Botelho, no meio do monstruoso mar da Nazaré. O surfista estava "atordoado e com um olhar muito distante", depois de bater contra um jet-ski. Só à quarta vez é que alguém conseguiu alcançar o português na água. Este é o relato cru de como se lida, à distância e bem de perto, quando algo corre mal e há vidas a depender da vontade de ondas gigantes

Diogo Pombo

Pedro Mestre/WSL

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Longe, dentro de um carro lotado de urgência, Nicolau Von Rupp começou a “rezar muito”. Não é religioso, não costuma pedir coisas ao além, mas estava longe, em trânsito desde o porto da Nazaré rumo à Praia do Norte, fechado no veículo da organização e a ressonância do que se estava a passar era um walkie-talkie. Era o único ouvido para a tragédia em curso.

Apenas lhes chegava o relato, tinham que pintar um cenário sem o ver, dava para entender que “a coisa estava feia”. Alex Botelho já fora socorrido, o corpo deitado na areia, feito o mais difícil, gente a falar, a perguntar e a responder, muitas palavras cruzadas e Nicolau a perceber que “não estava a reagir à reanimação”.

Depois, fez-se silêncio durante um minuto.

E o silêncio, neste contexto, é o concerto dos berros pessimistas, a ausência de som a causa para a consequência inevitável de se imaginar o pior e temê-lo, por garantido, até ao ruído voltar. Foi “das piores sensações” da vida de Nicolau, ciente, no momento, de que o silêncio “diz tudo”, mais ainda se suceder a “uma frase a dizer que não estavam a conseguir reanimá-lo”.

Alex Botelho foi reanimado, recuperou a consciência, estava rodeado de auxílio e acabou no hospital de Leiria, onde ainda se encontra internado, a ser avaliado e a recuperar da colisão com um jet-ski, na terça-feira. Ele, a máquina e mais Hugo Vau, que a conduzia, foram cuspidos por uma vaga de água na Praia do Norte, onde a monstruosa manifestação do mar convocou o Nazaré Tow In Challenge, etapa do circuito mundial de ondas gigantes.

Sendo engolidos pela fúria de água salgada onde, de todo, é suposto algum humano estar, tocam os alertas do socorro. Das cerca de 15 motas na água, a de Sérgio Cosme foi a primeira a alcançar Alex Botelho entre a confusão das espumas. Sérgio é piloto de salvamento há muito, é múltiplo repetente destas adrenalinas e apercebeu-se que “as coisas estavam bastante graves” quando o viu atordoado, de olhar perdido, ali a boiar com o corpo, mas não com a consciência.

Era urgente agir, puxar pelo treino e confiar no instinto a engatar no meio da catástrofe iminente, onde há apenas cinco ou 10 segundos para decidir e uma vida para salvar. Só à quarta tentativa foi possível alguém, na água, agarrar Alex Botelho, que chegou a estar virado de barriga para baixo.

O relato de Sérgio Cosme, na primeira pessoa:

"Estava em cima do Alex. Fui o primeiro jet-ski a chegar perto dele. Na primeira vez que chego, há uma coisa que faço quando o surfista não me vê. Chamo-o, para que ele olhe para mim e comece a preparar o resgate. Tenho esse procedimento porque nem sempre os surfista estão virados para o lado que queres. Uma coisa é aparece o jet-ski por trás, outra é saberes de onde vem, olhas e preparas-te.

É normal que o surfista, às vezes, não te ouça, pelo barulho do mar e da mota. É natural. Comecei a chamá-lo e chamá-lo. Não me ouvia. Chego ao lado ele, dou-lhe o sled - a prancha que está atrás do jet-ski - e o Alex estava com um olhar muito distante, não sei o que clinicamente se chama a isso, mas não estava 100% consciente. Estava atordoado. Só tive tempo para fazer marcha atrás, dar-lhe o sled, dizer-lhe para o agarrar - 'agora, agora, agora!' - e, mesmo assim, não conseguiu.

Nunca aconteceu muitas coisas destas, mas já são muitas horas passadas dentro de água, em resgates. Apercebi-me que as coisas já estavam graves. Vou dar a volta e pensei em saltar do jet-ski. Achei que não era a melhor opção. A questão não era ficarmos os dois ali, no mar. A questão era se largo o jet-ski para o agarrar e, mesmo que o conseguisse, não era garantido que, depois de levar com uma onda, ainda consiga estar agarrado a ele. E aí seria pior, porque estou lá, ok, mas ia parar à areia, não seria um problema, mas ficava sem um meio.

Se perdesse o Alex por alguma razão, não era capaz de voltar rapidamente para perto dele. Uma coisa é ter de nadar cinco metros, outra é que ter de acelerar no jet-ski para fazer esses cinco metros. Isto tudo são decisões de experiência, instinto, muitas horas na água e erros que já foram feitos por nós. Continua a ser uma aprendizagem para, da próxima vez, fazer melhor.

Mas, pronto, cheguei ao pé do Alex, ele não me ouve, dei-lhe o sled, ele não consegue agarrá-lo. Tive que o deixar lá, saí, dei a volta e, quando regresso, já só vejo uma coisa preta. Achei que pudesse ser o jet-ski virado ao contrário, mas fui direito até lá e era ele. Já estava de barriga para baixo. Voltei a tentar puxá-lo para o jet-ski e não consegui. Estou aqui a falar e nós nem 10 segundos temos para tomar várias decisões. Esperas, sempre, fazer a melhor opção.

