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Karen: 88 kg, 1,98 metros, uma direita demolidora

Com os seus 88 quilos de força que movimenta com anormal agilidade num corpo com 1,98 metros, Karen Khachanov é a nova direita devastadora vinda da Rússia. Aos 22 anos, o tenista superou Novak Djokovic, ganhou o seu primeiro torneio Masters 1000 e está a emular Marat Safin, mas só no estilo de jogo e na técnica. Em tudo o resto, Khachanov é a antítese do compatriota: regrado, contido, educado e dono de um feitio controlado, que não canaliza a raiva contra raquetes

Diogo Pombo

Baptiste Fernandez

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Ele é um miúdo reguila e irrequieto como se deduz de qualquer alma de 16 anos que, no aeroporto, combata o tédio inventando utilidades para um carrinho cuja única função deveria ser arcar com as bagagens. Ele vira-o, revira-o e empurra-o mais descontroladamente do que devia, e não o impede de ir contra de uma rapariga.

Ela não gosta de ser abalroada pelo objeto da brincadeira. Faz cara feia e afasta-se, recolhe para perto da mãe, a quem se queixa. “Que idiota!”, disse-lhe, desgostada com o atitude de quem não soube brincar sem a importunar. Esse rapaz era Karen Khachanov e estava a ir, ou a regressar, de mais uma viagem empurrada pela raquete. Quatro anos volvidos, casar-se-ia com Veronika Shkliaeva, a miúda em quem deixara tão má primeira impressão. O matrimónio consumou-se quando Khachanov tinha 20 anos, idade precoce nos padrões gerais, ainda mais prematura tendo em conta a vida nómada, itinerante e em constante pára-arranca de um tenista a fazer pela vida no circuito ATP.

Assim como é pouco normal ser um russo de 22 primaveras contadas ganhar o seu primeiro torneio Masters 1000 contra Novak Djokovic, a persistente, constante e melhor resposta às bolas mais difíceis do ATP. Mas assim aconteceu, no domingo.

O sérvio era um finalista com bagagem de três extenuantes horas de pontos de break não aproveitados contra Roger Federer, na meia-final, mesmo que nunca tivesse permitido que o suíço lhe quebrasse o serviço. Nessa bagageira cabiam, também, uns sintomas de gripe que o chatearam durante a semana - e, já agora, uma série que já se alongava em 22 vitórias.

Foi contra e sobre esse cansaço que Khachanov brutalizou bolas com a sua pancada de direita, serviço potente e brutal a atacar em pancadas do fundo do court. A força do russo ergueu-se no poderio da sua direita e na agilidade anormal com que movimenta 88 quilos de osso e músculo por 1,98 metros de corpo.

Superou Djokovic na força das pancadas (7-5, 6-4), conseguiu equiparar-se a ele na resistência e raio de ação no campo e levou para casa o troféu arborizado do Masters de Paris. É o quarto troféu da carreira ainda a descolar do russo, que mostrou como é possível aterrar algumas coisas sobre ele.

ANNE-CHRISTINE POUJOULAT

Khachanov, que em outubro já vencera a Kremlin Cup, um torneio de categoria 250, é incrivelmente atípico na forma como é ágil e rápido a mexer-se no court, para o tamanho que tem. É, igualmente, devastador na potência que injeta em qualquer pancada vinda da sua direita, à qual pedir apenas um serviço e um winner na terceira bola serve para ganhar muitos pontos.

O ténis do russo assenta no forte, brutal e aniquilador potencial da sua direita, um estilo similar ao de Marat Safin, um antigo tenista, nascido na era soviética e profissional pela já Rússia, que Khachanov cresceu a admirar.

Quando tinha 16 anos, antes ou depois de conhecer a futura esposa no encontro fortuito no aeroporto, Karen jogou uma partida de exibição contra Safin, em Helsínquia. “Era um jogador carismático, toda a gente sabe do que ele era capaz: o seu jogo de resposta, o seu serviço, todas as suas pancadas eram fortes. Adorava a personalidade dele, a sua maneira de estar no court”, confessou, na altura.

Para quem tanto gosto nutria pelo ídolo e por mais que na técnica, no estilo de jogo e nas pancadas, eles se assemelhem, a cabeça que governa Khachanov é bem diferente da que regia Safin.

Este é calmo e ponderada, fria q.b. durante os jogos e dona de um temperamento morno. O ex-número um do mundo, conquistador dos opens da Austrália e dos EUA, era um tenista sempre volátil e permeável a irritações, com um feitio que refilava com os árbitros e descarregava a raiva em raquetes. Ou, para ser preciso, em 1.055 raquetes, pelas contas que ATP fez do número de utensílios que Marat Safin partiu em campo.

Karen Khachanov tem ar de tipo simpático e educado e comporta-se como tal. Usa sempre um boné com a pala para trás, jogando com a confiança, o conforto e outros adereços mentais num acessório cujo propósito é ter a pala virada à frente, contra o sol.

É falante de inglês fluente e admirador de Cristiano Ronaldo, Kobe Bryant e Juan Martin Del Potro, tipos grandes, fortes e desportistas, como ele. Ocupa a mente com xadrez e leituras sobre História nos parcos tempos livres, que também divide com uma licenciatura online e à distância em Educação Física, na Universidade de Moscovo.

O ano passado, fechou o ano a jogar no ATP Next Gen Finals, torneio reservado aos oito tenistas com menos de 22 anos e melhor ranking. Agora, está no 11º lugar da hierarquia do ténis e, portanto, é o segundo suplente a poder entrar no World Tour Finals, em Londres, onde se junta o top-8 de graúdos do circuito.

A potência, a força e a brutalidade da direita de Karen Khachanov podem, em breve, lá estar.