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Frederico Morais treinou para "sentir-se mais à vontade" a viver dentro de tubos. Resultado: pela primeira vez, passou um heat em Pipeline

À quinta participação no Pipeline Masters, o surfista português, por fim, ultrapassou um heat e está na terceira ronda da primeira etapa do ano do circuito mundial, que só deverá voltar à água na madrugada de sábado. O que pode ter algo a ver com o facto de Frederico Morais se ter preocupado bastante com praticar a sua vida dentro de tubos durante o confinamento passado em Portugal, porque se queria "sentir cada vez mais à vontade"

Diogo Pombo

Tony Heff/WSL

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A perna de trás fletida, o joelho dobrado e inclinado para a frente, perto do perna dianteira que está assente no pé plantado perto do bico da prancha, o seu corpo também dobrado no encolhimento necessário para caber dentro do casebre tubular onde foi logo nítido que pretendia entrar. Ainda ele remava e nem se tinha posto de pé e essa intenção estava-lhe em toda a postura: estava profundo na onda, encostou-se logo à parede mal se levantou e levou o seu tempo a acelerar a sua linha na onda.

Ficou pouco mais de três segundos escondido, ou a espreitar pelas brechas do lábio superior da onda que formou o tubo não grandioso, nem longo, no qual Frederico Morais se enfiou no Havai, na primeira remada feita, este ano, no circuito mundial de surf. O nome da onda que o proporcionou não poderia bater mais certo com a ação técnica descrita e a localização em questão: Pipeline.

Um dos lugares aquáticos mais associados a tubos, onde muito campeão já se forjou e onde se costuma encerrar épocas em apoteose, está a acolher a etapa inaugural deste reformulado circuito mundial.

Começa-se no lugar que sempre foi sinal de término e Frederico Morais, sabendo-o há meses, como toda a gente, e querendo "aprimorar" uma certa área do seu surf "a nível técnico", aproveitou o tempo que passou em Portugal para se dedicar ao tubo. "Especialmente no início do inverno deu para trabalhar algumas partes mais específicas. Gostava de me sentir cada vez mais à vontade [no tubo]", admitiu à Tribuna Expresso, do Havai e através do telemóvel esperto.

José Sena Goulão

O português falou já qualificado para a terceira ronda do Pipe Masters, que talvez apenas regressará à água na madrugada de sábado (1h, Fuel TV) por ficar a aguardar por ondulações mais simpáticas do que a desfrutada por Kikas, na terceira bateria da primeira ronda do evento em que, feito o tal tubo (5.00 pontos) na tal onda inaugural, ainda conseguiu outro, durante nem dois segundos, logo no arranque na última de três ondas que apanhou.

Frederico Morais terminou em segundo lugar, mas, pela primeira vez e à quinta participação neste evento do Championship Tour (CT), conseguiu qualificar-se para a ronda seguinte: entre 2016 e 2019, fosse como residente do circuito ou portador de um wildcard, o português só não acabou na última posição em um dos sete heats nos quais surfou. Ou seja, foi sempre eliminado na ronda de repescagem da meca havaiana dos tubos.

Não agora, em que terminou no segundo lugar da Seeding Round e avançou para a terceira ronda, pois os dois surfistas com maior pontuação em cada heat da primeira ronda de cada evento são apurados diretamente e quando voltam a vestir as licras as baterias já são um contra um e que ganhe o melhor.

O afinco de Kikas nos meses de quase exclusivo confinamento em Portugal, onde até contou com a ajuda de Richard Marsh, seu treinador - australiano, mas com casa em França -, manifestaram já alguns efeitos. "O Richard fez algumas viagens até Portugal e eu até França para mantermos o contacto, continuarmos a trabalhar e aproveitarmos este ano tão atípico para toda a gente", resumiu, falando do tempo que serviu para se dedicarem a "análise tanto técnica como tática", a planearem objetivos e a decidirem "o que [queriam] fazer" - e para onde o português queria que o seu surf "fosse para trazer algo de novo a este tour".

Novidade já a deu. No mínimo, Frederico Morais sairá de Pipeline com um 17.º lugar, se for derrotado na próxima ronda, o que será sempre o melhor resultado da sua história nesta onda do Havai. O treino compensa e está dada mais uma prova .