Também sou nadador-salvador e a única coisa que consegui foi virar-lhe a cabeça, para colocar as vias respiratórias fora de água. Estive sempre a tentar puxá-lo até chegar a onda seguinte. Tive que voltar a sair e, quando lá vou a terceira vez, basicamente, já sabia que não o conseguia tirar. A minha preocupação era manter as vias respiratórias fora de água e, enquanto estivesse ali perto, as probabilidades ficavam um pouco melhores.

Pedro Mestre/WSL

Ainda pensei, outra vez, em saltar para a água, mas, como não tinha a certeza se teria forças para o agarrar e como não vi outro jet-ski ali próximo, decidi que iria ser uma melhor ajuda se estivesse com o jet-ski. Quando lá vou uma quarta vez, já vejo um jet-ski sozinho. Reparei que era o do Alemão de Maresias. Fiquei mais descansado, pensei que, pelo menos, já teria ajuda. O Alemão, na primeira vez que o agarra, leva com uma onda e não o consegue segurar. Perdemo-lo.

Tive que ir buscar o Alemão para, depois, ele me ajudar a tirar o Alex da água. Conseguimos agarrá-lo, colocá-lo no sled, mas, quando acelero para sairmos dali, o Alemão não conseguiu agarrar-se ao sled e ao Alex ao mesmo tempo. Caíram para a água - o Alex é grande, é pesado, tem porte atlético, o homem é um touro. Nisto, quando o Alemão o agarrou de novo, conseguiu ficar com ele, mesmo a levar com ondas.

Vi, numa das ondas, que o Alemão estava com pé. Eu já estava no inside, a levar com ondas, e pensei que, se levasse com uma e me virasse, ainda podia levar com o jet-ski ou pôr mais uma pessoa inconsciente. Era um risco enorme e tens que pensar isto em cinco ou 10 segundos para tomar a decisão correta. Torna-se tudo muito mais difícil. Daí o importante treinar, pensar sobre estes assuntos e falar com as pessoas, não para apontar dedos, mas para todos melhorarmos.

Reparei que estavam entre 10 a 15 pessoas para ajudarem a tirar o Alex da água. Pensei que, se virasse o jet-ski perto desta gente toda, ia ser muito pior. No momento em que vejo o Alemão com pé, acelerei direto à areia para fazer uma saída controlada e ter a certeza que aquele jet-ski não magoava alguém. Depois, corri para tentar ajudá-los, já lá estavam as tais pessoas. Conseguiram tirá-lo de lá, já com os nadadores-salvadores e o Alemão, que levou muita pancada, teve uma garra e um sangue frio enormes para manter o Alex no inside enquanto as pessoas tentavam ajudá-los.

É de enaltecer todo o trabalho da Equipa de Segurança em Terra que conseguiu pôr o Alex a respirar e consciente.

Laurent Masurel/WSL

Já fiz a análise dentro de mim, ene vezes. Quero sempre fazer melhor para que nada falhe e, às vezes, até vou procurar problemas onde não existem. Prefiro colocar-me nessa posição para, pelo menos, manter o nível na próxima vez ou, se detetar algo que fiz mal, aprender a fazê-lo bem. Ainda ontem falei com o Alemão de Maresias e perguntei-lhe se achava ter tomado a melhor decisão quando saltou para a água.

Disse-me que o viu e teve de saltar. Se ele ou eu nos perdêssemos, estávamos, digamos, bem. Íamos levar pancada e chegar cansados à areia, mas íamos chegar bem, caso ninguém nos resgatasse. Mas, a grande questão é, se perdes o náufrago e ele está cinco metros ao lado, o tempo para nadar até lá é o tempo de vir a próxima onda - e aí ele já foi ao fundo e desapareceu.

Eu, com jet-ski, mesmo que tenha de ir dar a volta mais perto da areia, muito rapidamente chego lá. Por exemplo, faço mais rápido 20 metros do que alguém faz três metros a nadar. Por isso disse ao Alemão: 'O trabalho foi perfeito, não quero apontar nada, só estou a perguntar no intuito de tentar perceber se, para a próxima, vale a pena uma pessoa mandar-se para a água'. Pensei em atirar-me três ou quatro vezes, mas entendi que era uma máquina melhor e mais prestável com um jet-ski. Já levei pancada, já fui duas vezes do outside até à areia e estou cá para contar, não é essa a questão - é como consegues prestar o melhor serviço.

Pode ser o teu pior inimigo, a pessoa que menos gostas, mas vê-lo naquela situação... Vi a cara dele roxa, vi a cara de um morto. O Alex é um grande amigo, começou a surfar na Nazaré comigo. Mexeu comigo psicologicamente, só me lembro de estar na água a gritar, a pedir ajuda. Ainda tentei falar no rádio, não sei se consegui. Tentei dar o meu melhor e graças a Deus que está vivo. O Alemão de Maresias foi incansável, sem palavras para o que fez.

Se, da próxima vez, a coisa correr assim e a pessoa estiver viva, já não é mau. Mas temos de garantir que, para a próxima, tudo corre pelo menos igual e não pior. O Alex está bem e estável. Está sob vigilância durante 48 horas. Queria falar com o médico porque estou um bocado receoso que pensem que o Alex ficou inconsciente devido ao afogamento, porque creio que o que desencadeou tudo foi uma pancada no jet-ski."