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O público escolheu os surfistas e, no fim, ganhou o havaiano que foi para o mar com uma GoPro na boca

Cada vez que entrou no mar, Anthony Walsh levou uma câmara para segurar com os dentes enquanto se fazia aos monstros de ondas tubulares que rebentaram na praia de Carcavelos, em Cascais. O havaiano ganhou a sétima edição do Capítulo Perfeito, prova em que não há prioridades na água e participam os surfistas mais votados pelo público

Diogo Pombo

Capítulo Perfeito

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Pedir às pessoas, abertamente, nessa cartola sem fundo que é a internet, para escolherem quem gostariam de ver numa prova de surf, por mais amigável que seja, não é usual.

É raríssimo, por mais que a prova em questão seja amigável e irrelevante para circuitos, pontos e qualificações, coisas que dominam a vida de um surfista que compita pela vida em vez de viver para surfar.

Uma raridade é, também, olhar para o mar em Carcavelos e, no meio da água entre o acastanhada e esverdeada, culpa da proximidade ao Rio Tejo e à monstruosidade dos bocejos do mar, ver um tipo a remar para ondas de três ou quatro metros, colocar-se de pé na prancha, descê-las, esconder-se dentro de tubos e escapar ao seu fechar de dentes sempre com uma GoPro na boca.

É mais do que raro, é quase uma afronta descarada à sorte.

Anthony Walsh é havaiano, foi escolhido para vir a Portugal ignorar qualquer instinto humano de sobrevivência e ser um dos 16 tipos a desafiar as ondas tubulares pelas quais o Capítulo Perfeito esperou, pacientemente. Ele ganhou no mar onde muitos partiram pranchas, vários se despenharam sem elas e todos participaram num evento que não é, de todo, normal.

Há sete anos, o Capítulo Perfeito começou a distribuir a palavra pelas pessoas, deu-lhes algo a dizer, pediu a quem assiste para votar em quem pretende ver, no mar, com o privilégio honroso de numa certa praia, partilhar apenas com outros dois ou três surfistas ondas no estado máximo de potencial concedido por Neptuno. E sem prioridades

Capítulo Perfeito

Surgiu um formato de evento virado para o inverno, que é friorento nas temperaturas, desconforta ao exigir mais camadas de roupa sobre a pele, mas, para a existência de ondas, é a estação mais benfeitora que há. As ondas de Carcavelos, a praia a meio caminho entre Lisboa e Cascais, prosperam nesta altura do ano e, pela terceira vez, o Capítulo Perfeito lá assentou base.

A organização esperou pela ondulação e pelo vento que conspiraram, em força, esta segunda-feira. Os 16 surfistas com mais votos do público foram para a água pouco depois das 9h e os últimos de lá saíram tarde, já com o sol a fechar a pestana.

Na final restaram quatro corajosos, corpos sobreviventes de porradas aquáticas ao longo do dia e lábios superiores de ondas que, mais entardecia, mais força e grossura e tamanho ganhavam quando se enrolavam, com fúria, contra o chão raso. Muitos partiram pranchas, houve quedas dolorosas só de ver e apenas Anthony Walsh, um havaiano, a ganhar.

Ele surfou todas as cinco baterias com uma câmara GoPro presa nos dentes, foi o único a juntar essa preocupação à de surfar ondas que terminaram com uns bons quatro metros de tamanho e tubos com maior área que muitos estúdios da bolha imobiliária. O português Nicolau Von Rupp terminou em 2.º, o basco Aritz Aranburu em 3.º e o americano Balaram Stack em 4.º.

Um dos quintos lugares ficou para Filipe Jervis, surfista de Cascais, hoje com outros focos que não a competição, que substituiu o amigo Alex Botelho, ainda no Hospital de Leiria a recuperar do susto de vida que apanhou na Nazaré, na semana passada - só esta segunda-feira trocou os cuidados intensivos pelo serviço de Pneumologia.

Sem pontos e qualificações, sem uns a terem prioridades sobre outros durante as baterias, com tubos espaçosos e ondas cavernosas, foi a terceira vez que o Capítulo Perfeito parou em Carcavelos. A gentileza foi retribuída com tubos assustadores de ver da praia, da televisão, por certo de qualquer perspetiva, onde cabia um surfista às cavalitas de outro.

E se na vida tudo é uma questão de perspetiva, é de pedir a Anthony Walsh que mostre o que filmou com a GoPro que sempre levou na boca, com ele, para dentro das grutas do mar. Pode estar aí o ângulo perfeito.