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Só há 26 pessoas a quem a lei permite surfar. Mas a maioria não o tem feito, "por respeito e para dar o exemplo"

Desde que foi declarado o estado de emergência em Portugal, a 19 de março, que qualquer desporto de mar está interdito, mas o estatuto de Alto Rendimento permite a 26 atletas que o façam, legalmente. A Tribuna Expresso tentou perguntar a todos se aproveitaram essa exceção: 15 responderam, garantindo que não o fazem e estes são os motivos com que justificam o afastamento das ondas. Só nas primeiras duas semanas de abril, a Polícia Marítima registou 318 pessoas a fazerem surf ou bodyboard

Diogo Pombo

Nem Frederico Morais, único português no circuito mundial de surf, nem Vasco Ribeiro, ex-campeão nacional, ou Miguel Blanco, atual detentor desse título, foram surfar desde que foi decretado o estado de emergência.

Damien Poullenot/Getty

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Já foi há mais de um mês. A pandemia ignorou fronteiras, a prudência foi a voz mais ouvida, o estado de emergência declarou-se e desde 19 de março tudo em Portugal está limitado, constrito ou interdito. É o caso das praias, onde o surf ou qualquer convivência com as ondas foi interditada pelas capitanias de todo o país. A Federação Portuguesa de Surf (FPS) e a Associação Nacional de Surfistas (ANS) avisaram, a seu tempo, que o surf era proibido, apelaram às pessoas que o respeitassem, nem todos ouviram, alguns até ignoraram, mas a proibição não se aplicava a todos.

Existem 26 surfistas em Portugal a quem, em 2020, foi atribuído o estatuto de Alto Rendimento. Todos são abrangidos por uma exceção legal, que lhes permite continuar a ir à praia e a surfar, sem que as regras da quarentena se apliquem.

São 15 homens e 11 mulheres, dos 16 aos 38 anos, atletas profissionais a quem o Instituto Português do Desporto e da Juventude concedeu o estatuto e que "estavam excecionados desde o primeiro decreto do estado de emergência", ressalvou o próprio João Paulo Rebelo, secretário de Estado do Desporto, esta quinta-feira, à Tribuna Expresso, no dia em que as entidades de surf em Portugal divulgaram a carta enviado ao Governo com um plano de retoma das atividades. Ou seja, a reabertura das praias e o regresso dos surfistas ao mar.

Até ao início de maio deverão ser conhecidas as medidas que o permitirão, mas, até lá, tentámos perguntar aos e às 26 surfistas a quem a lei permite que continuem a treinar nas ondas, se o estavam a fazer. Chegaram à Tribuna Expresso as respostas de 15, entre eles Frederico Morais, Vasco Ribeiro, Miguel Blanco ou Teresa Bonvalot, coincidindo todos no cerne dos motivos que os leva a ficarem em casa - para dar o exemplo, por respeito, para sensibilizar os outros e pela saúde de toda a gente.

Frederico Morais, 28 anos

"Não, ainda não surfei desde que foi declarado o estado de emergência. O que me levou a suspender os treinos foi o respeito que tenho pelos que estão na linha da frente a combater esta pandemia e a tratar de todos nós para que se possa ultrapassar o vírus.

Acho que me cabe a mim, como um dos embaixadores do surf em Portugal, dar o exemplo a toda a comunidade do surf e tentar sensibilizar para que se respeitem as regras o melhor possível. O problema do surf é que nós temos de procurar as melhores ondas para treinarmos e para isso preciso de me deslocar ao longo da nossa costa para treinar como deve ser. Uma vez que as deslocações não são permitidas, não sei quando voltarei aos treinos. Como todos sabemos, o surf tem este lado que é muito diferente de todos os outros desportos."

Teresa Bonvalot, 20 anos

"Eu desde que cheguei da Austrália ainda não surfei. Quando cheguei, ainda não tinha sido declarado estado de emergência, mas como tinha vindo de viagem estava a fazer a devida quarentena de 15 dias, just in case de ter ou não ter. Uns dias depois foi declarado o estado de emergência.

Acho que todos temos que dar o exemplo. Estamos a enfrentar algo muito sério e estamos todos no mesmo barco. Quero fazer a minha parte e dar o exemplo a toda a gente para fazer o mesmo. Custa, claro que custa, mas é por um bem maior e esperemos que isto passe o mais rápido possível para voltarmos a fazer o que mais amamos."

Teresa Bonvalot no Vans US Open of Surfing, nos EUA, em julho de 2019.

Teresa Bonvalot no Vans US Open of Surfing, nos EUA, em julho de 2019.

