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A onda de Afonso Antunes: partiu a perna em março, lidera o circuito nacional desde julho e, agora, é vice-campeão europeu júnior

Kauli Vaast conquista o título pela terceira vez, em Espinho, na última ocasião em que compete no Europeu Pro Júnior, batendo na final dois portugueses: Guilherme Ribeiro, de 18 anos, que terminou no quarto lugar, e Afonso Antunes, de 17, que é o atual líder do circuito nacional de surf e ficou em segundo lugar desta prova, após partir uma perna em março e, na manhã desta sexta-feira, até contrair uma lesão no joelho. Mas, mesmo assim, continuou a competir até ser vice-campeão

Diogo Pombo

Laurent Masurel/WSL

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Março não é o mês de águas mil, mas de milhares de ondas em águas salgadas, por ser altura de senhoras ondulações fortes - e Afonso Antunes foi a Peniche dar as boas-vindas a uma delas. Meteu-se em Supertubos, as águas lá são mil, em paredes tubulares e apropriadas para descolar, coisa que ele fez, e ao aterrar o impacto deu-lhe cabo de um osso da perna direita. A ousadia de um aéreo, trazido de volta pela gravidade contra uma espuma, fraturou-lhe a perna.

Afonso tem 17 anos e teve que ser operado devido a uma manobra que, aos 10, já tinha como preferida. Foi mês e meio de recuperação sem carga, outras muitas semanas de fisioterapia e, quando voltou a surfar, já a liga nacional de surf estava na água para ele ir até às meias-finais na Figueira da Foz, à primeira etapa. Depois venceu a segunda (Ribeira d'Ilhas), perdeu na final da terceira (Praia Grande) e ficou-se pelos quartos-de-final da quarta (Matosinhos).

Do alto da sua adolescência deslizante sobre uma prancha, Afonso é o atual líder da Liga MEO, o circuito nacional de surf que se está a colocar a jeito de ganhar - a última prova é no próximo fim de semana, em Carcavelos -, e com a sua perna reabilitada foi até Espinho, oito meses depois do suposto, para surfar no Europeu Pro Júnior, organizado pela World Surf League, e o azar anatómico o invadir novamente.

Esta sexta-feira, de manhã, a primeira de muitas sem nevoeiro a embaciar as vistas para o mar, Afonso estava dentro de água a treinar antes de competir a sério e sentiu algo num joelho. Lesionou-se, a prudência aí toca o alarme e aconselha a parar, mas não, ele quis continuar e submeter-se a fisioterapia nos intervalos das ondas coisa que fez da terceira ronda até à final.

Afonso Antunes remando para ondas, ultrapassando adversários com manobras, curvando linhas nas ondas e até arriscando as articulações em mais aventuras aéreas para chegar à final em boa companhia: também Guilherme Ribeiro, português que lhe ganha em dois anos de vida, se apurou para a decisão. Iriam surfá-la com Kyllian Guerin, francês do sul de França, e Kauli Vaast, francês das polinésias e residente no Taiti.

Com um brutal 9.07 logo a abrir, o vizinho de Teahupo'o durante grande parte do ano começou logo a liderar a final e nunca permitiu que a regeneração de Afonso Antunes o alcançasse. O filho de um antigo tricampeão nacional (João Antunes) terminou no segundo lugar, deu uma palmada na prancha enquanto a última corneta soava e resignou-se com o resultado que logrou mesmo com um joelho a vacilar.

Nem duas semanas antes de a culpa deste ano surrealista e virulento se espalhar, sem critério, em Portugal, ele fraturou um osso da perna em Supertubos e hoje foi apenas pior que um surfista no Europeu Pro Júnior, em Espinho, surfista esse que se tornou campeão desta categoria pela terceira vez, a última possível porque já tem idade para ter carta de condução.

Afonso Antunes terá mais uma oportunidade para tentar o que, mesmo magoado, quase alcançou neste 2020.