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Martim Nunes é português, tem 16 anos, ficou um mês em casa de Ítalo Ferreira e surfou ondas vindas de uma parede

Martim Nunes tem 16 anos e esteve um mês no Brasil em casa do campeão do mundo de surf, em Baía Formosa, onde existe um paredão que, quando a maré enche, se põe a jeito para que as ondas ali batam e haja um ricochete (backwash) que crie outra onda. "É difícil, tem que se entrar na hora H, mas é bastante divertida", conta o surfista à Tribuna Expresso, sobre a experiência de viver com Ítalo Ferreira, "uma pessoa muito humilde e amiga do seu amigo"

Diogo Pombo

D.R.

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É o decurso natural da natureza ou, vistas as coisas com outras lunetas, são as regras da física a comparecerem num dia normal de trabalho, quando, em vez de quebrar, desvanecer sobre a areia e água que resta recolher de volta ao mar, uma onda embate contra uma parede. Esse objeto inamovível faz com que o retorno - surfistas chamam-lhe backwash - não seja manso, mas bruto e forte. Não com a força e a brutidão originais, mas com as suficientes para se formar outra onda.

Em praias de fundo areia, o mais comum é esse fenómeno ser indesejado quando a maré enche. Desordena o mar, torna as ondas quebradiças, forma degraus numa parede de água que se quer lisa. Há lugares, porém, onde a mão humana colocou cimento e ergueu paredões para proteger a costa e contrariar a regra. A Baía Formosa, no nordeste brasileiro, de onde vem Ítalo Ferreira, é um desses sítios.

Quando a praia-mar se enche, há um sítio na vila onde o campeão do mundo e os surfistas locais não remam para as ondas. Esperam que elas batam contra o paredãos e saltam, com a prancha nas mãos, para o ricochete salgado que se forma, caindo já com os pés colados na prancha. É surf não convencional e curto na esperança de vida. "É difícil, pois tem que se entrar na onda na hora H. É uma alegria constante, há muitos miúdos a tentarem apanhar o backwash", diz quem, há pouco tempo, era um deles.

Martim Nunes é um surfista português, tem 16 anos, já foi campeão nacional de sub-14 e passou o fevereiro acalorado, de calções e pé descalço no Brasil.

É amigo de Ítalo Ferreira, conheceu-o "através de dois amigos dele" e ele próprio amigou-se com o brasileiro o ano passado, durante a sua estadia em Peniche, onde ganhou a etapa portuguesa do circuito mundial. Martim voltou a estar com Ítalo em janeiro, quando o campeão se empenhou em treinar nas águas frias de Portugal, a amizade também foi praticada e surgiu o convite para passar um mês em casa do melhor surfista do mundo. "Foi o culminar de tudo, pois vivi com ele, namorada, família e amigos durante esse mês", resume.

Um dos amigos que assentou arraiais, por uns tempos, no poiso de Ítalo foi Jamie O'Brien, um surfista havaiano que reserva as aparições em competição mais para Pipeline e se vai dedicando a alimentar o seu canal de YouTube.

São pedaços em vídeo de grandes ondas a serem muito bem surfadas e maluquices a serem vividas com várias personalidades do surf. Raro é o vídeo que não ultrapassa as 150 mil visualizações.

Por lá se encontram dias filmados a surfar com John John Florence, o bicampeão mundial que não aparece assim tanto quanto isso, ou vídeos onde Jamie O'Brien dá o seu melhor para ser que as ondas lhe corram mal, ao apanhá-las sentado num sofá. É um cocktail excêntrico.

Há um mês, o havaiano publicou um desses vídeos, chamado "Wall Surfing in Brazil", em que lá para o meio aparece um português descolorado no cabelo, fio de prata ao pescoço, com uma cruz pendurada, a voar do tal paredão e a tentar surfar coisas que a ortodoxia das ondas não julgaria possível. "O mar é um pouco diferente de Portugal. Apanhámos lá uns dias com uma ondulação maior, cerca de um metro, mas geralmente é um mar com ondulação mais pequena, com ondas boas para treinar aéreos, ondas só para uma ou duas manobras, enquanto o nosso mar dá para fazer mais linha", detalha Martim.

Fernando Barros

O mais frequente, conta o português, era irem espreitar o paredão "ao fim do dia", depois de ocuparem a manhã e a tarde a fazerem o que é normal - remar para apanhar ondas. "Muita gente salta do paredão. No entanto, há um pouco de areia onde se pode apanhar a onda de outra maneira, tipo skimming, mas com uma prancha de surf", explica quem soprou as 16 velas na idade já em Portugal, isolado na quarentena mantém os humanos afastados do mar.

Em Ítalo Ferreira diz que há "uma pessoa muito humilde, mesmo muito amigo do seu amigo", brasileiro feroz na competição e "muito fixe e muito humilde" fora dela. De Jamie O'Brien guardou o que o havaino não esconde a cada vídeo que liberta para o mundo da internet - "é um aventureiro nato, completamente doido, mas uma jóia de pessoa. Leva tudo ao limite".