Tribuna Expresso

Perfil

Ténis

Van Uytvanck não está doente - está feliz

O especial em Alison Van Uytvanck deveria ser o facto de ter logrado a sua melhor prestação de sempre em Wimbledon, onde chegou aos oitavos-de-final, eliminando Garbiñe Muguruza pelo caminho. E não o outro facto, o de ser uma das poucas tenistas em atividade a ter assumido a sua homossexualidade

Diogo Pombo

Julian Finney

Partilhar

A força saída das pancadas ao fundo do court é inesperada, mesmo brutal. Os ataques são precisos, a raquete ataca as bolas cedo e acelera-as, respondendo ao serviço com disparos secos, chapados e apontados aos pés de Garbiñe Muguruza.

Arrisca com tudo, explicaria depois, por pertencer ao grupo de cães que surgem por baixo, os “underdogs” de quem pouco se espera, muito se ignora e que miram a balança e concluem que nada têm a perder.

Ela não joga um jogo de ténis, mas de risco; formata a cabeça o corpo e os braços e a sua extensão na raquete para que cada bola por si batida seja um complicador de vida para a adversária. Entra na zona, capricha no arrojo e arranca o tapete de relva debaixo dos pés da campeã em título de Wimbledon, à segunda ronda.

Ruiva e salpicada por sardas na pele translúcida, Alison Van Uytvanck ganha. É seu o papel da tenista bem-disposta e descontraída, apaziguada pela vitória, que chega à sala de imprensa.

A quarta pergunta que lhe colocam no caminho é pessoal, o jornalista pede desculpa, é um tema sensível, vai na mesma direção em que Alison olha, ainda no court, com um sorriso e um punho erguido, antes de se abandonar o tapete com os sacos às costas: “Se for demasiado pessoal, entendo que não queira falar sobre isso. Assumiu a sua homossexualidade este ano, sente-se como um exemplo? Essa decisão tirou algum peso dos seus ombros?”.

Visivelmente tímida, mas segura, responde em cara e tom sérios. Van Uytvanck não se sente mais livre, leve ou desprovida alguma coisa que a solte e antes amarrava - “Apenas decidimos que era algo que não queríamos guardar para nós”. Vinca, abrandando um pouco a voz, que a homossexualidade é algo que não a envergonha, nem vergonha deveria causar a quem seja. “Estou feliz e não faz qualquer diferença se é por estar com um homem, ou uma mulher”.

E o facto de Alison Van Uytvanck, uma belga de 24 anos, boa e competente no seu ofício, 47ª melhor tenista do mundo, ser homossexual, devia ocupar o mesmo espaço de relevância como a refeição que comeu ao almoço no dia anterior.

É irrelevante.

Crescer

A história da tenista belga, contudo, já foi quadrada e preconceituosa, à imagem da forma que o mundo ainda tem de encarar este tema. Van Uytvanck tinha 12 anos quando começou a ser gozada e intimidada por outras jogadoras do circuito júnior. “Foi uma altura difícil, ainda era muito jovem. Só aos 15 ou 16 anos me deixei de importar, já conseguia viver com isso”, resumiu, em abril, quando falou com o “Blick” durante o torneio de Lugano, na Suíça.

DANIEL LEAL-OLIVAS

No início de março, Alison rebentou com o segredo público e revelou a sua homossexualidade, pouco depois de vencer Dominika Cibulkova na final do Open de Budapeste, que lhe deu o segundo título da carreira.

É a quarta tenista no último ano a assumir-se, publicamente: em setembro de 2017 fora a sueca Johanna Larsson e, em dezembro, Conny Perin e Tara Moore anunciariam o seu casamento.

Até que a vitória sobre Garbiñe Muguruza, na passada semana, de uma tenista que, em quatro anos, apenas vencera um jogo em Wimbledon - mais a quarta pergunta que lhe colocaram, na ressaca com a imprensa - inflacionaram-na com mediatismo.

A belga disse e voltou a dizê-lo: é homossexual e não, não está doente. “Não tenho qualquer tipo de doença. É uma coisa boa, porque fui capaz de me assumir como uma pessoa gay”, explicou quem, em criança, foi alvo de bullying na escola e hoje consegue “confrontar com o sucesso desportivo quem [lhe] dificultou tanto a vida”, para que “entendam a dor” com que teve de lidar.

Alison Van Uytvanck disse, assumiu-se, repetiu-o e, mediatizada a sua história, encaminhou-se, de novo, na mesma direção assim que juntou outra vitória em Wimbledon.

Foi até à bancada e beijou Greet Minnen.

As câmaras captaram-no e não será descabido deduzir que a belga assim o desejava. Entretanto, esta segunda-feira, caiu na quarta ronda do Grand Slam inglês, perante a russa Daria Kasatina.

A belga está eliminada, mas não está doente, nem tem uma doença. Está feliz.

Só que está no meio de um desporto cuja uma das maiores figuras, Margaret Court, dona de 24 majors, é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e disse, o ano passado, que o ténis “está cheio de lésbicas”.