Jenny Herron/Getty

Miguel Blanco, 24 anos

"Não tenho surfado. Sei que temos a exceção legal, mas não o tenho feito por solidariedade. Tenho feito a minha vida, tenho feito os meus treinos físicos, um ioga, comer bem e ir dando uns passeio, para arejar a cabeça. Mas não vou surfar por solidariedade com todos e por respeitar isso. Como está tanta gente em casa, sem trabalhar, percebo que, se todos fossem surfar para a mesma praia e se aglomerassem, não ia ser uma boa mensagem. Portanto, não tenho contribuído para isso."

Vasco Ribeiro, 25 anos

"Desde que começou o estado de emergência que não entro na água! Não vou treinar porque acho que temos todos que respeitar as regras e quanto mais respeitarmos e estivermos em casa, mais rápido voltamos às nossas vidas."

Eduardo Fernandes, 32 anos

"Já não surfo desde o dia 14 de março, antes de ter entrado em estado de emergência. E só saí de casa quatro vezes, para ir ao mercado. No início, pensei em ir surfar por ter o estatuto de alto rendimento, mas depois pensei que não seria bom, num modo geral, estar ali a surfar, pois poderia estar a incentivar outros surfistas a irem surfar. Acho que a proibição tem que ser para todos, mas, infelizmente, muitos não cumprem, o que me irrita profundamente. Uma pena existirem tantas pessoas tão pequenas que não pensam em ninguém além delas próprias."

Pedro Coelho, 25 anos

"Apesar de termos essa exceção legal, não tenho surfado. Fomos aconselhados a não o fazer para dar o exemplo a toda a comunidade surfista, enquanto não acabam estes tempos difíceis. Talvez a partir de maio já comece os treinos de mar!"

Pedro Coelho no Boardmasters 2019 Surf Festival de Cornwall, Inglaterra, em 2019.

Pedro Coelho no Boardmasters 2019 Surf Festival de Cornwall, Inglaterra, em 2019.

Dan Mullan/Getty

Carolina Santos, 17 anos

"O que tenho a dizer sobre esse assunto é que tenho adequado o meu treino por forma a cumprir com o que está previsto por lei e pelos editais da Capitania do Porto de Peniche. Penso que, como cidadã e atleta com estatuto de alto rendimento, é o que a sociedade espera de mim, que cumpra a lei e as regras em vigor a todo o momento."

Joaquim Chaves, 16 anos

"Surfei nos primeiros dias do estado de emergência, pois ainda tinha o certificado de atleta olímpico. Assim que esse decreto de lei foi anulado, parei de surfar".

Gabriela Dinis, 15 anos

"Desde que decretaram o estado de emergência não voltei a surfar. Não tenho surfado por uma questão de respeito social, apesar de que, no caso dos atletas de alto rendimento, acredito que seria possível conseguirmos gerir o nosso treino sem nos colocarmos a nós e a terceiros em risco, desde que respeitássemos as regras básicas consideradas pela Direção-Geral de Saúde".

Martim Paulino, 17 anos

"Desde que foi declarado estado de emergência ainda não surfei. Não tenho surfado pois prefiro ficar em casa e aproveitar o tempo disponível para fazer outras atividades. Acredito que quanto mais pessoas ficarem em casa, mais fácil vai ser de parar a propagação do vírus!"

Beatriz Carvalho, 16 anos

"Não surfei desde que foi declarado o estado de emergência. Penso que, nesta fase, mesmo podendo beneficiar de uma exceção legal para surfar, devemos ter em consideração evitar o contacto com pessoas e dar o exemplo como atletas. Temos de fazer sacrifícios não só por nós, mas pelos outros também".

Beatriz Carvalho.

Beatriz Carvalho.

D.R.

Martim Nunes, 16 anos

"Desde que foi decretado o estado de emergência que nunca mais surfei, por aconselhamento dos meus treinadores, selecionador nacional e Federação Portuguesa de Surf. E tem que ser um por todos e todos por um, como se costuma dizer.

Não vou surfar porque temos que dar o exemplo, um a um temos que contribuir para uma melhoria do nosso país e da nossa sociedade, para não haver mais alastramento desta pandemia. Quanto mais depressa passar, mais depressa vamos poder fazer o que mais gostamos: SURFAR".

José Champalimaud, 18 anos

"Surfei nos primeiros dias do estado de emergência. Na altura, as praias ainda não estavam fechadas e, respeitando as regras impostas (máximo de três pessoas num só pico) achei que não havia problema em sair de casa só para surfar. No dia em que fecharam as praias, parei de surfar e até hoje não fiz surf."

Afonso Antunes, 16 anos

"Ainda não surfei depois de ser declarado o estado de emergência pois parti uma perna antes de tudo isto. Não vou surfar pois tenho uma perna partida e mesmo que não tivesse, também não iria, não que eu não quisesse, mas por respeito para com os outros."

Guilherme Ribeiro, 18 anos

"Ainda não surfei desde que foi declarado o estado de emergência, mas tenho trabalhado a parte física em casa. Esta decisão vem do facto de não querer prejudicar a saúde dos outros, nomeadamente a da minha família."