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A emocionante carta que Nick Kyrgios escreveu sobre Andy Murray: "Estou sempre a dizer-lhe: 'Meu, és tão melhor que o Djokovic'"

O talentoso tenista australiano, tantas vezes criticado pela sua atitude fora e dentro dos courts, colocou o seu tom mais sério para relatar ao "The Guardian" as saudades que vai ter do amigo e daquele que era, provavelmente, o único companheiro de profissão que compreendia o seu carácter extrovertido e desafiante

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Matthew Stockman

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De Nick Kyrgios já sabemos tratar-se de um tenista hiper-talentoso, capaz de bater qualquer um dos grandes, mas sem muita paciência para as obrigações de uma carreira como profissional.

Com mais suspensões e multas do que títulos e muitas vezes criticado por colegas pelas sua atitude displicente fora e dentro dos courts, o australiano de 23 anos tinha um grande companheiro no circuito, talvez o único a entender na perfeição o seu espírito desafiante de adolescente: Andy Murray.

Pouco depois do britânico anunciar, entre lágrimas, que estes serão os seus últimos meses no circuito, devido a uma grave lesão na anca, o australiano galhofeiro escreveu uma emocionada carta sobre Murray para o "The Guardian".

"A primeira vez que me cruzei com o Andy ele destruiu-me num encontro em Toronto [Masters 1000 de 2014]. Desde aí que trocamos mensagens e saímos juntos. Parece que o conheço desde sempre", começa por escrever Kyrgios. "Estamos sempre na brincadeira. Às vezes estamos nos balneários a dizer as maiores barbaridades um ao outro e estão 20 pessoas a olhar para nós. Sabemos que quando estamos juntos, vai haver muito divertimento, brincadeira e boas vibrações. Ele é hilariante, muito engraçado".

No texto, Kyrgios sublinha que o ténis de Murray "não tem o reconhecimento" que devia ter e que o britânico é um dos mais complicados adversários que teve na carreira. "Ele é um tenista inacreditável, um dos mais duros contra quem joguei. E não tem também o crédito devido por aquilo que ele é fora dos courts. É apenas uma pessoa normal, humilde, sempre com os pés no chão que gosta de se divertir e passar um bom bocado".

"Quando joguei contra ele as primeiras vezes, senti-me um puto no court. Já ia batido para o campo. Quando jogava contra o Federer ou contra o Rafa, não me assustava tanto. Mas o jogo do Andy é muito mais duro para um tipo como eu. Porque eu sabia que não conseguia fazer jogadas longas com ele e que não durava muito. Adorava ter jogado contra ele com ele no seu melhor e eu no meu melhor, como estou neste momento", revela.

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"Estou sempre a dizer-lhe: 'Meu, és tão melhor que o Djokovic, devias ter uma carreira melhor'. Estou sempre a chateá-lo com isso. É mesmo azar que o corpo dele o tenha deixado mal", lamenta ainda o atual número 51 do Mundo que, ainda assim, acredita que Murray "nunca se vai arrepender" da decisão que está a tomar.

Admitindo que vai sentir saudades do seu companheiro, é um Kyrgios num tom mais sério, a anos-luz daquele que estamos acostumados a ver, aquele que assina a carta: "Gosto mesmo quando estou com ele, quando vamos almoçar e metemos a conversa em dia. Ele torna o teu dia melhor".

"Ele colocou-me debaixo da sua asa quando eu era mais novo, mas depois percebeu que eu era uma espécie de espírito livre, que fazia o que me dava na cabeça e a nossa relação passou a ser mais de amizade", diz ainda.

No final do texto, o australiano revela um último desejo: "Era porreiro jogar pares com ele, nem que fosse uma vez. Não sei muito bem onde é que isso pode acontecer e eu sei que singulares é a prioridade dele, mas nunca se sabe. Quem sabe isso possa acontecer em Wimbledon. Estou a fazer figas, se o físico dele estiver bem, adorava jogar pares com ele em Wimbledon".