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O surf está interdito, mas houve quem fosse surfar no Guincho e a Polícia Marítima interveio. No dia seguinte, o filme repetiu-se

Na quarta-feira e na quinta-feira, dezenas de pessoas foram vistas a surfar na praia do Guincho, em Cascais, violando as regras do estado de emergência. A Polícia Marítima chegou a ir com uma viatura até à linha de água para alertar as pessoas, sem multas. Existem somente 30 surfistas a quem uma exceção se aplica, por terem o estatuto de atletas de Alto Rendimento, mas dizem à Tribuna Expresso que a grande maioria fica em casa. "A exceção não faz qualquer sentido", argumenta João Aranha, presidente da Federação Portuguesa de Surf

Diogo Pombo

Imagem do live feed da Beachcam da praia do Guincho, em Cascais, durante a manhã de quarta-feira

D.R.

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O hábito, se estes tempos fossem os do costume, seria acordar, pegar no telemóvel e ver como se aperalta o mar. Todos os dias de Filipe Jervis se espreguiçam mais ou menos assim, pois ele é surfista, compete há anos no circuito nacional, já o fez lá fora, tem um projeto para ensinar miúdos a surfar e a vida dele é isto. Mas, como se impõe, está há quase um mês em casa - e, ao despertar na quarta-feira, consultou o site Beachcam e “não estava a acreditar”.

Na praia do Guincho, bem perto de onde Filipe pratica a reclusão caseira, em Cascais, estavam uns 20 ou 30 surfistas no mar que “devia estar vazio”, conta à Tribuna Expresso. Ficou parvo “com o desrespeito enorme para com toda a gente” e incomodado com as pessoas “que perdem noção do quão grave isto é” devido ao atual estado das coisas em Portugal.

Há 13.956 pessoas infetadas com covid-19, já morreram 409 e foi para evitar estes e piores números que, a 18 de março, o Governo decretou o estado de emergência nacional, entretanto prolongado até 17 de abril.

Ficaram permitidas apenas “deslocações de curta duração” nas “imediações da residência” e quem não respeitasse as limitações poderia incorrer em crime de desobediência civil. Foi por isso que, na quarta-feira, uma viatura da Polícia Marítima de Cascais foi ao Guincho, aproximou-se "da linha de água" e a alertou "os surfistas para o dever geral de recolhimento" com o sistema sonoro, confirmou a Autoridade Marítima Nacional à Tribuna Expresso. Todos os surfistas que estavam na água cumpriram, "sem exceções".

A ocorrência foi registada e nada mais. "Temos estado a privilegiar as ações de sensibilização, aconselhando os surfistas a sair da água e a recolher a casa. De qualquer maneira, haverá pronta autuação em caso de desobediência, situação que até à presente data nunca aconteceu", explicou a Autoridade Marítima, por e-mail, assegurando que tem sido feito "um esforço adicional de fiscalização nas praias dos concelhos de Cascais, Mafra, Sintra e Torres Vedras".

Mas, esta quinta-feira, eis outros 10 ou 15 sentados nas pranchas a flutuarem, de novo, no mar da praia do Guincho, relatam à Tribuna Expresso. No Algarve, contaram a João Aranha, presidente da Federação Portuguesa de Surf (FPS), houve "imensos estrangeiros a borrifarem-se" para as regras do estado de emergência.

Não será por falta de aviso e desincentivo por quem de direito. A Associação Nacional de Surfistas alertou, a 19 de março, que “o surf está interdito e sujeito a penalizações pelas forças de segurança”. No mesmo dia, a Federação Portuguesa de Surf reforçava a interdição, acrescentando que “recomenda a todos os seus associados e surfistas em geral que respeitem escrupulosamente a quarentena e as medidas”.

Alguns até poderiam ter permissão para ali estarem à vontade, surfando as ondas que quisessem. Aquando da elaboração do decreto-lei do estado de emergência, ficou estipulado um regime de exceção para os atletas integrados no Programa Olímpico ou com estatuto de Alto Rendimento. Essa isenção não se alterou com o adiamento dos Jogos de Tóquio para 2021, garantiu-nos o Comité Olímpico de Portugal.

Daí Frederico Morais revelar, ainda em março, como eram os seus dias: procurava praias mais isoladas, saia de casa de madrugada e ia surfar sozinho. Kikas é o único surfista que integra o Programa Olímpico e um dos 30 que gozam do estatuto de Alto Rendimento.

José Sena Goulão

Desde 24 de março, quando se confirmou a passagem dos Jogos para 2021, que deixou de o fazer. Vasco Ribeiro também não o tem feito, como muitos e quase todos os que fazem parte do lote definido pelo Instituto Português do Desporto e da Juventude, confirmam várias bocas.

A exceção "que não faz qualquer sentido"

Os e as surfistas que competem, dependem e vivem das ondas têm feito a sua parte e ficado em casa. Provavelmente a "roerem-se", diz Filipe Jervis, pois agora “as previsões de ondas são boas". A redundância é óbvia, ninguém gosta de estar fechado em casa, “não é fácil, obviamente, mas é o que temos de fazer”, apela o surfista de 29 anos.

Sem mar para ele ou para levar os miúdos da Jervis Surf Experience, defende que “todas as pessoas têm que pôr a mão na consciência” e não devem “abandonar a quarentena, de maneira nenhuma”, mensagem que o presidente da federação replica: “A nossa posição é que os surfistas fiquem e treinem em casa”.

Depois, há quem possa remar, apanhar ondas e deslizar na exceção, com a qual João Aranha discorda.

É uma medida “muito engraçada”, mas, “além de não ser justa”, argumenta que “em termos de saúde pública não é a coisa mais inteligente”. João Aranha conta que, de início, “o espírito da lei” seria para os atletas inseridos no Programa Olímpico e “o legislador resolveu incluir o Alto Rendimento”. Na FPS, significou que 30 surfistas foram abrangidos, dos quais “sensivelmente 80% são menores e jovens das seleções juniores”.

A exceção “não faz qualquer sentido” para o líder da federação, criticando-a por carecer de mais limites. “Se estiver bom em Supertubos e eu moro em Carcavelos, como vou fazer? Vou fazer os 100 quilómetros e contrariar tudo o que são normas de circulação? E a exceção falava em treinador e acompanhante”, explica. Ou seja, esta exceção, na prática, “poderia afetar 90 pessoas” só no universo do surf.

A lei é a lei e a federação cumpriu-a, enviando uma listagem dos atletas com estatuto de Alto Rendimento para todas as capitanias do país. Assim que os Jogos Olímpicos foram adiados para o próximo ano, João Aranha “interpelou” o COP, o IPDJ e João Paulo Rebelo, secretário de Estado do Desporto e da Juventude, enviando um comunicado. Ainda não obteve resposta.