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Bem-vindo, campeão do mundo, deixa-me só ganhar-te em casa

Frederico Morais apanhou três ondas na final do MEO Portugal Cup of Surfing e chegaram para ganhar a Ítalo Ferreira, o campeão do mundo, em Ribeira d'Ilhas, na Ericeira. Esta foi a segunda prova europeia organizada pela World Surf League enquanto o surf está a marinar nesta pandemia e os eventos a sério não começam. Não vale pontos, não conta para rankings, mas a vitória valerá muita coisa: "É um orgulho pôr o surf português ao mais alto nível"

Diogo Pombo

Damien Poullenot/WSL

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O sol é empurrado pela pestana gravítica, está baixo, aproxima-se da linha do horizonte, a sua baixeza estorva o olhar em Ribeira d'Ilhas, praia virada a oeste, onde ele cai e de onde vem (um pouco de noroeste) a ondulação que banha a praia, na Ericeira. A lâmpada que ilumina esta quinta-feira está a apagar-se e nesta hora de despedida há duas mulheres que vestem fatos, que se tapam por licras, que vão para o mar e que se antecipam aos dois homens destinados a fazerem o mesmo.

A amarelada Johanne Defay, merecedora dessa cor por ser a surfista com melhor ranking em prova, acelera e ziguezagueia e rasga água em contracurvas nas direitas tímidas que Ribeira d'Ilhas forma. Fá-lo melhor, ou melhor, é melhor a fazê-lo no olhar de quem as ajuíza, do que Nadia Erostarbe.

A basca que elimina a portuguesa Yolanda Hopkins na meia-final e antes se livrou de Teresa Bonvalot nos quartos-de-final, ganhando na lei das ondas à vice-campeã e à campeã nacionais, é derrota com os seus 13.34 pontos pelos 14.27 de Defay, trocam um abraço à beira-mar, os pés na areia, a câmara a captá-las com o mar atrás, o sol a escapulir-se além oceano e a penúltima corneta deste MEO Portugal Cup of Surfing a soar ali na praia.

É o aviso para os dois que já flutuam nos solavancos aquáticos abandonados por elas, o brasileiro e o português com direito ganho a ocuparem-se do lusco-fusco, o brilho do sol foi-se, o mar é um espelho do céu e o primeiro a rasgá-lo é Frederico Morais. Lá vai ele direita fora, rasga a onda à frente e faz marcha atrás para voltar a encarar a parede de frente até onde houver boleia para ser apanhada. A final masculina na Ericeira é um ajuste de contas recentes, das que não contam para nada.

Passou apenas uma semana desde França, onde o campeão deste mundo Ítalo Ferreira, que às voa e voa onda fora como raros são os humanos que assim se elevam, o eliminou à segunda ronda do French Rendez-Vous of Surfing, o outro evento que a World Surf League organizou na Europa após cancelar tudo quanto era prova oficial em 2020 e enquanto não se chega ao início dos eventos a sério para 2021. Não o diz, mas talvez seja também por isso que Richard Marsh, o treinador de Kikas, diz estar feliz pelo português.

Damien Poullenot/WSL

E o melhor do último circuito de qualificação mundial é melhor que o campeão do circuito planetário para onde Frederico vai regressar a encará-lo de frente, de peito feito e confiante, como desliza nas três ondas que apanha e das quais conhece cada metro cúbico. Não há duas ondas iguais, mas há um padrão, um à-vontade, um saber como as coisas costumam funcionar num certo lugar e este é um onde o português já admitiu adorar, já ganhou e, necessariamente, já se sentirá confiante em surfar.

Algures desta conjugação retirou um 8.83 quando a final tinha apenas uns nove minutos de sobra e ele, felizardo, com a prioridade, a única cartada no surf que dá um controlo aparente a alguém e essa pessoa era Kikas, sentado tranquilamente na prancha, um braço esticado e a mão à frente da cara, a não quer ser encadeado pelo baixinho foco de luz lá longe para avaliar bem o que vinha lá de longe. Ou o que não veio. Porque nenhuma onda deu condições a Ítalo para tentar o que fosse, nem um aéreo dos que sempre o descolam da água.

Sorridente, extático e com um dedo apontado à areia, logo à saída de água, apontando para o lugar onde está, ele de facto estava ali e está aqui, em Portugal, a ganhar em casa a quem ganhou a toda a gente no mais recente circuito mundial de surf, a levar a melhor do brasileiro que conquistou as duas últimas edições da etapa portuguesa desse circuito, em Peniche. "Não conta pontos, mas só o facto de estar de volta à água, a competir, foi um prazer", disse Kikas, ao rápido microfone da "Fuel TV" que o auscultou mal saiu do mar.

Também disse ser "um orgulho ganhar em casa" e "pôr o surf português ao mais alto nível" neste lugar "especial" para Frederico Morais, onde ele passa "a maior parte do tempo a treinar". Onde, então, deverá passar muitos sóis a treinar para o que só chegará em dezembro, quando o Championship Tour está agendado para começar, no Havai, antes de parar em Portugal, em fevereiro.