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És o maior, diz Serena. Não, tu é que és, responde Federer

É raro ver homens a jogarem com, e contra, mulheres e, pela primeira vez, viram-se 23 torneios do Grand Slam femininos a defrontarem 20 majors masculinos. Serena Williams e Roger Federer encontraram-se no court, em pares mistos, durante a Hopman Cup, na Austrália, para no final não pouparem na cerimónia e se elogiarem mutuamente

Diogo Pombo

Paul Kane

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O cabelo amparado por uma fita, a graciosa esquerda a uma mão e toda a bola batido no court por Roger Federer, com a precisão de um neurocirurgião, têm-no, há muito, como o senhor ténis.

A força bruta em qualquer pancada, o serviço com o qual nenhuma adversária é capaz de ler, ou lidar, e o domínio que Serena Williams exerce sobre qualquer partida a partir da linha de fundo colocam-na, também, como a senhora ténis.

Parágrafos redundantes, já que bastaria mencionar o que é habitual destacar no suíço e na americana: ele, com os seus 20 torneios do Grand Slam, e ela, dona de 23, são os humanos que mais perto estiveram, neste século, de serem ditadores a exercerem o seu poder por via de uma raquete, campo, seja quem for que estiver do outro lado da rede.

Há muito, muito tempo, que a evidente supremacia de ambos - mais de Serena no circuito feminino - pôs muita gente a pensar no que poderia acontecer se homens jogassem contra mulheres. Caso algo parecido a uma batalha dos sexos fosse concretizada no court de ténis. Se, por acaso, fosse permitido que a americana e o suíço competissem, de facto, um contra o outro.

Perth, no oeste da Austrália, foi um lugar onde isso esteve perto de suceder, na madrugada de terça-feira.

É lá que se realiza a Hopman Cup, prova a que muitos e bons tenistas vão para jogarem pelos seus países, mas que não dá pontos para o ranking ATP. Este ano, pela primeira vez, Roger Federer coincidiu com Serena Williams e o torneio fez com que a Suíça e os EUA se cruzassem.

E chegou o dia em que eles, ambos com 37 anos, a adiarem o crepúsculo das carreiras e a fazerem-nos crer, às vezes, que essa fuga ao inevitável durará para sempre, se encontraram. Não foi, exatamente, um Roger vs Serena, mas um encontro de pares mistos em que Federer jogou com Belinda Becic ao lado e Williams tinha a companhia de Francis Tiafoe.

A colisão do senhor e da senhora ténis não os fez trocar assim tantas bolas. No primeiro set, nenhum foi capaz de devolver um serviço batido pelo outro. No segundo, viu-se um ponto em que Federer cruzou seis pancadas com Serena, ambos enraizados no fundo do court, até decidir disparar na direção de Tiafoe, plantado mais perto da rede. Por lá, o suíço chegou a levar com uma bola na cara.

Como resposta, o suíço riu-se e sorriu, antes de os senhores do ténis responderem um ao outro, repletos de simpatia, elogios, palavras bonitas e, pronto, cerimónia mutuamente dirigida.

- “Estava nervoso, porque, simplesmente, não sabia. As pessoas falam tanto do serviço dela e agora entendo porquê. É impossível de ler”, admitiu Federer.

- “Também não consigo ler o teu”, confessou Williams.

- “Temos as mesmas qualidades, sabias? O teu é um bocadinho melhor”, reconheceu o suíço.

- “Ele tem um serviço mortal. Não o consegues ler, literalmente, e há uma razão para ele ser o melhor, porque não podes ser o melhor sem teres uma arma incrível, como o serviço. O tipo é fantástico, é o melhor da história, para ser sincera”, resumiu a americana.

Com Federer e Williams tão relaxados, a respeitarem a regra de quase louvarem o outro a cada frase, no final do encontro, a cena que se pintou mais parecia um diálogo de uma britcom, mas com mais público real (pouco mais de 14 mil pessoas nas bancadas), que se unia em gargalhadas enquanto os tenistas conversavam sobre o jogo.

O homem e a mulher que melhor ou, para ser mais consensual, mais ganharam no ténis, este século, finalmente coincidiram em court e o resultado foi este: boa-disposição.

E o outro resultado, o que mais costuma interessar, no formato reduzido adotado pela Hopman Cup, ficou-se pelos parciais de 4-2, 4-3 (5-3) para a equipa da Suíça.