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As mulheres voltam a Teahupo'o. Como é surfar lá? “Entusiasmante, desafiante e assustador”, porque já morreram cinco surfistas naquela onda

Já morreram cinco surfistas, muitos mais foram cortados pelo fundo de coral e talvez toda a gente que já lá tenha ido temeu a onda. O circuito mundial feminino voltará a parar em Teahupo'o, no Taiti, em 2021, após serem invocadas razões de segurança para as mulheres deixarem de lá competir, mas os homens continuarem. Jessi Miley-Dyer, vice-presidente da World Surf League, tinha 19 anos quando surfou no evento e, à Tribuna Expresso, recordou como é remar para uma das "ondas mais perigosas e desafiantes no mundo, mas, ao mesmo tempo, uma das mais bonitas"

Diogo Pombo

Layne Beachley, a ex-sete vezes campeã mundial, a pousar para a foto em Teahupo'o, em 2006, durante a última prova feminina que lá se realizou

Getty Images

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Jessi Miley-Dyer era uma gaiata com o cabelo carregado de loiro solar, novata na vida e no circuito a que acabara de chegar. Tinha 19 anos e já se deslocava mundo fora com o propósito de aterrar onde as ditas melhores ondas estavam, quando, a meio dos anos 80, os ocidentais descobriram Teahupo'o, uma bastante trabalhosa no Taiti.

A maioria dos voos diretos para o aeroporto de Fa'a'ā partem da Califórnia (EUA), da Austrália ou da Nova Zelândia, depois há estradas a percorrer na ilha e um barco a apanhar no Pacífico até se estar sentado na prancha, boiando e admirando como ficou Jessi, mas ansiando e temendo a ambiguidade da natureza ali especada. Olhando para trás, a paisagem cheia de montanhas idílicas e "verde exuberante" da ilha, focando-se no que tem à frente, eis uma das ondas mais perigosas que se pode apanhar no mundo.

Jessi Miley-Dyer está hoje com 34 anos, é a comissária da World Surf League para o circuito mundial feminino, mas, em 2006, competiu com a juventude em Teahupo'o, na última vez que lá se organizou uma prova para mulheres. Recorda-se de sentir "a antecipação no ar", quase a beliscar o nervosismo das pessoas, diz que não é tanto o medo, apesar da fúria de um oceano desabar ali contra um fundo de coral vivo, nem a dois metros de profundidade, que corta e infeta a pele. Quem sobrevive sara as feridas e conta a história. Já cinco pessoas lá morreram.

As mulheres surfaram a monstruosidade tubular há 15 anos até, puff, a prova desaparecer - mas apenas para elas.

Na altura, Layne Beachley foi das primeiras a vocalizar-se contra a retirada da prova feminina, por alegadas razões de segurança da então Association of Surfing Professionals (ASP, que em 2015 se tornou na WSL), entremeadas entre rumores de que teriam sido as surfistas a pedirem a decisão, por temerem a onda. "É completamente falso e sexista. Não gosto de Teahupo'o, mas sei o quão benéfica pode ser para o surf feminino. Porque haveríamos de fugir de uma oportunidade de marketing tão grande?", disse, então, a sete vezes campeã mundial ao "Sydney Herald", queixando-se de não serem sequer informadas da decisão.

Uma adolescência temporal passou até a WSL, por fim, anunciar o retorno das mulheres à, provavelmente, mais perigosa onda do circuito mundial. Será em 2021 e Jessi Miley-Dyer deverá lá estar, agora apenas para ver, diz à Tribuna Expresso.

Estas mudanças já vinham sendo faladas há muito tempo?
Sim, começámos a discutir dia para se decidir os títulos mundiais, provavelmente, há três anos. Queríamos ter o feedback dos surfistas sobre esse momento e saber como se sentiram quando ganharam os seus títulos. Porque, para pessoas como eu, o Erik [Logan, CEO da WSL] e o Pat [O'Connell, vice-presidente], que nunca estivemos nessa posição, é muito importante que os surfistas tenham participado na decisão. Há algum tempo que falávamos com eles e estavam entusiasmados com as mudanças, sem dúvida. Acho que vêm aí coisas boas para o surf.

E as surfistas, como reagiram?
São novidades muito entusiasmantes. Primeiro, ter o mesmo número de eventos que o circuito masculino, e depois, pelo regresso das mulheres ao Tahiti, a uma prova que estava fora do calendário feminino há 14 anos. É muito fixe que o circuito feminino regresse lá, em muitas formas é como voltar a uma onda de consequência para as mulheres. Temos visto vídeos incríveis de mulheres que têm ido fazer free surf a Teahupo'o: a Tatiana Weston-Webb e a Caroline Marks estiveram lá há pouco tempo, mas também já vimos a Carissa Moore. Acho que essa prova vai ser fantástica.

Em 2006, ainda chegaste a competir em Teahupo'o.
Sim, foi no meu ano de rookie [estreia] no circuito. Era bastante jovem, acho que tinha 19 anos. A onda é incrível, claro que intimida bastante surfar lá e há algo especial quando estás no line up de uma onda daquelas, com mais ninguém à volta a não ser os teus competidores e as pessoas que estão a assistir no canal. Mas a onda é incrível, das mais bonitas do mundo. Estás ali sentada, à espera de uma onda que te desafie [solta uma gargalhada], por cima dos corais, olhas para trás, para terra, e só vês montanhas, todo aquele verde exuberante... É tão perfeito que quase que sentes todas essas coisas quando estás dentro do tubo. É interessante, porque é das ondas mais perigosas e desafiantes no mundo, mas, ao mesmo tempo, uma das mais bonitas que já vi. É um lugar muito especial.

Foi a primeira vez que surfaste lá?
Não, já lá tinha ido numa viagem com uma revista, mas já não ia há alguns anos. Nós chegámos lá mais cedo, com a Rip Curl, que tinha a Kate Skarratt para nos acompanhar. Ela ganhara a prova por duas vezes e fazia muita diferença ter alguém assim no teu canto.

Não é uma experiência aterradora?
É um verdadeiro desafio, mas, quando vais para aquela onda, sentes a antecipação no ar, embora não seja tanto medo. As pessoas estão nervosas, claro, mas é mais porque vais competir ali e as coisas que te passam pela cabeça são mais "espero que consiga apanhar uma onda" ou "espero ser capaz de passar por cima do coral". Queria proporcionar um bom espetáculo, porque era muito competitiva, e, ao mesmo tempo, há o potencial de poderes apanhar a onda da tua vida. Acho que as pessoas ficam entusiasmadas e ansiosas com Teahupo'o em doses iguais, pelo menos era o que me acontecia.

O que levou à retirada de Teahupo'o do circuito feminino?
Não sei bem, acho que o patrocinador da altura [Billabong] já não era capaz de financiar o evento, algo que costumava acontecer muitas vezes no circuito, antes de passarmos à nova gestão [em 2015, a Association of Surfing Professionals tornou-se na World Surf League]. Quando os orçamentos começavam a apertar abdicava-se sempre as provas femininas que eram. Por isso é tão importante estarmos de volta [ao Tahiti] e ter o mesmo número de eventos em ambos os circuitos.

Teahupo'o pode ser a melhor montra para o surf feminino se mostrar?
De certeza. Acho que vai ser um evento ótimo para nós.