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O homem que vende os pontos mais caros de sempre

Novak Djokovic conquistou o US Open e o seu segundo torneio do Grand Slam do ano, contra Juan Martin del Potro (6-3, 7-6(6) e 6-3) - o que torna factual, e moralmente, correto, escrever que um dos melhores tenistas de sempre está de volta ao seu melhor estado. Foi o 14º major para o sérvio

Diogo Pombo

Julian Finney

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Há qualquer coisa em Juan Martin del Potro, e alguém lhe pergunte e com ele delibere, com tempo, por favor, que desfaz o seu estado normal de gigante em tamanho, muito bom tenista e gentil no olhar azulado, para o transformar no exemplo humano literal do que, figurativamente, se tem por costume dizer que é um gigante adormecido.

Porque algo há no argentino que acorda, despertando-o, por arrasto, quando ele se inflama caso o ambiente, o contexto e quem o esteja, in loco, a ver jogar, se inflamem a seu favor.

É uma relação tempestuosa, sem dúvida, pois é de tempestades emocionais e fervorosas que ele necessita para, numa questão de um ponto ganho por uma das suas direitas que contêm a força da natureza, Del Potro virar um gigante (e acordado) tenista com um excelente e excecional nível ténis.

Adormecido estava Juan Martin e acordado ficou com o triunfal smash com que, no segundo set, ganhou um ponto a Novak Djokovic - e esbracejou, esticou ambos os braços para o ar, gritou, e inflamou o público para se tentar inflamar a ele próprio.

As acendalhas já lá estavam, distribuídas pela tribuna onde reuniu uns amigos argentinos, claro, e outros conterrâneos espalhados pelo Arthur Ashe Stadium, muito mais barulhentos e efusivos que o protótipo fã de ténis.

O gigante acordou, e tudo mudou.

Matthew Stockman

Djokovic vencera o primeiro set, por 6-3, sobrepunha-se ao argentino com a excelência das suas esquerdas paralelas e a forma como respondia a qualquer pancada com maior dose de ataque do que a contida nas bolas batidas por Del Potro. Só que, naquele momento, o argentino acordou e sua estrondosa direita passou a fazer o sérvio correr, como sempre corre, mas muito mais vezes em vão.

A gigantesca pancada de direita do argentino dava quilómetros às pernas de Djokovic, muito mais fustigado para devolver bolas, muito menos estável na relação com o ambiente. Sérvio refilava para o ar e com ele próprio, mandava calor pessoas nas bancadas em pontos que conquistava. O despertar de Del Potro era arrebatador. Até Meryl Streep, sentada no estádio, cobria a cara de espanto com as mãos.

Este bruto acordar, como quem cai num caldeirão de cafeína, no primeiro passo que dá fora da cama, durou meio set. Coisa de uma hora, quase. Levou o segundo ato da final do US Open ao tie break, não abrandando na brutalidade das suas direitas cruzadas e chapadas.

Mas: Novak Djokovic.

Um nome e um apelido que forma o tenista que, de vez, está de volta ao que era, antes de um cotovelo o sucumbir a uma operação e da sua mente se entregar às dúvidas e ao cansaço de ganhar, de trabalhar para estar no topo.

Icon Sportswire

O tie break ficou com Djokovic por o sérvio ser uma amostra muito próxima do melhor que é: um tenista defensivo que é mentiroso, porque cada bola que bate é mentirosa no sentido em que é devolvida mais difícil, forte, veloz ou o que seja, do que foi batida.

Defendendo-se, Novak torna-se atacante e cada bola menos exímia de Del Potro - no fundo, cada esquerda ou pancada em slice - era uma oportunidade aproveitada pelo sérvio, conquistador de 13 torneios do Grand Slam, mas perdedor de cinco finais deste major americano.

A confirmação do regresso a este mojo, como lhe chama quem inglês fala, ou, descodificando, a um estado de graça em que Novak Djokovic é a personificação de um muro que devolve todas as bolas, viu-se no ponto do 40-40, com 2-1 no terceiro set - o sérvio, literalmente, chegou a tudo o que Del Potro tinha para inventar e quebrou-lhe o serviço.

Nunca os pontos num jogo de ténis custaram tão caro ao argentino.

Caríssimos prosseguem, mesmo que Del Potro devolva o break e a emoção, pois ele, no seu gigante tamanho que tanto de bom lhe dá ao jogo, também o faz pesado e um corpo poderoso demais para lidar com as longas trocas de bola que só Djokovic sabe como usar, para refrescar o seu jogo.

Mesmo ganhando pontos, o argentino acabava-os de rastos, ofegante, a lutar contra o cansaço no jogo e da um percurso que o fez ressuscitar contra quatro cirurgias ao pulso (três no esquerdo), até estar ali.

Atropelado pelo cansaço, como estava no momento em que o smash triunfal de Novak Djokovic arrebatou o ponto final, do terceiro título do US Open para o sérvio, do seu 14º Grand Slam com que igualou Pete Sampras no terceiro lugar dos mais titulados tenistas nestes torneios (e que nos volta a fazer acreditar na teoria de quem partilhamos tempo neste mundo com os três melhores jogadores de ténis que já existiram).

De Novak Djokovic, por certo, ou muito lá perto andará, será a raquete cujas bolas têm o preço mais caro - ou incalculável - para quem quer que lhe queira ganhar pontos no court. E isso, sim, tem um valor que ainda estamos para entender.

Matthew Stockman

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    Ténis

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