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Os últimos gestos de Yannick Noah? A marselhesa, lágrimas e cerveja com os croatas no balneário

E viva ao desportivismo, como se poderá dizer. Os gauleses foram ao balneário da Croácia após serem derrotados na final da Taça Davis para congratularem os adversários e beberem umas cervejas juntos. A França foi capitaneada, pela última vez, por Yannick Noah, que se despediu do ténis entoando o hino nacional em lágrimas e criticando o novo modelo de competição que será implementado (por Gerard Piqué) a partir de 2019

Diogo Pombo

Dave Winter

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Uma mosca dentro do balneário da Croácia iria ver, provavelmente, uma equipa em êxtase, repartindo celebrações por abraços, saltos, palmas, gritos de euforia, cânticos e talvez umas bebidas. Os croatas ganharam a Taça Davis, a última tal e qual a conhecemos - até Gerard Piqué e uma empresa chamada Kosmos pegarem na batuta com o novo formato, a partir do próximo ano - e era mais do que normal celebrarem o feito como deve ser, em Lille, onde derrotaram a França debaixo das suas próprias barbas.

A meio desses festejos, a mosca ouviria também alguém a bater à porta e veria que seria a equipa francesa, munida de sorrisos, cerveja e embriagados em desportivismo. E constataria que, a liderá-los, estava o contagiante Yannick Noah.

Com a sua facilidade de sorriso natural, comando a investida de fair-play balneário dentro, bem-disposto apesar da derrota enquanto distribuía felicitações pelos croatas, com uma lata de cerveja na mão. Uma amostra de desportivismo que dispensa metamorfoses para a podermos ver, porque foi filmada, ao ponto de conseguirmos ouvir conversas entre Marin Cilic, Julien Benneteau e Lucas Pouille, até Noah lançar um berro na sala para todos se juntaram para uma fotografia de grupo.

Foi um dos derradeiros atos do carismático capitão da França, que já anunciara que esta seria a sua última Taça Davis e o adeus ao ténis no geral.

Noah adornou a sua despedida gerindo os seus jogadores quase futebolisticamente, no balneário. Admitiu, por exemplo, que ia tocar algumas das canções que a seleção francesa ouviu durante o Mundial. Depois, por ideia sua ou acordo geral, a equipa inventou uma versão de um haka (dança maori, oriunda da Nova Zelândia) em que Jo-Wilfried Tsonga fazia de líder e gritava coisas em francês, enquanto os restantes faziam caretas e gritavam.

Antes de, no court, a Croácia vencer por 3-1, a equipa gaulesa alinhou-se para ouvir o hino nacional. Paralelos à rede, entoaram "A Marselhesa" puxados pelo público nas bancadas e Yannick Noah não conteve as lágrimas. E, depois, esteve 45 minutos a falar na sua derradeira conferência de imprensa no ténis.

Respondeu, opinou e acedeu a tudo quanto era perguntas, prometendo “beber uma cerveja” com as caras que mais conhecia entre os jornalistas, assim que já tinha deixado algumas impressões. Explicou como, ao longo dos três períodos distintos em que foi capitão da França (ganhou três títulos em 1991, 1996 e 2017) tentou ser “um irmão mais velho, às vezes um pai, tendo em conta a idade de certos jogadores”, prometendo “dar tudo o que tinha” em todos os momentos.

Aproveitando a despedida das responsabilidades no ténis, Yannick Noah deixou críticas ao que, a partir do próximo ano, será a Taça Davis nas mãos da Kosmos, empresa de Gerard Piqué, futebolista do Barcelona. O francês de 58 anos, aliás, espera que o nome da competição nem seja o mesmo. “Espero que não lhe chamem Taça Davis. Jogar à melhor de três sets não é a Taça Davis. Jogar em outros sítios não é a Taça Davis. Se as pessoas disserem o contrário é porque estão a mentir. Disse ao presidente, na cara, que estava enojado. Disse-lhe que não pertencia a esse mundo”, disparou, desgostado com o que o ténis de seleções tem à frente.

Para trás, Yannick Noah deixa 21 vitórias e seis derrotas em nove anos a capitanear a França, em que vibrou, esbracejou, saltou e festejou cada ponto com um gesto exuberante diferente.