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Morgan Cibilic: o rapaz da terra que surfou lesionado, ganhou um heat pela primeira vez e eliminou o líder do circuito mundial

Morgan Ciblic tem 21 anos, é rookie do circuito mundial de surf e até esta quinta-feira nunca tinha vencido uma bateria no Championship Tour. Com um dos tornozelos a 70%, o australiano que vive em Newcastle, onde a segunda etapa está a decorrer, ganhou a John John Florence e está nos oitavos-de-final

Diogo Pombo

Matt Dunbar/WSL/Getty

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Ser nado e criado num lugar onde, obra e graça de Neptuno, o mar forma e faz quebrar ondas com consistência, é uma benesse, até um luxo caso se tenha queda para as navegar com uma qualquer prancha desta vida; no caso de Morgan Cibilic a tábua predileta é de surf e assim foi crescendo em Merewether, a paredes-meias com Newcastle.

Na costa este da Austrália ele foi limando a sua arte de desenhar linhas nas ondas no país onde os surfistas são das colheitas que mais brotam da terra. Hoje está com 21 anos e em 2019 qualificou-se pela primeira vez para o Championship Tour (CT), elitizando a sua existência com a entrada no circuito que guardar os melhores surfistas competidores do planeta.

Nos crescentes esforços da World Surf League em produzir conteúdo próprio, foram espreitar à casa de Morgan Cibilic, todo ele a agir de forma simples, a mostrar o quarto minimalista, a encolher os ombros perante a curiosidade mediática em querer destacar os arraiais de um rapaz - e pouco depois vê-lo a acondicionar pranchas dentro da sua velhinha carrinha com pintura lascada, na espécie de rosa avermelhado.

Poderão ter sido essas rodas a levá-lo, esta quinta-feira, até à praia de Merewether, que tem insistido nas ondas tímidas e sem a personalidade exigível no principal circuito mundial de surf.

Depois de perder dois heats em dezembro, no Havai, na primeira etapa, um dos tornozelos de Morgan Cibilic nem o deixou entrar no mar nos dias que antecederam o arranque da prova em Newcastle - e nem era suposto deixá-lo competir em casa. "Não tinha a certeza se iria competir na perda australiana [quatro etapas], fiz exames e os médicos disseram que deveria estar apto para as últimas três provas. Depois, de repente, os hematomas melhoraram ao fim de 48 horas e consegui caminhar um pouco", contou, entusiasmado, à WSL.

Morgan Cibilic aprontou-se para competir, mas na primeira ronda ficou atrás de Filipe Toledo e recambiado foi para a repescagem, onde outro resultado que não a liderança o eliminaria da prova. Ainda não ganhara um heat no circuito mundial e a próxima tentativa era contra quem o lidera, John John Florence. "A 70%, podes fazê-lo se usares as melhores táticas", disse-lhe o treinador.

A principal foi a parcimónia, com uma pitada de paciência e um condimento de critério a escolher ondas. Morgan apanhou cinco, John John remou para 12, o rookie com 17.13 - a pontuação mais elevada da prova - e o bicampeão mundial (2016 e 2017) ficou nos 13.16. "Durante os últimos minutos não consegui parar de sorri", reconheceria o australiano, alegre e já com os pés na areia.

O miúdo da terra, de feições com traços de Bieber e encabelado ainda mais ao estilo desse cantor, está nos oitavos-de-final do Newcastle Pro e vai surfar contra o conterrâneo Wayde Carmichael no quintal onde se aguarda pela entrada de uma ondulação mais simpática em tamanho.

Na mesma ronda está também o português Frederico Morais, que tem levado a constância para o mar de ondas veraneantes e terá pela frente um Gabriel Medina a experimentar sensações novas - pela primeira vez, não tem o padrasto Charles a acompanhá-lo numa etapa do CT.

Mas, arranjado um treinador temporário (Andy King, ganhador de dois títulos mundiais no canto de Mick Fanning), o brasileiro pode chegar à liderança do circuito caso termine esta prova, pelo menos, no quinto lugar.

  • A ressaca, finalmente, está a acabar
    Surf

    A segunda etapa do circuito mundial da World Surf League (a primeira em 2021) já começou em Newcastle, na Austrália, quase como o arranque da queda dos dominós do regresso do surf competitivo: ainda este mês retornará a Liga MEO em Portugal e, em maio, haverá os ISA Games em El Salvador, onde se atribuirão as últimas vagas para os Jogos Olímpicos de Tóquio